‘ENTRE HOMENS’, sob as bênçãos de Pasolini

‘ENTRE HOMENS’, sob as bênçãos de Pasolini

Rodrigo Fonseca

16 de maio de 2021 | 11h49

Cena do trecho “Conectados” da peça “ENTRE HOMENS”, que tem projeção às 21h no Youtube, via https://www.youtube.com/c/EntreHomensOnline

Rodrigo Fonseca
Exortação aos crocodilos da paranoia, aquela provocada pelas violências sexuais, a peça “ENTRE HOMENS”, um binômio dividido entre o suarento hemisfério das redes sociais (“Conectados”) e o friíssimo hemisfério da introspecção (“Por Amor”), evoca (espiritualmente) Pier Paolo Pasolini (1922-1935), realizador, dramaturgo e agitador cultural italiano, morto por uma violência de Estado fantasiada de michê. E o evoca em sua escrita mais corsária, na dimensão de poeta do cineasta por trás de “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964), pela carpintaria estética que o espetáculo teatral escrito por Rogério Corrêa aplica ao viver LGBTQ+, nas desinências do masculino. O fato de a covid-19 ter levado os cantos de bode e as nuvens de Aristófanes ao ambiente audiovisual da web, criando novas e resistentes experimentações de linguagem (como fica explícito nos riscos, rabiscos, sons e fúrias do diretor Cesar Augusto ao encenar diálogos e rubricas de Corrêa) torna Pasolini algo mais do que uma fantasmagoria ou uma nota de rodapé: ele é parentela necessária para uma consolidação de projeto dramatúrgico. Lê-se nos versos de “O Pranto da Escavadora”, rascunhado por Pasolini cinco anos antes de sua estreia na direção de longas-metragens, com o doído “Desajuste Social” (“Accattone”, 1961):

“Chora aquilo que tem
fim e recomeça. Aquilo que eram
verdes campos, espaço aberto, torna-se
num pátio branco como a cera,
fechado em decoroso rancor;
aquilo que era quase uma velha feira
de revestimentos frescos de argamassa ao sol,
torna-se num novo ilhéu, que ferve
numa ordem de extenuada dor.”

Pois chora-se (bem) no vomitório de situações nada triviais de Corrêa, que podem ser vistos no YouTube, hoje, às 21h. Estudo de casos de agressividades homofóbicas, sobretudo aquelas institucionalizadas, o texto de “ENTRE HOMENS” contempla, em sua essência, um inventário metafísico do Tempo, numa triagem de cicatrizes que vem e que vão, de século a século, de governo a governo, da Nigéria à Chechênia, passando pelo Rio de Janeiro, irrompidas pelas hostilidades àqueles que amam fora de uma imposta norma moral. Mas é um estudo no qual o diretor Cesar Augusto brinca de “Salò” (já que o papo aqui é Pasolini, vale citar seu canto de cisne) e mistura vinhetas, animações, colagens, rabos de gato em torções fálicas, conversa e metalinguagem. Mas é uma mistura que sempre se debruça sobre o Tempo, ou na percepção do quão perpétua é a exclusão ou numa simples distinção geracional, seja a de dois quase amantes, seja a de um pai e seu filho. E tudo se dá numa sintonia com o que escrevia Pasolini: “E agora volto a casa, rico daqueles anos/tão novos que jamais teria pensado/em considerá-los velhos numa alma/a eles longínqua, como a cada passado”.

No primeiro eixo de “ENTRE HOMENS”, “Conectados”, Corrêa e Cesar Augusto percorrem veredas cheias de efeitos visuais de um chat para traduzirem a luta greco-romana de quereres entre dois avatares: um brasileiro e um nigeriano. Num dos lados do ringue virtual, Mário, um brasileiro de quarenta e poucos anos de idade, digita fantasias, ao iniciar um relacionamento com um nigeriano muçulmano de 19 anos, Fantusi, através de um site de bate-papo gay. Falam de mamilos, de tanquinhos e de todo o preconceito religioso que se descortina contra homossexuais. As trocas entre eles têm a aspereza bêbada de um conhaque de alcatrão, lembrando o roteiro escrito por Pasolini para Mauro Bolognini (1922–2001) e filmado com o título de “La Notte Brava” (aqui “A Longa Noite das Loucuras”), em 1959. Nesse eixo, Cesar Augusto extrai de seu elenco (Márcio Nascimento, Alexandre Mitre, Thadeu Matos e Lucas Popeta) sorrisos e insinuações que humanizam todos os personagens ao limite da fratura – jamais do desgaste. No segundo eixo, “Por Amor”, o jogo é ainda mais pesado, pois escalaram um demiurgo dos palcos cariocas, Isaac Bernat, para monologar, num devir dionisíaco, sobre um processo de criação. Em seu estado de graça habitual, Bernat vive um escritor que busca escrever sobre os dois lados de uma predatória inquisição aos gays na Chechênia, dando voz a um oficial da polícia e ao pai de um jovem cuja aposta na homoafetividade assusta quem veste farda e estampa distintivos no peito. Uma vez mais, Pasolini canta pra subir:
“Os vossos olhos são os mesmos olhos maus,
Vocês têm medo, incerteza, desespero
(e é excelente tudo isso) mas sabem ser já
Também prepotentes, regateadores e convencidos.
Prerrogativas da pequena burguesia, meus amigos,
Quando ontem em Valle Giulia vocês se batiam
com os polícias,
eu simpatizava mais com os polícias!
Porque os polícias são filhos de pobres.
Vêm das periferias, do campo ou da cidade, tanto dá.
Quanto a mim, conheço muito bem
o seu modo de terem sido crianças e rapazes,
o tesouro de mil liras, o pai que fico também rapaz até agora,
por causa da miséria, que não confere autoridade”.

Dos versos acima, garimpados no polêmico poema “O PCI para os jovens!” (1968), extrai-se o sumo mais cítrico da poesia de Pasolini em relação à complacência do governo com as práticas do medo e do terror. São essas práticas que perpassam os gestos e ação dos personagens de ENTRE HOMENS, numa tradução de sentimentos que, barbaramente, ainda são obrigados a viverem entre frestas. Daí a relevância de um espetáculo como esse – encapado por uma direção de cetim vívido – que pode ser visto na URL https://www.youtube.com/c/EntreHomensOnline.

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