Epifania brasileira em Cannes a bordo do ‘Bacurau’

Epifania brasileira em Cannes a bordo do ‘Bacurau’

Rodrigo Fonseca

26 de maio de 2019 | 04h50

“Bacurau” no set: os diretores e a produtora Emilie Lesclaux _ cred Victor Jucá

Rodrigo Fonseca
Há um clima de Copa do Mundo nas redes sociais como um merecido reconhecimento ao Prêmio do Júri de Cannes dado a “Bacurau” no encerramento de um Festival de Cannes no qual os resultados orquestrados pelo diretor Alejandro González Iñárritu e seus parceiros valorizaram a excelência técnica paralela ao simbolismo ético, ao tônus político das metáforas audiovisuais que saem dos 21 concorrentes à Palma de Ouro. A vitória de Pernambuco coroa uma travessia história que começa lá atrás, ainda em 1996, com “Baile perfumado”, e segue até a nova geração que tem Nara Normande, Tião e Gabriel Mascaro entre seus expoentes. Mesmo a escolha da Palma, dada a Bong Joon Ho e seu brilhante “Parasite”, coroou um rigor e uma virtude narrativa de múltiplas latitudes.

Na hora da premiação, saiu este texto:
Exibido no segundo dia da programação do 72. Festival de Cannes, que começou no dia 14 e terminou no sábado com a entrega da Palma de Ouro a Bong Joon Ho e sua hilária comédia de humor ácido “Parasite”, o filme brasileiro “Bacurau”, com CEP de Pernambuco, deu ao cinema brasileiro a mais valiosa láurea que um longa-metragem nacional de ficção já recebeu por lá desde 1969: o Prix du Juri (Prêmio do Júri). Em 1962, ganhamos a Palma com “O pagador de promessas”. Há 50 anos, Glauber Rocha sagrou-se o melhor diretor da Croisette, com “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. As atrizes Fernanda Torres e Sandra Corveloni foram premiadas em 1986 e 2008  E em 2016, um .doc de Eryk Rocha, “Cinema Novo”, ganhou o troféu L’Oeil d’Or. E uma penca de curtas foram laureados, como “Meow”. Agora, Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho se juntam a eles. O longa estreia dia 30 de agosto em nosso circuito, com fome de debate.

“É uma vitória para os trabalhadores da cultura”, disse Kleber no palco. “Trouxe esse filme aqui no dia em que Cannes homenageou um dos diretores que me influenciaram, John Carpenter, que me mostrou, nos anos 1980 e 90, que filmes de gênero podem ser únicos”, completou ele em mensagem ao Estadão.

Dornelles, ao receber o Prêmio do Júri, repetiu uma frase que aparece nos créditos de “Bacurau”, como reação aos problemas do atual governo com que ganha a vida fazendo arte ou dando aula. “Este filme envolveu o trabalho de muita gente, de vários lugares do país. Muita gente trabalhou duro para que estivéssemos aqui”, disse o cineasta, que integrou a equipe de Kleber em seu filme anterior, “Aquarius”, também indicado à Palma.

Segundo Juliano Dornelles, o Sertão é mais diverso do que muitos podem imaginar.

“A idéia de filmar uma comunidade isolada no interior profundo do Brasil sempre funcionou com a imagem clássica do Sertão seco e cinzento mas, em “Bacurau” as coisas não funcionam exatamente dessa maneira. Nós fomos presenteados com uma outra imagem desse lugar, um sertão completamente tomado por vida e exuberância e, diante dessa bela oportunidade, pudemos abraçar esse cenário com muita alegria”, disse o cineasta, conhecido pelo premiado “Mens Sana in Corpore Sano”, de 2011, antes de o festival começar, num papo com o P de Pop.

Rodada no Sertão do Seridó, divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba, “Bacurau” mistura aventura, terror e geopolítica.  “O ‘Bacurau’ se passa num pequeno povoado no sertão profundo do Brasil e talvez tenha uma estrutura próxima de um western mas sem dúvida há semelhanças com outros gêneros de cinema”, diz Dornelles. “Preferimos deixar o público decidir o que acabou de ver, sempre fazendo descobertas e ajudando com a imaginação a compor um universo particular”.

Na coletiva da imprensa de “Bacurau”, que foi salpicada de tons políticos, Udo Kier, um dos motores da força poética do longa, divertiu os jornalistas ao dizer: “Estrelei muitos filmes ao longo da minha vida, mas há pelo menos um 50 de que você pode gostar sem precisar de álcool para isso”. Na mesa, Dornelles e Kleber estavam ao lado da produtora Emilie Lesclaux e de parte do elenco nacional – Karine Telles, Silvero Pereira, Bárbara Colen e Thomas Aquino, além do astro germânico. Já no início, veio um recado em prol da diversidade. “Faço filmes com todos os tipos de pessoas”, disse Kleber, sem imaginar a honraria que seu longa viria a receber.

