Enfim habemus ‘Eduardo e Mônica’, doce deleite

Enfim habemus ‘Eduardo e Mônica’, doce deleite

Rodrigo Fonseca

20 de janeiro de 2022 | 11h49

Fotografia madura de Gustavo Hadba dá um colorido singilar à paixão entre os personagens de Alice Braga e Gabriel Leone

Rodrigo Fonseca
Demorou, mas, enfim, “Eduardo e Mônica” chegou. O cinema brasileiro nunca teve histórico na comédia romântica, mesmo emplacando uma obra-prima do gênero: “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), de Domingos Oliveira. Nossa praia sempre foi a comédia de costumes, até na fase do sexo como cerne das narrativas, vide a pornochanchada ou comédia erótica. Mas tramas românticas nunca faltaram ao circuito exibidor desta terra de telenovelas, até antes de estas chegarem, vide “Lábios Sem Beijos” (1930), de Humberto Mauro. E, agora, a saga dos eternos apaixonados que nada têm em comum, mas se completam, que nem feijão com arroz, entrou em circuito para comprovar a potência do filão romântico brasileiro.
Rodado em 2018, no coração político do país, e mantido inédito por aqui até hoje, após uma elogiada excursão por telas estrangeiras, por conta da pandemia da covid-19, “Eduardo e Mônica” é uma felicíssima tradução cinematográfica do cancioneiro de Renato Russo em forma de suspiros e xêros no pescoço. O circuito exibidor brasileiro há de se deleitar com a maturidade narrativa que René Sampaio impõe ao falar da construção do desejo, na mistura romântica entre um moleque de 16 anos – fã de jogo de botão e novela – e uma universitária na raia dos 20 anos – com tinta no cabelo e Manuel Bandeira nas ideias. Eduardo é Gabriel Leone, numa atuação arrebatadora; Mônica é vivida por Alice Braga, que está comemorando as duas décadas de “Cidade de Deus” (2002), longa que a projetou mundialmente, no ano que vem. A produtora é Bianca de Felippes, responsável por sucessos como “Carlota Joaquina”, de 1995. René e Bianca adaptaram o bardo da Legião Urbana em 2013, com “Faroeste Caboclo”, sucesso de bilheteria (cerca de 1,5 milhão de ingressos vendidos) que bateu no peito do TIFF – Toronto Film Festival, em projeção em telas canadenses, amaciando miocárdios com a saga de João de Santo Cristo. O êxito no Canadá fez com que a parceria entre René e Bianca entrasse no radar dos eventos cinéfilos da América do Norte. Não por acaso, o elogio ao querer que a dupla se preara para lançar pediu passagem e aplausos no Festival Internacional de Miami, em março de 2020, antes do primeiro lockdown ser declarado.

Na ocasião, palpitações, planos descabelados, promessas de “pra sempre” e beijos que paralisam o balanço das horas contagiaram plateias na Flórida, confirmando a infalível vocação para desbravar fronteiras do trinômio Renê + Bianca + Russo. No filme, Gabriel Leone (astro da série “Dom”, da Amazon Prime, no papel do Bandido Gato, Pedro Dom) constrói Eduardo valorizando a inquietude de um rapaz criado pelo avô (Otávio Augusto) numa vila militar do DF. Já Mônica (Alice, em estado de graça em cena) é um signo de transgressão potencial. Qual na letra de Russo, no qual ela “gostava do Bandeira e do Bauhaus/ De Van Gogh e dos Mutantes/ De Caetano e de Rimbaud”, a moça cursa Medicina e fala Alemão. A imagem tem o colorido bem depurado da fotografia de Gustavo Hadba (de “O Grande Circo Místico”), hoje em fase de apogeu em seu domínio da luz.
Há uma linha narrativa de reflexão sobre amadurecimento no roteiro de “Eduardo e Mônica”, que combina os talentos de Matheus Souza, Claudia Souto, Jessica Candal e Michele Frantz em seus créditos. Para a concepção da cenografia, o diretor de arte Tiago Marques respeitou o realismo, sobretudo numa vila militar cheia de gibis dos anos 1980 (como “Heróis da TV”) mas trafegou (entre suas inspirações) nas franjas de dois diretores franceses: Michel Gondry, de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), e Jean-Pierre Jeunet, de “O fabuloso destino de Amélie Poulain” (2001). Essa mistura dá todo um toque de rebeldia no universo por onde Mônica circula.

p.s.: Este ano, os filmes da seção Aurora, a menina dos olhos da Mostra de Tiradentes, famosa por revelar talentos, são: “Seguindo todos os Protocolos” (PE), de Fábio Leal; “A Colônia” (CE), de Virgínia Pinho e Mozart Freire; “Sessão Bruta” (MG), de As Talavistas e ela.ltda; “Panorama” (SP), de Alexandre Wahrhaftig; “Maputo Nakurandza” (RJ-SP), de Ariadine Zampaulo; “Bem-vindos de Novo” (SP), de Marcos Yoshi; e “Grade” (MG), de Lucas Andrade. O evento mineiro inaugura nesta sexta sua edição de 25 anos.

p.s. 2: Em paralelo à execução do fórum Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, realizado de 14 a 17 deste mês, a Unifrance (instituição da França que promove a circulação mundial dos filmes daquele país pelo mundo) realiza uma mostra online, aberta ao público, chamada MyFrenchFilmFestival, com direito a premiações por júri oficial e júri popular, com curtas e longas. A seleção deste ano vai apresentar pérolas como “Calamity, une enfance de Martha Jane Cannary”, animação de Rémi Chayée, e “Charuto de Mel”, drama da cineasta Kamir Aïnouz. Este ano, rola ver tudo pela plataforma Reserva Imovision, que ainda reúne uma série de outros tesouros da produção francesa recente.
Basta clicar https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/ para acessar o conteúdo do evento.

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