Emílio Domingos e as poéticas periféricas

Emílio Domingos e as poéticas periféricas

Rodrigo Fonseca

15 de agosto de 2020 | 12h33

Emílio Domingos fez uma reflexão sobre estéticas de inclusão em seu colóquio no encerramento do seminário Na Real_Virtual, no dia 14 de agosto, no Zoom, mediado pelos curadores Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes

Rodrigo Fonseca
“Comovente” pode parecer um adjetivo biluteteia demais para se aplicar à estética documental praticada e pensada no Brasil, mas não existe palavra melhor pra poder qualificar a doçura e a urgência que marcaram o derradeiro tomo da “Comédia Humana” que um par de Balzacs da imagem – o cineasta Bebeto Abrantes e o crítico Carlos Alberto Mattos – construíram de 20 de julho a 14 de agosto no simpósio Na Real_Virtual. Foram doze encontros que agitaram a pasmaceira desta pandemia e plantaram inquietações para o futuro do cinema nacional a partir de conversas (sempre elegantemente) conduzidas com titãs do setor. Começou por Maria Augusta Ramos, passou por João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca, Joel Pizzini, Gabirel Mascaro, Rodrigo Siqueira e o quadrilátero de “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (Marcelo Gomes, Karen Harley, Waldir Xavier e Karim Aïnouz) e terminou (lindamente), na sexta, com Emílio Domingos. Este último, um diretor e antropólogo tijucano de 48 anos, premiado por “A Batalha do Passinho – O Filme” (2012) e “Favela é Moda” (2019), expôs várias feridas da exclusão das comunidades periféricas de uma cidade partida chamada Rio de Janeiro.

Entre as reflexões mais possantes de Domingos, que trabalha atualmente no projeto “Black Rio! Black Power!”, sobre os bailes soul e a gênese do funk, destacam-se:
“Antes de mais nada, falar da periferia, é falar da maioria da população do país. 54% da população é negra e parda, e habita esses espaços em sua grande maioria. Seria estranho que eu não me interessasse por esse espaço. Tenho uma admiração grande pelo que a periferia construiu em termos culturais para o Brasil. A gente pode falar, classicamente, na identidade nacional, da importância do samba para saber o que nós somos. Existe uma geração enorme que veio do samba. Como admirador de música, sempre fiquei muito intrigado em como que um gênio como o Cartola só gravou o seu primeiro LP aos 76 anos. Ficava pensando no motivo de ele não ter registros anteriores a isso. Acho que isso fala muito sobre o Brasil. Tem muitos Cartolas por aí”.

“Quando tive acesso às câmeras, fiquei pensando em gravar essa juventude da periferia que vive um processo criativo intenso e de ebulição enorme, nas manifestações que me interessam muito: o funk e o rap. O funk, acho, virou a música mais popular do Brasil e vive um processo de reinvenção enorme. Falando do rap, existe uma frase de um rapper de um grupo americano, chamado Public Enemy, que diz: “O rap é a CNN do gueto”. O rap, quando chegou aqui no Brasil, interessou-me muito. Ele me pegou pelo fato de a favela produzir uma narrativa sobre si mesma. Lógico que essa narrativa já existia antes, pelo samba e por outras manifestações, mas aquilo dizia um pouco mais sobre a minha geração”.

“Quando vou abordar essas questões musicais, não estou preocupado com a superficialidade da questão do gênero musical. Eu me interesso pelo modo de vida, pelas estratégias de sobrevivência e por tudo o que está ao redor. Isso é uma forma de chegar em algo mais profundo. Eu como antropólogo, gosto muito dos ‘pequenos temas’. Acho que através disso dá para falar muito sobre o ser humano e sobre o Brasil de uma maneira geral”.
“Não dá para esquecer que essa juventude que filmo, morre a cada 23 minutos. Esse é um dado de uma realidade trágica do nosso país. Tento mostrá-la de maneira afirmativa e não romantizada”.

