Emílio Domingos na régua da Flup

Emílio Domingos na régua da Flup

Rodrigo Fonseca

13 de agosto de 2020 | 12h17

Emílio Domingos na Mostra de SP de 2016, onde exibiu “Deixa na Régua”

Rodrigo Fonseca
Idealizado como um ponto de encontro para se debater estéticas documentais, o simpósio online Na Real_Virtual chega ao final nesta sexta-feira, firmado e confirmado como o evento de maior agitação cultural do cinema brasileiro em 2020, mobilizando uma média de 150 ouvintes por noite, numa sala de Zoom, assumindo as vivências periféricas como seu colóquio de despedida. E vai deixar saudades… O papo deste 14 de agosto – mediado por Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020 – vai ser com Emílio Domingos, diretor de “A Batalha do Passinho: O Filme”, laureado com o prêmio de melhor longa na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2012. Pautado pela antropologia, o diretor criou, ao longo das últimas duas décadas, uma poética de inclusão, investigando diferentes formas de viver nas comunidades do Rio de Janeiro, seja no subúrbio, no Centro ou na Zona Sul. “Favela é Moda”, sua produção mais recente, premiada com menção honrosa e com a láurea do júri popular na Première Brasil 2019, será o farol da conversa. Desde sua arrancada, no dia 20 de julho, conduzida sob a curadoria de Mattos e Abrantes e sob a produção de Marcio Blanco e Kerlon Lazzari, da Imaginário Digital, o Na Real já mobilizou titãs da direção como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca, Joel Pizzini, Gabriel Mascaro, Rodrigo Siqueira, Karen Harley, Waldir Xavier, Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Já houve dia com 200 pessoas nessas sabatinas documentais, que vão extrair de Domingos uma análise sobre o trânsito entre o funk/hip-hop e a imagem, sobre a arte de sobreviver, sobre resiliência. Suas reflexões costumam ser uma aula de sociologia com tintas lúdicas, como avalia o escritor pernambucano Julio Ludemir, autor do romance “No Coração do Comando” (2002), um dos idealizadores da Festa Literária das Periferias (Flup). A pedido do P de Pop, Ludemir fez um estudo sobre a relevância de um realizador como Domingos pro audiovisual brasileiro.

O Emílio é uma das pessoas com quem eu talvez menos converse na vida, mas é talvez a pessoa com quem eu mais me encontre na vida.
No início dos anos 2000, quando fui pesquisar a Rocinha, tiver de fazer algumas entrevistas no universo do hip-hop e quem eu encontro? Emílio Domingos. Ele estava fazendo algo que acho que virou o “L.A.P.A.”. Ele estava acompanhando, com o produtor e diretor Cavi Borges, o fazer daqueles caras do hip hop da Rocinha.
Vou fazer o movimento do Passinho e com quem encontro? O Emílio Domingos. Na verdade, acho que o que aconteceu no Passinho é muito revelador do que é a nossa história e quão próximos nós somos e o quanto olhamos na mesma direção. Eu o convidei para ser jurado na Batalha do Passinho, por entender que ele era um cara do hip-hop, das danças urbanas. E, ali, com generosidade, ele diz que não quer ser o jurado por querer filmar e fazer um curta. Parece tomar essa decisão exatamente por ver o quão forte e pulsante era a cena. Ele transformou aquilo em um longa – aliás um dos clássicos contemporâneos do cinema documental brasileiro – que é “A Batalha do Passinho”. Foi, possivelmente, o momento em que mais convivemos, porque foi uma experiência longa. Só no primeiro ano, fizemos três batalhas. No segundo ano, a gente faz uma batalha que se tornaria clássica para ele. Era a Batalha da Providência, na qual Emílio vai encontrar alguns dos personagens centrais dos filmes dele e onde ele vai ter os melhores depoimentos e as melhores imagens. Tem algo muito rico que acontece ali na Providência. Em seguida, vou fazer vinte e tantas batalhas e ele está sempre ali, com a câmera discreta dele, sempre com a capacidade extraordinária de ouvir tudo.
Por conta disso, a gente chama ele para registrar o primeiro processo formativo da Flup. A Flup Pensa, que resulta na publicação de 43 autores. Foi a única coisa que andamos muito próximos e não virou um filme.
Houve outra coisa: por fazer o “Passinho”, ele sacou a importância da estilização dos cabelos para a molecada da periferia. A gente fez Batalhas dos Barbeiros, trabalhando muito com a ideia do corte para atrair a molecada para dentro dos eventos. Fizemos a Batalha do Barbeiro em 2012 e 2013. Ali, de novo, vem uma coincidência: onde cheguei, ele já estava; onde ele chegou, eu estava. O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? O que importa é o que os olhares são muito semelhantes.
Aí, ele vai fazer um segundo clássico, que é o “Deixa Na Régua”. Quem faz esse segundo filme, e o “Passinho”, entende o quanto a moda é relevante, o quanto o estilo é importante no campo da periferia. A gente abre a Flup, em 2018, com um desfile todo organizado por pessoas negras da periferia. Reinventamos o desfile com o qual a Zuzu Angel denunciou a ditadura militar na década de 1970, agora para dizer que o Estado, no Brasil, mata jovens negros. A gente fez um desfile de moda com ativismo.

O escritor Julio Ludemir, idealizado da Flup com Écio Salles (morto em 2019), cruzou com Emílio em múltiplos eventos de inclusão, como a Batalha do Passinho

Quando vamos fazer moda outra vez, a gente encontra com o Emílio, que tem um terceiro documentário. Nesse projeto, de novo, nossos olhares se cruzam muito. Como eu dizia, toda a festa que chego o Emílio está ou o contrário. Acho que a única coisa que falta é a gente combinar de fazer mais coisas juntos. Os nossos interesses são tão próximos que a única coisa que não entendo é não estar com ele tomando um café na esquina agora, em qualquer lugar do Rio de Janeiro. Certamente, ele estaria falando algo pelo qual me interesso, ele estaria me mostrando algo pelo qual me interesso. Como diria Adriana Calcanhotto, “presto muita atenção no que meu irmão ouve”. Eu diria que presto muita atenção no que o Emílio ouve. Acho que não apenas eu, mas o Rio de Janeiro. Ele é um cara que está no Rio, está na periferia, tem um olhar antropológico e da descoberta. Acima de tudo, ele é sempre o primeiro que chega. Andem atrás do Emílio que vocês vão chegar em algum lugar.
O Emílio sempre está no lugar certo. Ele é ariano: o signo mais rápido, que transforma o pensamento em ação da forma mais rápida.
Eu também cruzei com ele na primeira grande campanha do Marcelo Freixo. Uma campanha na qual havia aquele romantismo de um Rio de Janeiro inclusivo, que a gente nem sabia se daria certo. Em outra grande coincidência, o Emílio faz aniversário no mesmo dia do Marcelo Freixo. No dia 12 de abril, tem uma dupla coincidência. É o dia que ganhei o prêmio mais importante da Flup, em Londres, e é o dia de São Júlio. Consultei isso, por ser o dia que fui receber o prêmio lá e vi qual santo era, para ver se ia com esperança ou não. Emílio também tem suas bênçãos…

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