Neste ano em que a tônica de Cannes foi estudar territórios, físicos ou biológicos, e formular a partir deles uma reflexão sobre identidade, “Bacurau” surge como uma resposta, no tempo, à opressão do povo brasileiro a invasores estrangeiros. Na trama, um grupo de caçadores que falam inglês, liderados pelo alemão Michael (Udo Kier), matam os moradores de um povoado no sertão, o tal Bacurau, que sumiu do mapa. Numa ponte com a tradição do “filme de cangaço”, Kleber e Dornelles evocam uma máxima de Glauber: “Mais fortes são os poderes do povo”. Os estrangeiros têm armas. Os nordestinos, resiliência, expressa na evocação à trilha sonora de Sergio Ricardo no filme “A hora e a vez de Auguto Matraga” (1965): “Vim aqui só pra dizer/ Ninguém há de me calar”.

“Já existe uma distopia no Brasil. Ela aparece quando a gente precisa dizer o óbvio, que lembrar para as pessoas que é necessário defender a educação”, disse Kleber ao Estado.

O resultado saiu neste sábado, em meio a uma dupla vitória para o Brasil: “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, do cearense Karim Aïnouz, ganhou o troféu principal da mostra Um Certo Olhar (o Priz Un Certain Regard), e o thriller “The Lighthouse”, produzido pelo carioca Rodrigo Teixeira, recebeu o Prêmio da Crítica. Iñarritu, ganhador de Oscars por “Birdman” (2015) e “O Regresso” (2016), viu em “Bacurau” um debate sobre injustiça social. Integraram o júri dele em Cannes cinco cineastas (a italiana Alice Rohrwacher, a americana Kelly Reichardt, o polonês Pawel Pawlikowski, o francês Robin Campillo e o grego Yorgos Lanthimos), as atrizes Maimouna N’Diaye (de Burkina Faso, também diretora) e Elle Fanning (dos EUA) e o quadrinista franco-sérvio Enki Bilal.

Dornelles e Kleber venceram nessa categoria do palmarês de Cannes em empate com o diretor francês de origem maliana Ladj Ly, que eletrizou o evento com “Les misérables”. Seu longa mostra a corrupção policial nos subúrbios de Paris, a partir da agressão a um menino negro.

Sempre inflamado ao ressaltar sua descendência africana, Ladj diz que seu cinema ambiciona dar voz às gerações do amanhã. “A única força que pode fazer o mundo avançar é a juventude. Ela precisa de espaço de expressão. E, mais do que isso, precisa do acesso à educação”, disse o diretor de 39 anos a Cannes.

Ladj e o duo Dornelles + Kleber trazem a barbárie à tona na narrativa que levam às telas. Bong Joon Ho também, mas sob uma perspectiva cômica. “Parasite” foi uma unanimidade entre os críticos e entre os jurados, como disse Iñarritu. É quase um filme dos Trapalhões: nele, um clã de trambiqueiros faz de tudo para trabalhar na casa de um casal rico, parasitando os dois e suas crianças. Mas há um segredo naquele casarão que vai levar os planos dessa família de pilantras para as fronteiras da brutalidade.

“Existe uma praga que se chama capitalismo e ela nos adoece. Aprendi isso vendo desenhos japoneses, onde o equilíbrio da natureza é quebrado pela ganância. Famílias também são um ecossistema”, disse Bong ao Estadão.

Pouco antes de a Coreia do Sul levar a Palma de 2019 para casa, Sylvester Stallone entrou no Palais des Festivals. Ele foi premiar a primeira mulher cineasta negra a concorrer em Cannes nos 72 anos de história do festival: a francesa de origem senegalesa Mati Diop. Ela ganhou o Grand Prix, a honraria mais disputada do evento depois da Palma, com o drama romântico “Atlantique”. É uma trama com múltiplas camadas tendo como base a dor de uma jovem de Dakar que, em meio a um casamento arranjado, sonha com a volta de um namorado operário que partiu oceano adentro.

“É triste saber que só em 2019 Cannes teve uma diretora negra em sua competição. Estou aqui impelida pelo desejo de ver mais pessoas negras nas telas. Minha presença aqui é só o começo para uma estrada longa”, disse a diretora de 36 anos, que é sobrinha do cineasta Djibril Diop Mambéty (1945-1998), de “Hienas” (1992). “As histórias que eu preciso contar tornam o passado e o futuro uma força circular, que faz os imigrantes uma representação fantasmagórica do desamparo, mas também da resistência”.

