Emílio Domingos: periferia da cidade partida

Emílio Domingos: periferia da cidade partida

Rodrigo Fonseca

14 de agosto de 2020 | 14h48

O cineasta Emílio Domingos (em foto de @Julia Polessa Maçaira) vai falar sobre sua estética no seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Vai ter hashtag #ficanarealvirtual por todo canto da web – pelo menos onde a estética do documentário for encarada como um instrumento de conscientização, de revolução e de alumbramento – para celebrar a despedida do maior evento cinematográfico feito no Brasil em 2020, até agora. Acaba nesta sexta o Na Real_Virtual, simpósio organizado por Carlos Alberto Mattos e por Bebeto Abrantes, produzido pela Imaginário Digital, com foco nas formas de se lapidar a matéria poética e política da não ficção. Foram doze colóquios ao longo de quatro semanas, de 20 de julho pra cá, com uma média de 150 ouvintes numa sala de zoom por duas horas e meia de lições de vida e de trabalho. E é muito simbólico (e necessário), em tempos de intolerância e de brutalidades institucionalizadas, que o cineasta escolhido pra botar o ponto fin… continuativo…. nesta primeira (e inclusiva) edição seja um diretor negro que tem olhos e ouvidos atentos às transformações do vocábulo “periferia” na teoria e na prática das ruas, dos morros, dos conjuntos habitacionais. Realizador de “A Batalha do Passinho – O Filme” (melhor longa dos Novos Rumos da Première Brasil 2012), Emílio Domingos, antropólogo e cineasta de 48 anos, nascido na Tijuca, com vivência de Del Castilho e de Pilares é quem vai atrair os holofotes para as discussões acerca dos modos de se (sobre)viver e de se encantar nas favelas cariocas.

O papel social do documentário é retratar diversas realidades. No caso do Brasil, expressar o que é o país, sua diversidade. É importante a população se ver na tela longe dos clichês, e isso é muito difícil”, diz Domingos ao P de Pop, em meio a um árduo trabalho de pesquisa e de coleta de materiais para seu novo filme: “Black Rio! Black Power!” sobre os bailes da soul music nacional. “A gente ouve como personagem central o videomaker e produtor musical Dom Filó que, nos anos 1970, mobilizou a juventude negra do Rio com a equipe de bailes Soul Grand Prix. Eles chegaram a ser hostilizados pela ditadura, que via ali uma possível célula dos Black Panthers no Brasil. Por isso, corremos atrás de imagens raras do depoimento de Dom Filó à Comissão da Verdade, pra falar sobre a repressão que sofreu”.

Dom Filó e Domingos nas filmagens de “Black Rio! Black Power” – foto de @Leo Bittencourt

Laureado com um a menção honrosa e com o prêmio de júri popular no Festival do Rio 2019, “Favela é Moda” é o longa que há de ancorar a conversa com Domingos. Sua inclusão no Na Real_Virtual é um atestado do quão essencial ele vem sendo para o documentário brasileiro. No evento, só entraram titãs do setor como Petra Costa, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Maria Augusta Ramos, Karim Aïnouz, Marcelo Gomes, Walter Carvalho, Gabriel Mascaro, Joel Pizzini, Belisario Franca, Rodrigo Siqueira, Waldir Xavier, Karen Harley e Carlos Nader. Às sete da noite deste 14 de agosto, Domingos vai usar de seu ferramental etnográfico para mapear passarelas de inclusão. Depois de ter registrado os estilosos cortes de cabelo da Zona Norte do RJ em “Deixa na Régua” (2016), o cineasta aborda em seu .doc mais recente modos de vestir como expressão de uma nova configuração econômica dos espaços urbanos. “Houve uma ascensão social e econômica da classe C. Eles se tornaram um mercado consumidor e, logo, isso gerou uma pressão em relação à moda. Acho que é uma questão de mercado. O que há de excludente nela, é que as pessoas não se enxergam representadas nas capas de revistas e nos desfiles”, diz Domingos, que dá voz às expressões do funk e do hip-hop em seus longas. “Tem uma frase de um rapper, o Chuck D, do grupo chamado Public Enemy, que diz que o rap é a CNN dos guetos”.

