‘Encontros’ com Hong Sangsoo na ‘Cahiers’

‘Encontros’ com Hong Sangsoo na ‘Cahiers’

Rodrigo Fonseca

21 de fevereiro de 2022 | 00h44

Rodrigo Fonseca
Depois do Grande Prêmio do Júri dado pela 72ª Berlinale a “The Novelist’s Film”, o prestígio já elevado do sul-coreano Hong Sangsoo, um dos realizadores mais cultuados da atualidade, só tende a crescer, exponenciado por mimos como uma contracapa da nova edição da “Cahiers du Cinéma” estampando o cartaz de um de seus últimos filmes (ele lança uns dois por ano): “Encontros” (“Introduction”). Há três páginas da revista, ainda considerada a Bíblia da cinefilia, dedicada ao longa-metragem, que estreou há pouco na França. Exibido também no Festival de Berlim, só que em 2021, o drama sobre jovens em busca de um sentido pro futuro foi laureado na Alemanha com o Prêmio de Melhor Roteiro, levando um Urso de Ouro pra Coreia do Sul. É válido lembrar que o mesmo evento, em 2020, deu a ele o Prêmio de Melhor Direção por “A Mulher Que Fugiu” (“The Woman Who Ran”), hoje em cartaz no Rio, com sessões às 21h, no Estação NET Rio.

Hong Sangsoo em foto da MUBI, que exibe seus filmes neste fim de mês

Em março do ano passado, “Encontros” foi o primeiro fenômeno da competição oficial de Berlim, que realizou seu concurso online. Não poderia se esperar situação distinta de um longa pilotado por Sangsoo. Grafa-se seu nome, por vezes, como Sang-soo ou Sang-Soo. O diretor entrou no páreo germânico com um filme de 66 minutos, fotografado num preto e branco que jamais desequilibra no balanço cromático (sem cair para as sombras e sem esturricar) sobre um rapaz que sai da Coreia do Sul e vai até a Alemanha visitar a garota por quem está apaixonado. Mas isso é apenas um mote para um procedimento padrão do realizador de cults como “Você e os Seus” (Melhor Direção em San Sebastián, em 2016) e “A Visitante Francesa” (2012) no qual pessoas se encontram, bebem e falam sem parar sobre coisas simples da vida. E, de simplicidade em simplicidade, ele monta uma espécie de Comédia Humana a partir dos nossos sentimentos mais alquebrados. Aqui, há outro fator, cada vez mais ausente nas telas, dada a patrulha da correção política: o cigarro. Fuma-se muito ao longo de uma hora e seis minutos de projeção. A cada baforada surge um desabafo, um elogio, uma sequela de uma solidão que parece não caber no peito.
Classificado por alguns como mestre e por alguns como um repetidor de rizomas, que faz equações matemáticas e não filmes, Sangsoo confirmou a fase de bonança de seu país nas telas, em 2020, vinte dias depois de a Coreia do Sul ter levado quatro Oscars para casa, apoiado na engenharia narrativa de Bong Joon-Ho e seu “Parasita”. Em “A Mulher Que Fugiu”, uma história construída nos trópicos de uma trivialidade aparente garantiu o Prêmio de Direção ao sexagenário cineasta. Prêmio que o realizador recebeu das mãos do pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de “Bacurau”. O brasileiro integrava o time de jurados presidido pelo ator inglês Jeremy Irons. Kleber usou o adjetivo “o grande” para se definir ao realizador coreano, cuja carreira começou em 1996, com “O Dia Em Que o Porco Caiu no Poço”.

Melhor roteiro na Berlinale em 2021: Urso de Prata

“Encontros” tem tudo o que os longas anteriores dele traziam: falatório, comilança e carraspana. É um ritual comum. A diferença aqui é o peso do passado e o peso da juventude, que se confrontam num embate de vivência. Na trama do longa, o rapaz que viaja da Ásia para a Europa atrás de uma namorada não tem nenhuma outra certeza do que quer ou do que precisa. Ele gosta e se deixa impelir por esse gostar. Mas em sua trajetória há um ator famoso que cruza seu caminho para tomar uns tragos. O ator é muito preocupado com o fato de um rapaz beber. Essa preocupação espelha o que ele já perdeu pro álcool e por escolhas sem qualquer temperança. O que Hong Sangsoo faz aqui é colocar esses dois extremos da experiência lado a lado e ver como um completa o outro. Emociona ver um adulto muito vivido arejar seus pesos e seus fantasmas tentando aconselhar um garotão a dimensionar os pesos do presente e o peso do amanhã. É uma troca que Sangsoo desenha no lápis da delicadeza.
No fim deste mês, a MUBI vai exibir dois de seus longas. No dia 26/2, rola “Certo Agora, Errado Antes” (Leopardo de Ouro em Locarno, em 2015) e, no dia 27, “Na Praia à Noite Sozinha”, com o qual sua habitual parceira, Kim Minhee, saiu laureada da Berlinale 2017, com o Urso prateado de Melhor Interpretação.

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