Engrenagens autorais portuguesas em ‘A Fábrica de Nada’

Engrenagens autorais portuguesas em ‘A Fábrica de Nada’

Rodrigo Fonseca

22 de setembro de 2017 | 08h54

Cena musical de “A Fábrica de Nada”, de Pedro Pinho, que vem para o Festival do Rio, em outubro, chancelado por prêmio da crítica em Cannes

Rodrigo Fonseca
San Sebastián, Espanha –
Não há jornal, revista ou site especializado em audiovisual aqui na Península Ibérica que não se rasgue em elogios para A Fábrica de Nada, “o” filme português de 2017, laureado em Cannes com o prêmio da Fipresci, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, e cuja estreia em telas lusas virou um assunto de respeito no Velho Mundo. Veremos o longa-metragem de Pedro Pinho aí no Brasil já, já… pois sua passagem pelo Festival do Rio 2017 (5 a 15 de outubro) já foi confirmada. Exibido na Quinzena dos Realizadores, este exercício de ativismo é uma produção de quase três horas de duração, misturando musical, realismo social, perplexidade e humor que marcou a presença de nossa antiga metrópole na Croisette.   Há quem diga que o longa-metragem foi a experiência de linguagem mais ousada de Cannes este ano, entre quase 400 filmes selecionados.

Diretores lusos sempre tiveram boa sorte nessa seção paralela à briga pela Palma. Foi lá que nasceu o épico cítrico e crítico As 1001 Noites, de Miguel Gomes, em 2015. Estimulado pelo alarmismo em relação às sequelas da crise econômica dos anos 2000 e do início desta década em Lisboa e arredores, este exercício narrativo de Pinho segue uma trajetória estética tão livre e anárquica quanto a de Miguel. Tem poder para provocar tanto quanto ele provocou na Europa, há dois anos.  Em A Fábrica de Nada, um grupo de operários se encrespa com a administração de sua indústria (de elevadores) ao percebe que alguém da gerência está roubando máquinas e matérias-primas. Incomodados, eles fazem um levante, que tem um ônus: todos serão obrigados a permanecer em seus postos, sem nada para fazer, enquanto prosseguem as negociações para uma demissão coletiva. No ócio, acontecimentos e ritos nada usuais tomam conta do lugar.

Uma frase de A Fábrica do Nada é digna de anotação e discussão: “O mundo não se divide mais entre Direita e Esquerda, mas sim entre aqueles que se submetem e aqueles dispostos a abrir mão de seus sonhos, dos telefones celulares, das viagens à Lua”.

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