Enquanto isso, na Sala da Justiça: Tela Quente

Enquanto isso, na Sala da Justiça: Tela Quente

Rodrigo Fonseca

20 de julho de 2020 | 13h50

Rodrigo Fonseca
Durante 24 horas, a partir das 14h do dia 22 de agosto, Krypton, Gotham City, OA, a Ilha Paraíso de Themyscira e outros territórios dos heróis da DC Comics vão ser alvo de uma das maiores feiras da cultura pop – do que online – do planisfério nerd. DC FanDome é o nome do evento que vai antecipar, entre muitas atrações, detalhes sobre o esperado “Snyder Cut”, também chamado “Zack Snyder’s Justice League”. Previsto para 2021, no HBO Max, o longa é uma versão estendida, recauchutada e autoralíssima do controverso “LIGA DA JUSTIÇA”, de 2017, que a Globo exibe esta noite, às 22h30, na “Tela Quente”. A exibição ocorre também na grade do Globoplay. Com uma bilheteria estimada em US$ 657,9 milhões, o filme original enfrentou mudanças de roteiro e uma mudança brusca de liderança depois que Zack Snyder, o realizador oficial, precisou se afastar por conta do suicídio de sua filha. Joss Whedon entrou no lugar, só que não conseguiu eliminar “defeitos especiais” na imagem. Fora isso, a figura do grande vilão, Darkseid, acabou não sendo explorada. Em seu lugar ficou o Lobo da Estepe, que sofreu com o desdém dos DCnautas. Mesmo assim. O que foi ao circuito provoca debates radicais sobre a representação do Bem e do Mal. A exibição no PlimPlim esta segunda contará com dublagem exemplar, gravada na Delart, sob a direção de Guilherme Briggs. É ele quem dubla o Homem de Aço (Henry Cavill). Na versão brasileira, merece especial aplauso a dublagem de Gal Gadot, a Mulher-Maravilha, feita por Flávia Saddy.
Nesta era fantasiada de pop em que as HQs se tornaram o combustível da indústria audiovisual do entretenimento, ofertando à dramaturgia um formato inusitado e renovador (o de saga), o febril “Liga da Justiça” é um balão de oxigênio para a fantasia, que põe em xeque o desamparo moral, as desavenças de pontos de vista e o culto ao ódio. É uma aventura perfumada a adrenalina, de tônus bem-humorado, mas aberta a debates éticos, cujo intuito é celebrar a comunhão como alternativa à submissão e à derrota. Snyder (apoiado de forma não creditada por Whedon) equilibra riso, ação, reflexão, mitologia e o timbre sombrio (mais adulto) típico da tradição DC Comics nas telas. Entre a alegoria política e o fliperama, numa narrativa adulta sombria, sem medo de sangue, o longa faz jus à confiança que os estúdios Warner depositaram sobre os ombros de Ben Affleck ao confiar ao galã o manto do Homem-Morcego. Seu desempenho é irretocável, trazendo um Batman pós-trauma, zangado e sem esperanças, menos existencialista do que o de Christian Bale. O próximo da fila é Robert Pattinson, um ator de perseverança monumental. Mas o Batman dele só seria visto em 2021.

Há filmes de super-herói que se propõem a serem metáforas secas sobre nossas carências políticas: caso da trilogia Batman de Christopher Nolan ou de Logan, de James Mangold. Há títulos que optam pelo desbunde: “Guardiões da Galáxia”, “Deadpool”, “Esquadrão Suicida”. Mas “Liga…” consegue unir o melhor dos dois mundos – graças sobretudo ao show de carisma do jovem Flash Ezra Miller e do Aquaman Jason Momoa -, estabelecendo-se como um debate vívido sobre a falta de pertencimento. Tem um cheirinho de Wim Wenders no que há por trás das cenas de batalha magistralmente fotografadas pelo alemão Fabian Wagner (da série “Game of Thrones”). E há ainda uma oxigenação na marca autoral de seu diretor. Talvez por transitar entre signos de autossacrifício consciente, Snyder muda um pouco seu traço estético mais pessoal – o niilismo – e esculpe, na edição final, uma alegria algo menos desesperançada da condição humana. Talvez ele o faça como sintoma da tragédia pessoal (a perda de uma filha, por suicídio) durante a finalização do longa-metragem. Não cabe julgá-lo. Cabe entendê-lo e comemorar esse sopro de leveza que traz a assinatura dele no corte definitivo do projeto.

