Enfim chega a hilária parte dois de ‘Trainspotting’

Enfim chega a hilária parte dois de ‘Trainspotting’

Rodrigo Fonseca

22 Março 2017 | 12h56

Spud (Ewen Bremner) na sequência mais emblemática de

Spud (Ewen Bremner) na sequência mais emblemática de “T2: Trainspotting”, a continuação do cult de 1996

RODRIGO FONSECA
Disco do ano até o momento, numa bolacha roqueira ácida, a trilha sonora de T2 –Trainspotting traduz, em sua seleta de Iggy Pop, Queen e Frankie Goes to Hollywood, toda a irreverência deste retorno às raízes nineteen-nineties do pop, empreendida por Danny Boyle a partir de uma revisão de seus mais célebres personagens. Com estreia no Brasil prevista para quinta, esta produção de US$ 18 milhões, lançada na Inglaterra no finzinho de janeiro, já arrecadou US$ 33 milhões mundo afora e mal chegou aos EUA, onde foi recebida com resenhas dividias. Desde sua primeira exibição pública, o longa-metragem – de um humor contagiante, apesar de sua tônica de desesperança – vem cindindo opiniões. Goste-se ou não dele, a experiência de falar sobre cinema com seu realizador é uma lição sobre a arte de narrar.

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Ficar cara a cara com o inglês Danny Boyle é o mesmo que encarar a revolução pop do cinema britânico, com idiossincrasias sociais, busca por uma linguagem videoclipada e representação de figuras pautadas pelo excesso, como eram os viciados em heroína e em futebol de Trainspotting (1996), maior cult da obra do direto. Sua continuação, recém-lançada no Reino Unido, foi um dos maiores eventos do Festival de Berlim, encerrado no último domingo. E a gente pode conversar com Boyle por lá.

“No cinema dos anos 1990 a gente não imaginava que um dia poderíamos fazer filmes usando um telefone celular. A tecnologia avançou, o mundo nem tanto”, disse Boyle pro P de Pop na Berlinale, durante a projeção fora de concurso de T2 Trainspotting, de novo com o galã escocês Ewan McGregor no papel de Renton, dependente químico de heroína e de prazeres fugazes a granel. “Muita coisa me levou a filmar T2. Havia uma data importante: o aniversário comemorativo de duas décadas do filme. Havia o fato de que o escritor Irvine Welsh, de quem eu tirei o longa original, havia retomado os personagens em um livro novo chamado Pornô. E havia o meu desejo de falar da ânsia geracional de quem foi jovem nos anos 1990. Por isso resolvi juntar o velho time e fazer não uma sequência de tom convencional, e sim uma revisita”.

Renton volta a lidar com as angústias da vida adulta e sua inadequação ao verbo

Renton (Ewan McGrego, ao centro) volta a lidar com as angústias da vida adulta e sua inadequação ao verbo “crescer”

Embalado nos acordes da Lust For Life, do iguana Iggy Pop, e imortalizado pela cena da corrida de McGregor por entre os trilhos e ruas de Edimburgo, Trainspotting marcou a década de 1990 como o mais contundente retrato geracional do vazio político de uma juventude sem ideologias, regada a narcóticos. De lá, o galã virou estrela. De lá o ator Robert Carlyle foi revelado, para depois fazer Ou Tudo Ou Nada (1997). De lá Boyle galgou fama, embarcando numa jornada autoral que o levaria a ganhar o Oscar com Quem Quer Ser um Milionário?, em 2009. Agora, 21 anos depois, ele e o elenco original resgatam os personagens, hoje envelhecidos, mas ainda do lado torto da Lei.

 “Um dos desafios que esta volta impôs envolvia o redesenho estético da trilha sonora, pois, como a música tornou o primeiro filme muito famoso, eu não poderia retomar as canções do original sem nenhum retrabalho, ou sem, no mínimo, elaborar uma nova mixagem, em especial em Lust For Life, do Iggy Pop, que ficou emblemática daquele universo hedonista”, disse Boyle. “No meio do processo das filmagens de T2, a gente descobriu uma banda nova, chamada Young Fathers, e gravamos coisas deles. Era bom ter uma sonoridade nova, pois a Escócia de hoje é outra. Mudaram seus sons e mudaram as vozes de Edimburgo. Por isso, agora, no novo filme, o personagem Spud, vivido por Ewen Bremner, é uma espécie de narrador, e não mais Renton”.

Danny Boyle na Berlinale

Danny Boyle na Berlinale

Em cartaz há cerca de dois meses no circuito inglês, gerando polêmica por sua visão não crítica das drogas, T2 Trainspotting fala menos sobre heroína e mais consumismo e sobre formas “alternativas” (leia-se ilícitas) de se alimentar o consumo. Em Berlim, o filme dividiu opiniões. Gargalhadas contínuas de parte da plateia celebravam o fato de o reencontro de Renton (Ewan McGregor) com seus parceiros de agulha e de porre ser ainda mais divertido que o filme dos anos 1990. Já a frieza e a sisudez com que a outra parcela do público encarou a estética (cada vez mais) clipada de Boyle demonstravam que a estrutura dramatúrgica deste novo e festivo balanço de geração – centrado em uma maracutaia envolvendo Renton e uma jovem búlgara – parece não impactar tanto quanto certas cenas da parte um. No original, uma das sequências mais famosas (e mais incômodas) era a do engatinhar de um bebê durante um transe heroinômano de Renton.

“Fazer uma sequência de um filme que simboliza a independência criativa nas telas é um risco, porque não é qualquer investidor que sente impelido a dar o que você precisa. Mas esta história precisava nascer”, disse Boyle, que chamou a atenção da imprensa mundial em 1994, com Cova Rasa.

trainspotting-2.jpg Poster t2 Trainspotting

Eletrizante em seu terço inicial, T2 Trainspotting começa com Renton tendo uma espécie de parada cardíaca numa esteira de academia, onde vive, na Holanda. Seu coração dá tilte no momento em que seus colegas de juventude Spud (Ewen Bremner), Simon (Jonny Lee Miller) e o bandidão Franco (Robert Carlyle, o diamante mais reluzente do elenco) estão afogados em fracasso. Sua primeira atitude é deixar sua vidinha em Amsterdã e voar para Edimburgo, onde será recebido por imigrantes eslavas, estranhando tudo à sua volta. Ele vai procurar cada um dos amigos e se mete com eles em uma série de confusões – de novo envolvendo drogas e dinheiro… dos outros. Tudo isso se desvela na tela numa edição febril, de cortes ligeiros, onde nem sempre se entende com perfeição o que se passa. Mas se ri de tudo. E muito.

“O Danny Boyle desta parte dois tem os mesmos anseios do Danny Boyle original, mas ele já não tem mais aquela sensação de trabalhar sem a pretensão do acerto, sem a imposição de que as coisas precisam funcionar”, desabafa o diretor. “Fazer esta volta às minhas raízes me devolveu a medida da liberdade”.