‘Entebbe’ leva polêmica à HBO

‘Entebbe’ leva polêmica à HBO

Rodrigo Fonseca

17 de novembro de 2019 | 11h39

‘Entebbe’: uma partida de ‘War’
Rodrigo Fonseca

Ímã de ódios, mas também de aplausos, como tudo o que José Padilha faz desde “Tropa de elite” (2007), o feérico “7 Dias em Entebbe” chegou à grade da HBO, com exibição assegurada na plataforma de streaming da emissora. O filme revela muito sobre o cineasta. No tabuleiro da estética, o realizador carioca avança 20 casas, na rota do amadurecimento como diretor, com “7 dias em Entebbe”, um thriller político sobre causa e consequência nas ideologias. Desde o documentário que o revelou, sua linha autoral formal é a mesma, e sempre foucaultiana: analisar os dispositivos que vigiam e punem a sociedade sobre múltiplos pontos de vista, para a construção de uma dialética na qual há sempre um cordeiro a ser imolado em nome da fé na ordem. Era assim com a inocência dos “aspiras” de “Tropa de elite” (2007); era assim com a carne do policial do futuro transformado em homem de lata de “RoboCop” (2014); foi assim com a crença na lei do policial Ruffo (Selton Mello) no seriado “O mecanismo”; é assim aqui com diferentes personagens ligados ao sequestro de um avião da Air France, em 1976, com tripulantes de Israel.
Crises de consciência no cumprimento do dever são o sintoma essencial dos protagonistas de Padilha, a julgar pelo Capitão Nascimento. Por isso, elas transbordam aqui – nesta produção de CEP anglo-americano, com custo estimado em US$ 3,9 milhões – tanto nos envolvidos no sequestro quanto nas forças de retaliação a esse crime. Existe tensão (o conflito da responsabilidade civil) do lado do primeiro-ministro Yitzhak Rabin (papel dado a Lior Ashkenazi) e do lado dos extremistas (classificados como terroristas) alemães vividos (com maestria) por Rosamund Pike (dublada em português por Márcia Regina) e Daniel Brühl (especialmente luminoso), com a voz do genial dublador Wendel Bezerra na versão brasileira. Eles sequestram uma nave para forçar a libertação de palestinos.

Como é de costume em sua obra, Padilha não isenta ninguém de nenhum delito: seja o delito da ação, seja o delito da negligência. Mas essa não isenção não elimina a riqueza interna de cada ator social em cena: todos têm sentimentos modulando suas escolhas e seus erros. Uma das maiores riquezas do longa-metragem, construído como um filme de estratégia à moda Costa-Gavras (o diretor de “Z”, cuja filmografia é adorada por Padilha), está no cuidado do diretor com os dramas humanos (psicológicos) de sequestradores, políticos e vítimas. É um jogo de War com peças vivas.
Há uma só figura em cena, cuja tessitura dramática parece mais horizontal (sem camadas): o ministro da Defesa de Israel, Shimon Peres, papel dado ao brilhante ator inglês Eddie Marsan. Mas essa suposta natureza unidimensional de Shimon vai caindo por terra conforme a montagem de Daniel Rezende vai se aprofundando na situação política e moral do governo de Israel, calçando-se no talento de Marsan.
É na edição de Rezende que Padilha estrutura o mais engenhoso dispositivo de “7 dias em Entebbe”: um balé que encena uma coreografia febril sobre tradição e modernidade, a partir das leis do povo israelense. Dança parece ser uma arte sem conexão com o universo violento do realizador. A surpresa e o prazer brotam daí: de ver como Padilha, sempre apoiado na câmera taquicárdica do fotógrafo Lula Carvalho, consegue reinventar sua forma de narrar.
p.s.: Filme de abertura de Locarno, o acalmado drama italiano “Magari” (“If only” é seu título mundial), de Ginevra Elkann, vai ganhar uma projeção de gala no Festival de Marrakech, que começa no dia 29 de novembro, no Marrocos, tendo o diretor Kleber Mendonça Filho no júri e o longa “A febre”, de Maya Dar-Rin, sobre um índio que trabalha como vigia no cais de Manaus, como concorrente a prêmios.

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