‘Encontros’ com Hong Sang-soo na Mostra

‘Encontros’ com Hong Sang-soo na Mostra

Rodrigo Fonseca

27 de outubro de 2021 | 14h46

Aos 61 anos, o diretor sul-coreano Hong Sang-soo mantém uma média um filme por ano, lançado às vezes dois títulos em menos de seis meses

RODRIGO FONSECA
Antes de a 45ª Mostra de São Paulo terminar, na quarta que vem, Hong Sang-soo, cineasta sul-coreano de 61 anos, deve ter um novo filme pronto. Piscou, ele conclui um longa-metragem, alimentando a fama de ser um dos mais prolíficos – e admirados – realizadores do presente. Na sexta, o Reserva Cultural exibe, às 16h, um dos títulos que ele lançou este ano: “Encontros” (“Inteurodeoksyeon”), que passou na Berlinale, em março, com a tradução “Introduction”, e saiu de lá com o Urso de Prata de melhor roteiro. Na quinta, às 16h, o Espaço Itaú Frei Caneca exibe seu aclamado “A Mulher Que Fugiu” (“Domangchin Yeoja”), pelo qual ele deixou Berlim, em 2020, com o prêmio de melhor direção. No júri, estava o pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de “Bacurau” (2019), que lhe entregou o troféu, anunciando-o como “o grande”, para referendar seu prestígio. Este ano, em julho, ele ainda arrancou elogios de Cannes com “In Font of Your Face” (“Dangsin-eolgul-apeseo”), ainda inédito.

Contagiante em seu falatório, no qual cada verbo é cimentado de consistência, “Encontros” virou o primeiro fenômeno da competição oficial de Berlim este ano. Não poderia se esperar situação distinta de um longa pilotado por Sang-soo. É uma história de levezas contada em 66 minutos, fotografada num preto e branco que jamais desequilibra no balanço cromático (sem cair para as sombras e sem esturricar) sobre um rapaz que sai da Coreia do Sul e vai até a Alemanha. Ele viaja pra visitar a garota por quem está apaixonado. Mas isso é apenas um mote para um procedimento padrão do realizador de cults como como “Você e os Seus” (melhor direção em San Sebastián, em 2016) e “A Visitante Francesa” (2012) no qual pessoas se encontram, bebem e falam sem parar sobre coisas simples da vida. E, de simplicidade em simplicidade, ele monta uma espécie de Comédia Humana a partir dos nossos sentimentos mais alquebrados. Aqui, há outro fator, cada vez mais ausente nas telas, dada a patrulha da correção política: o cigarro. Fuma-se muito ao longo de uma hora e seis minutos de projeção. A cada baforada surge um desabafo, um elogio, uma sequela de uma solidão que parece não caber no peito.

Classificado por alguns como mestre e por alguns como um repetidor de rizomas, que faz equações matemáticas e não filmes, Hong Sangsoo estreou nos longas em 1996, com “O Dia Em Que o Porco Caiu no Poço”, e adquiriu, já nos primeiros anos, o respeito da crítica, sempre revolvendo questões similares. O respeito de que desfruta aumentou quando seu “Hahaha” (2010) conquistou o Prix Un Certain Regard, de Cannes, e quando “Certo Agora, Errado Antes” (2015) sagrou-se ganhador do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. O recente (e lívido) “Encontros” tem tudo o que os longas anteriores dele traziam: falatório, comilança e carraspana. É um ritual comum. A diferença aqui é o peso do passado e o peso da juventude, que se confrontam num embate de vivência. Na trama do longa, o rapaz que viaja da Ásia para a Europa atrás de uma namorada não tem nenhuma outra certeza do que quer ou do que precisa. Ele gosta e se deixa impelir por esse gostar. Mas em sua trajetória há um ator famoso que cruza seu caminho para tomar uns tragos. O ator é muito preocupado com o fato de um rapaz beber. Essa preocupação espelha o que ele já perdeu pro álcool e por escolhas sem qualquer temperança. O que Hong Sangsoo faz aqui é colocar esses dois extremos da experiência lado a lado e ver como um completa o outro. Para o espectador sobre a delicada experiência de ver como um adulto muito vivido areja seus pesos e seus fantasmas tentando aconselhar um garotão a dimensionar os pesos do presente e o peso do amanhã. É uma troca que Sangsoo desenha no lápis da delicadeza, como sempre.

Tem “Encontros” de novo no sábado, às 14h, no Espaço Itaú na Frei Caneca, e no domingo, às 22h15, na Cinesala. Cozido num banho-maria que contagia, “A Mulher Que Fugiu” é um estudo sobre companheirsmo. Parceira de vida e de obra do diretor, a premiada atriz Kim Ninhee vive Gamhee, mulher de um tradutor que, em um dia sem a companhia do marido, vai visitar amigas. Comendo, bebendo, rindo e trocando confidências (numa cena, uma mulher lhe pergunta ‘Você ama seu marido?’ e ela dá um riso azedo e um tempo de silêncio como resposta), Gamhee disseca a lógica mais redentora da desatenção, encarando uma solidão existencial. Tem mais sessão deste filmaço no sábado, às 14h, no CineSesc, e no dia 3, às 18h50, na Cinesala.

No Mostra Play, online (www.mostra.org), não perca “Listen”, de Ana Rocha de Sousa. Laureado com 22 láureas desde o Festival de Veneza de 2020, quando ganhou o Prêmio do Júri da seção Orizzonti e o troféu Luigi De Laurentiis (de melhor filme de estreia), esse drama social celebra a maternidade. Na trama, um casal luso, Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), tenta pagar as contas de uma vida em Londres, para onde foram atrás de mais e melhores oportunidades de emprego. Mas tudo dá errado para eles e seus três filhos, ameaçando uma intervenção judicial que os separe.

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