Segundo Bebeto Abrantes, filmes como “Favela é Moda” mostram que “Emílio é a periferia se revelando ao centro e não o contrário, como costuma acontecer em nossa filmografia”. Para o curador, respeitado como cineasta por filmes lúdicos como “As Bastidas do Samba” (2010), o convidado deste derradeiro Na Real_Virtual tem uma antena rara para os fenômenos que acontecem nas comunidades populares dos grandes centros urbanos, em particular no Rio. “Formado em antropologia visual, ele traz uma pegada pop aos grandes fenômenos que, de tempos em tempos, surgem nas comunidades populares e saltam para o centro do centro, saem da favela para o asfalto. Foi assim com o hip hop, com a dança do passinho e com as esculturais cabeças feitas pela rapaziada periférica. O que já anunciava o filme que o “Na Real”, vai apresentar e discutir. Favela é moda. Emílio sabe que toda dominação, em primeira e última instancia, visa o corpo. Por outro lado, é a partir do próprio corpo assumido que se faz a libertação”.

Autor do obrigatório livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho” (Boitempo Editorial), Carlos Alberto Mattos – hoje a maior autoridade sobre documentário na crítica de cinema brasileira – compartilha do entusiasmo de seu parceiro de curadoria, Bebeto, ao falar do realizador de “A Batalha do Passinho” e de outras investigações sobre as visões periféricas do Rio. “Vindo da Antropologia, Emilio Domingos constrói, com sua Trilogia do Corpo, um precioso retrato da beleza e da força cultural da periferia carioca. A delicadeza com que ele se aproxima de seus personagens, sem roubar-lhes o protagonismo, faz desses filmes um mergulho íntegro no imaginário de uma parcela da população que frequentemente é objeto de exploração ou paternalismo no documentário. O ‘Favela é Moda’, que vamos abordar com mais ênfase no seminário, mostra bem como Emílio é sempre um aliado daqueles que filma. Seu interesse é etnossocial, pois filma ligado tanto à performance quanto às barreiras que esses jovens têm que vencer para se imporem como produtores de beleza e comportamento”.

Tem um seriado documental sendo gestado por Domingos também. Ele trabalha agora numa série de oito episódios, chamado “Embraza”, sobre danças tecnológicas da periferia do Brasil, no qual aborda diversas danças, como o passinho, o treme no Pará, o brega funk. É um mapeamento dessas manifestações que surgiram a partir de um desenvolvimento tecnológico da música. É um trabalho carregado da KMetragem de filmes que o cineasta consumiu em sua formação.
Tem muitos diretores contemporâneos, da mina geração que me identifico muito. Destacaria o Affonso Uchoa e o João Dumans, pois gosto muito do trabalho dele em “A Vizinhança do Tigre” e gosto muito do ‘Arábia’. Tem também o Adirley Queirós, de Brasília: seu ‘A cidade é uma só?’ é um filme muito impactante e ‘Branco Sai, Preto Fica’, também. Tem o André Novais Oliveira também, entre os que me impressionam. Sinto que são pessoas que estão mostrando um outro Brasil. Um Brasil da maioria da população. De certa maneira, até a forma como eles contam, com um olhar muito de dentro, tem muita relação com os meus filmes”, lista Domingos. “Dos cineastas anteriores, eu me identifico com muitos e me inspiro em muitos. O Leon Hirszman é um deles, pois gosto muito do trabalho dele, em filmes como ‘Partido Alto’ e ‘ABC da Greve’. Nelson Pereira dos Santos é outro grande mestre, com ‘Rio, 40 Graus’, ‘Rio, Zona Norte’ e ‘O Amuleto de Ogum’. Outros mestres do documentário, como Eduardo Coutinho, foram importantes. Foi Coutinho quem mostrou para mim, que era possível fazer documentário. E há o Jean Rouch, pela relação com os personagens, pela leveza do cinema dele e pela profundidade. Outro cineasta de que gosto é o americano Frederick Wiseman. Apesar de ele não gostar de se chamar cinema direto, gosto muito da proximidade que ele tem com os assuntos. E gosto da profundidade dos filmes dele. Acho que os filmes dele, muitas vezes, são duros, mas vejo suas três horas de filme parecendo que são 15 minutos”.

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