Em ‘Radegund’, Terrence Malick revive um mártir da 2ª Guerra

Em ‘Radegund’, Terrence Malick revive um mártir da 2ª Guerra

Rodrigo Fonseca

01 Abril 2017 | 13h09

Karl Markovics e August Diehl em

Karl Markovics e August Diehl se encaram em “Radegund”, uma das apostas para Cannes, com a grife transcendental de Malick, diretor de “A Árvore da Vida”

RODRIGO FONSECA
Está marcado para 13 de abril o anúncio dos filmes em concurso pela Palma de Ouro do 70º Festival de Cannes (17 a 28 de abril) e um dos potenciais candidatos a uma vaga em disputa é um mergulho na Segunda Guerra Mundial conduzida por um dos mais controversos estetas do cinema contemporâneo: o americano Terrence Malick. Seu novo longa-metragem, Radegund, é uma coprodução EUA e Alemanha no qual o ator August Diehl (de Bastardos Inglórios) interpreta o fazendeiro austríaco Franz Jägerstätter, mártir das lutas de oposição ao nazismo, assassinado pelas tropas de Hitler em 1943 e, anos depois, beatificado pela Igreja Católica. Mitos germânicos como Bruno Ganz e Jürgen Prochnow integram o elenco do longa-metragem, já em fase de finalização. E estima-se que o diretor vá trabalhar de maneira mais efetiva em seu lançamento, o que seria algo inusitado em seu perfil de trabalho.

Parte do folclore em torno da postura reclusa, reticente a holofotes, de Terrence Frederick Malick caiu por terra este ano, quando ele apareceu na abertura do SXSW, festival americano em Austin, para promover seu novo longa-metragem: Song to Song, com Michael Fassbender. Ao longo de 48 anos de carreira, no qual finalizou dez filmes (Radegund seria o 11º), o ganhador da Palma de Ouro de 2011 (com A Árvore da Vida) foi visto raríssimas vezes em público, recusando ser fotografado ou entrevistado. Um dos únicos jornalistas que romperam seu claustro foi o francês Michel Ciment, que falou com ele no início dos anos 1970, logo após a estreia de Terra de Ninguém (1973), quando o então jovem cineasta falou de sua paixão por George Stevens e Elia Kazan. Falou ainda que era fiel a um credo: os filmes falam por si, sem a necessidade de que a vaidade de seus realizadores ultrapasse as dimensões da tela. Há ainda um segundo credo nessa cabeça fervilhante, que repetidamente usa a metáfora do Éden como signo da decadência humana: o transcendentalismo.

O diretor num set alemão

O diretor num set alemão com seu astro

Sempre amparado no arrojo da fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki, Malick professa na tela uma homilia espiritualista: a tese de que a natureza está acima da vontade dos homens. Em Malick, a Natureza é a onipotência em estado puro, só que esta é tratada a partir de contornos messiânicos, num reflexo de sua formação pelo transcendentalismo, expresso em ensaístas como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau. O ideal transcendental desses autores escorre por Malick, lido à luz e ao ethos do Romantismo, seja pela evasão (no tempo, no espaço ou na metafísica) seja pelo tratamento quase divino dado ao Amor.

Analista da dicotomia entre inocência e hipocrisia, Malick sempre arquiteta tomadas belíssimas da natureza – como os campos de trigo de Cinzas no Paraíso, de 1978 -, reflexões existenciais – abundantes na Segunda Guerra de Além da Linha Vermelha, pelo qual ganhou o Urso de Ouro em 1999 – e licenças poéticas atípicas em Hollywood – como as da América do século XVII de Um Novo Mundo, de 2005. Outra marca: a cada filme que roda, uma multidão de astros do mais alto quilate se oferece a trabalhar para ele a cachês módicos. Sean Penn é seu maior entusiasta. Na estreia de A Árvore da Vida, ele chegou a dizer que não havia entendido bem o roteiro, mas que valia encará-lo para estar como um mestre daquele porte ao seu lado. Mesmo nos trabalhos em que foi recebido com frieza ou desdém, vide Amor Pleno (2012) e Knight of Cups (2015), Malick continuou sendo respeitado como um artesão da imagem. Até o mais ácido cronista do cinema americano, o jornalista Peter Biskind, autor de Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-Rock’n’roll Salvou Hollywood, foi capaz de render elogios ao diretor em uma entrevista ao P de Pop. “Malick é um estandarte da integridade estética numa indústria que esnoba a autenticidade”.

Durante anos a fio, o cineasta filmou com hiatos enormes. Mas, a descoberta das câmeras digitais alimentou seu gosto por voltar aos sets ou de remexer em imagens de arquivo. Nos últimos seis anos, ele filmou seus longas. Até documentário ele fez: Voyage of Time: Life’s Journey, exibido no Festival de Veneza em 2016.

Indicado ao Oscar pela edição de Cidade de Deus (2002), o cineasta e editor paulista Daniel Rezende trabalhou com Malick em A Árvore da Vida e encontrou a definição precisa para o diretor: “Terry busca o acaso mais do que a certeza. A maneira de Terry fazer cinema está muito mais na busca pelo erro e pelo acidente”.