Filmes de super-herói, sustentáculo da economia cinematográfica, são, por essência, épicas de autossacrifício: existem cordeiros que se oferecem à imolação em prol da Humanidade. Não existe humor na espinha dorsal desse gesto. Pode haver gargalhada como apêndice, como efeito de oxigenação da tensão, como um respiro para o que há de bruto na peleja do sacrificado contra a moléstia moral que o leva a se arriscar em prol de quem precisa de auxílio. Pode e deve, pois o riso é um convite ao carisma. Mas esse riso não pode superpor a essência das narrativas super-heróicas, cuja gênese vem da ação, da aventura, da adrenalina e não da troça. Tem quadrinho pra rir e tem quadrinho de super-herói. É assim desde as primeiras viagens galácticas de Buck Rogers, em janeiro de 1929: a pedra fundamental pop do filão. Snyder entende isso como ninguém.
Em sua nova trama, ambientada num mundo em luto pela morte do Super-Homem, reside a centelha niilista snyderiana por excelência: há três objetos na Terra, chamados de Caixas Maternas, que congregam em si um coeficiente de energia raro. Uma ficou na Atlântida de Aquaman, outra na Ilha Paraíso da Mulher-Maravilha e a terceira foi dada à raça humana, cuja falibilidade garante zero segurança a um bem tão precioso, cujo núcleo energético pode nos levar a extinção se cair em mão erradas. Tal premissa é uma clara conexão com a figura de Darkseid, um dos maiores vilões da DC, cujo nome só é citado de leve no filme.

É a ele e a seus irmãos algozes, os Novos Deuses, que as caixas pertencem. Em vez dele, fala-se apenas da filiação dessas caixas a um amo poderoso. Quem o diz é Lobo da Estepe, um guerreiro (com a voz de Ciarán Hinds) dotado de superforça, armado com um machado energético, que faz marchar, sob suas ordens, uma horda alada de construtos robóticos, similares a libélulas. Os tais robôs (ou quase isso) já apareceram nos pesadelos de Bruce Wayne (de novo confiado a Ben Affleck, agora mais solto e nada sisudo) no (brilhante) “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça “(2016). Aqui dá para entender porque ele sonhava com as criaturas e porque esses pesadelos fizeram com que o cruzado de Gotham City reunisse uma tropa de vigilantes, incluindo a amazona, o rei dos oceanos e mais dois: o velocista Flash e um ex-atleta cujo corpo é meio máquina, meio gente, o Cyborg. Este é interpretado por Ray Fisher, cuja atuação é a melhor de todo o elenco. É Marcos Souza quem dubla Fisher. Já Ezra Miller, como o corredor superveloz, tem tiradas antológicas, que arejam a narrativa. Mas é Fisherquem melhor traduz o coeficiente de dor de Liga da Justiça. Ele e Gal, cada vez requintada no traço da heroína que melhor simboliza o (necessário e tardio) reposicionamento inclusivo da voz feminina.
Darkseid é um quebra-mundos e o Lobo da Estepe é seu lacaio mais grosseiro. Dá um certo incômodo a sua virtualidade no filme de Snyder. Mas o grande adversário é a massa fantasma de dor que reside no peito dos heróis, como metáfora para as exclusões políticas de uma América convulsionada por Trump. Confira com respeito a versão dublada, sobretudo para se deleitar com o trabalho de Sérgio Fortuna dublando o Lobo e com a eficácia de Jorge Lucas no gogó de Batman. E tem Lina Rossana fazendo a Rainha Hipólita, mãe da Mulher-Maravilha.

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