Dom Filó e Domingos nas filmagens de “Black Rio! Black Power” – foto de @Leo Bittencourt

“Sinto que por essa experiência de antropologia, valorizo muito essa imersão de trabalho de campo. Trabalhei muito em pesquisa pra filmes, trabalhando muito também nos de outras pessoas e, sempre, fui um mediador. Nos meus filmes, sempre sou o pesquisador e acabo filmando posteriormente o que pesquiso. Então, essa relação é mais longa. Também existe a questão da dificuldade de financiamento dos projetos. O ‘Favela é Moda’ demorou cinco anos para ficar pronto. Eu filmei sem dinheiro durante três anos. Os processos sempre são longos, são processos de convivência e de fazer o filme com as pessoas, no sentido de explicitar o que estou pensando sobre aquele assunto e sobre o que me interessou. É ouvir mais que propor. Gosto dessa ideia de imprevisibilidade que o documentário traz, de surfar na vida das pessoas e não saber o que vai acontecer exatamente. A pesquisa serve, um pouco, para me mapear e familiarizar com aquele assunto, entender qual é aquele universo e saber o que os personagens pensam. Acho que o roteiro me dá uma certa segurança, mas não sigo um roteiro à risca mesmo. As pessoas que vão me guiando e isso me dá uma adrenalina boa e me emociona no documentário”.

“A violência, de maneira geral, vende. O cinema brasileiro se acostumou a falar dela pra vender. Teve uma onda recente do cinema brasileiro em que tocaram muito nessa questão. Acredito que exista um fetiche muito grande com a violência e o cinema, de certa maneira, alimentou isso. Acho que a violência acaba estando presente nos filmes, mesmo que indiretamente. Não preciso fazer um filme de violência para falar sobre violência. No ‘Batalha do Passinho’, perdi um personagem, um amigo, com três meses de filmagem. No ‘Deixa na Régua’, eu filmo em uma região de milícia e a tensão, para mim, era contínua e está em alguns depoimentos. Isso aparece quando um garoto diz que ele não tem liberdade de pintar o cabelo de loiro, porque na área dele quem pinta o cabelo de loiro é traficante. Ao mesmo tempo, tem um garoto que é desaparecido e a pergunta é se ele sumiu por conta da milícia ou do tráfico e a resposta é ‘nenhum dos dois’. A violência perpassa, mas não quero ficar nela, porque o tráfico, apesar de ter um poder que se estabelece de maneira bélica, é infinitamente menor do que os outros modos de viver da população que mora nesses espaços. O que me interessa é falar da população de maneira geral”.

“Gosto de falar de coisas positivas e afirmativas. Acho que é uma forma de se manter a esperança nesse país. Muito do que foi construído, foi porque as pessoas acreditaram em si em momentos adversos. Na favela e na periferia, a diversidade é contínua, independente do governo que venha e das melhorias que aconteçam. Esse problema da violência existe e sempre existiu. Tento falar desses assuntos de maneira afirmativa, mas a violência e o lado negativo estão presentes. Prefiro a visão dessas pessoas que estão na luta pela sobrevivência e criando suas estratégias. Acho que é mais rico e que a gente aprende mais assim”.

“O .doc ‘Favela é Moda’ é um filme, também, sobre a chegada dessa juventude negra de periferia à Universidade. É uma juventude que sabe os seus direitos e sabe se condicionar na sociedade e no mundo. Quando você vê no que o Brasil está se tornando, acaba fincando meio desesperançado em relação às outras gerações, mas acho que as conquistas dos últimos anos ninguém nos tira. Acho que essa consciência dessa geração é algo que vai se perpetuar e se refletir em um futuro breve. A gente não precisa ser tão pessimista sobre o futuro do Brasil, apesar de a situação ser crítica e crônica, agora”.

Discussões sobre ética, sobre posicionamento de câmera, sobre o combate ao sexismo, sobre a preservação de populações em situação vulnerável, sobre dispositivos e sobre o valor simbólico de se filmar uma folha que cai (no tempo dela) marcaram os papos do Na Real_Vitual, produzido pela Imaginário Digital. Mattos e Abrantes anunciaram, na sexta, que o projeto deve (e merece) continuar ainda este ano. Fica aqui um pedido, de fã, para a próxima edição: é impossível pensar na força do documentário brasileiro sem pensar em Walter Salles e seu “Socorro Nobre” (1996). Seria lindo ouvi-lo. E como seria bacana que um pequeno grande filme, documental, feito no registro da animação em 2D, valesse um lugar no simpósio para o Walt Disney de Nilópolis, Marão: “Até a China”. Seria lindo uma sala de zoom com nosso animador que mais e melhor flertou com as narrativas da “dita” não ficção. Foi linda a festa, pá.

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