 

Antenado com reflexões sobre a afirmação da força feminina, o júri deu à diretora Célina Sciamma a láurea de melhor roteiro por “Portrait de une jeune fille en feu”, sobre uma pintora que deve retratar uma jovem oprimida. Juntas, elas se libertam.

“É a importância da união”, disse Sciamma ao GShow.

Para a láurea de direção, Iñárritu & cia. foram mais conservadores e premiaram os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne por im dos filmes mais fracos da dupla belga: “O jovem Ahmed”. O motivo: o debate que eles abrem sobre o risco do fundamentalismo a partir de um rapaz que se deixa seduzir por ideias agressivas.

Noa prêmios de atuação, inglesa Emily Beecham foi laureada pela sci-fi “Little Joe”: ela é a botânica que cultiva uma flor capaz de polinizar felicidade pelo ar. “A fantasia nos fortalece”, disse a britânica na Croisette.

Já o melhor ator foi o espanhol Antonio Banderas, que fez Cannes chorar à frente de “Dor e glória”, de Pedro Almodóvar. O novo melodrama do mestre do gênero era encarado como favorito, mas acabou destronado. Banderas vive um cineasta em crise que revê seu passado em meio a um mergulho nas drogas.

“A Espanha é Picasso, é Dali, mas é também Almodóvar. Ele é a chave para que o mundo entenda parte da riqueza da alma espanhola”, disse Banderas.

O melhor curta-metragem de Cannes, escolhido por um júri paralelo ao de Iñárritu, chefiado pela cineasta francesa Claire Denis, elegeu como vencedor “La distance entre Le Ciel et nous”, do grego Vasilis Kekatos.

Dada ao melhor filme de estreia de Cannes, a Caméra d’Or, que este ano ficou sob a responsabilidade de um time de jurados comandados pelo diretor cambojano Rithy Panh, coroou o longa “Nuestras madres”, de César Diaz, da Guatemala. Dedicado aos documentários distribuídos pelas diferentes seções de Cannes, o troféu L’Oeil d’Or dest ano coroou uma saga de afirmação feminina em meio aos conflitos armados na Síria: “For Sama”, de Waad Al Kateab e Edward Watts. A produção acompanha as lutas diárias da jovem síria Waad, em meio à maternidade, em Aleppo. O L’Oeil d’Or trouxe ainda um reconhecimento, numa vitória empatada, para o chileno Patricio Guzmán e seu “La cordillera de los sueños”, uma vez antenado com o saldo negativo da ditadura em seu país.

Dedicada ao debate de questões humanistas e votada por entidades religiosas de credos distintos, a láurea do Júri Ecumênico de Cannes contemplou a narrativa de tons poéticos e transcendentalistas do diretor americano Terrence Malick, pelo filme « A hidden life ». O novo longa do veterano cineasta e filósofo americano recria um episódio trágico da II Guerra Mundial para os austríacos: a história de um fazendeiro germânico que se recusou a apoiar os nazistas.

Ao fim da cerimônia de premiação, Cannes recebeu os atores Reda Kateb e Vincent Cassel para uma projeção do que promete ser um dos maiores êxitos de bilheteria da França este ano: a comédia motivacional “Hors norme”. Seus diretores? A dupla Olivier Nakache e Éric Toledano, que levou cerca de 20 milhões de franceses às salas de exibição em 2011 para rirem com “Intocáveis”. Agora, em seu novo projeto, Cassel e Kateb vivem dois professores que ajudam crianças autistas a se integrarem. O longa de Nakache e Toledano foi a atração de encerramento do festival, em uma sessão hors-concours.
Terminada a maratona de Cannes, vem aí o Festival de Veneza, cuja 76. edição vai de 28 de agosto a 7 de setembro.

Palma de Ouro: “Parasite”, de Bong Joon Ho
Grand Prix:  “Atlantique”, de Mati Diop
Curta-Metragem: “La distance entre le Ciel et nous”, de Vasilis Kekatos
Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne, por “O jovem Ahmed”
Atriz: Emily Beecham, por “Little Joe”
Ator: Antonio Banderas, por Dor e glória”
Roteiro: Céline Sciamma, por “Portrait de une jeune fille en feu”
Prêmio do Júri: “Les Misérables”, de Ladj Ly, e “Bacurau”, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho
Menção especial: “It must be Heaven”, de Elia Suleiman
Troféu Caméra d’Or (Filme de estreia): “Nuestras madres”, de César Diaz
Prêmio L’Oeil d’Or de Melhor Documentário: “For Sama” e “La cordillera de los sueños”
Prêmio da Crítica: “It Must Be Heaven”
Prêmio do Júri Ecumênico: “A hidden life”

 

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