‘Entre Nós Talvez Existam…’ Brasília(s)

‘Entre Nós Talvez Existam…’ Brasília(s)

Rodrigo Fonseca

20 de dezembro de 2020 | 10h56

Rodrigo Fonseca
Em seus momentos finais, colhendo vitórias simbólicas sucessivas pra preservação da cultura no país, como foi a memorável conversa com Ken Loach, a 53ª edição do Festival de Brasília escancarou sua batalha contra o fascismo em sua penúltima noite de competição ao projetar, via Canal Brasil, “Entre Nós Talvez Estejam Multidões”. Exibida antes no Olhar de Cinema de Curitiba, a produção com CEP em MG/PE, dirigida por Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito, resgata os momentos que antecederam a eleição presidencial de 2018, a partir da luta dos moradores da ocupação urbana Eliana Silva, em Belo Horizonte. Entre idas e vindas pelo presente, passado e futuro daquela população, o filme abre com uma possante discussão sobre como se utilizar cartas para legitimar a demarcação geopolítica de uma área urbana a partir da presença dos Correios. São cinco minutos e nove segundos dessa discussão, com a câmera observando a conversação à distância, sem fitar nenhum/a das/dos sujeitos ali reunidos. Sem nunca abrir mão da Sociologia, apoiada na apolínea movimentação dessa já citada câmera pelos diretores de fotografia Raphael Malta Clasen e Rick Mello, os cineastas seguem a montagem abrindo o plano para uma jovem que canta Whitney Houston sobre um banquinho, soltando a voz a plenos pulmões. Mais pra frente, veremos uma dança de um coletivo. São manifestações de vida de um grupo que peleja pela pertença, sem perder o foco nos riscos que o Brasil passava, naquele momento, diante de um avanço do conservadorismo. Essas tais manifestações se configuram na tela sob uma lógica muralista, que explode, apesar do quadro fixo, a partir de sua engenharia de som. O rigor na edição faz do filme um precioso documento do redesenho citadino da capital mineira e, também, um necessário registro das convulsões éticas de uma pátria em tempos de insegurança – assunto ao qual Brasília sempre foi atento. A prova disso vai estar num debate a ser realizado neste domingo, às 15h, no qual o crítico Ricardo Cota vai conduzir um imperdível papo sobre os filmes e cineastas que incendiaram discussões entre a ética, a estética, a poética e a política em solo brasiliense ao longos das seis décadas de existência da cidade que sedia a maratona cinéfila. Conversam com Cota: André Xará, Anne Celestino, Cláudio Assis, Jacques Cheuiche, Lino Meirelles, Maya Da-Rin, Paula Gaitán e Paulo Caldas.

Cota esteve na costura da curadoria assinada pelo documentarista Silvio Tendler que, jamais abriu mão da essência convulsiva e combativa que sempre caracterizou o festival. Esta edição, feita às pressas, após uma série de problemas inerentes ao desmanche da Cultura no Brasil, chegou neste segundo hemisfério de dezembro quase como um presente de Natal à resiliência dos agentes culturais, demarcando sua potência com debates sobre temas urgentes como as representações das populações negras nas telas e sobre as grandes mulheres diretoras do país. O papo com Loach, na última quarta, foi a cereja deste bolo assado por Tendler com a medida certa de açúcar, de afeto e de indignação. Entre os longas que concorreram, todos, até aqui, impressionam pelo dinamismo da montagem, com especial destaque para “Por Onde Anda Makunaíma?”, de Rodrigo Séllos. Falta um longa: “Ivan, o TerrirVel”, de Mario Abbade, que saiu premiado com a láurea de melhor documentário no Festival de Stiges, na Espanha, há dois meses. Entre os curtas-metragens, merecem destaque “Guardião dos Caminhos”, de Milena Manfredini, e “Ouro Para o Bem do Brasil”, de Gregory Baltz, que, de maneira distinta, repensam as convenções da maneira de se editar imagens no país. Merece destaque ainda o roteiro de “Quanto Pesa”, de Breno Nina.

Em paralelo à competição pelo troféu Candango, Brasília transformou sua 53ª edição em uma arqueologia do saber produzido pelo cinema de invenção brasileiro, re(vi)vendo cults construídos na margem do risco, da pesquisa de linguagem, a partir da URL na URL http://www.cultura.df.gov.br/mostra-paralela-on-line-todos-os-filmes/?fbclid=IwAR0O6em8CZCwS9DmQ0npu2gcOOAyUDxVKQngT4Vu0MyTI7XnyCE68aVPiKM para conferir uma maratona de ideias, recheadas de grandes interpretações. O nome dessa seção de pérolas autorais é MOSTRA PARALELA ONLINE, que teve o cineasta, produtor e judoca Cavi Borges, como organizador. Uma das atrações principais ali é assinado pelo baiano Fernando Coni Campos (1933-1988): “O Mágico e o Delegado” (1983), longa que conquistou o Candango de melhor filme com seu olhar marxista. É a mais bonita metáfora cinematográfica para o causo bíblico da multiplicação de pães e peixes assumindo como herói um prestigidator, vivido por um Nelson Xavier de capa e cartola, lutando contra a moral de uma polícia de sanha coronelista.

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