‘Em Nome da Lei’: menos sociologia, mais adrenalina

‘Em Nome da Lei’: menos sociologia, mais adrenalina

Rodrigo Fonseca

30 de março de 2016 | 01h04

O juiz Vítor (Matheus Solano) com a procuradora Alice (Paolla Oliveira) e o agente Elton (Eduardo Galvão) no thriller

O juiz Vítor (Mateus Solano) com a procuradora Alice (Paolla Oliveira) e o agente Elton (Eduardo Galvão) no thriller “Em nome da Lei”, em cartaz dia 21 de abril

Frente ao Estado de alerta (de golpe) em nossa política, no qual as narrativas sobre o Poder Executivo se reportam a ele em clima de “crônica de uma morte anunciada”, é natural que uma de nossas primeiras baixas simbólicas seja a medida do heroísmo, na impossibilidade de identificarmos um protetor, um defensor, uma segurança. Frente a essa geleia geral (e moral), a principal contribuição do thriller de ação Em Nome da Lei, de Sérgio Rezende, com estreia prevista para 21 de abril, é o fato de ele colocar o conceito clássico (e o conceito moderno) de herói em discussão, propondo um arquétipo heróico possível para o Brasil, na figura tridimensional do juiz Vítor. A complexidade desse personagem só é superada pela complexidade da atuação de seu intérprete, Mateus Solano, cujo gestual fora do óbvio, com tiques alheios a padrões conhecidos, atomiza austeridades, emprestando-lhe uma jovialidade rebelde, típica dos durões de miocárdio mole vivido por Burt Lancaster. Sabe-se que, a partir do Cinema Novo, o heroísmo em nossas telas virou um prazer bissexto, mais associado a uma aura marxista (quase frankfurtiana) de luta de classes, fiel à tese de que herói e marginal são a mesma palavra. DO CN pra frente, a lógica não variou muito disso, com exceção do Capitão Nascimento de Wagner Moura em Tropa de Elite I (2007) e II (2010). Mas, ali, o cabresto do realismo era ainda senhorial. No novo longa de Rezende, não. Escalado para trabalhar numa cidade de fronteira com o Paraguai, Vítor é um herói sem sociologia: factual, judicial, prático, ativo e sem moléstias existenciais.

Gómez (Chico Diaz), El Hombre do tráfico

Gómez (Chico Diaz), El Hombre do tráfico

Na lógica cinemanovista de outrora, uma frase de Gramsci, profeta da dialética, soaria ideal para resumir paralelismos entre o real e o ficcional: “Um herói se mede pela fome do povo: barrigas vazias roncam pela necessidade de quem lhes sacie o apetite”. Mas a lógica do roteiro sinuosamente saboroso de Rezende, Rafael Dragaud e Rodrigo Lages escorre por outra mais-valia. A mais-valia do tráfico, na imagem de um ícone populista que ganha o amor de seus conterrâneos em troca de favores, esmolas e benesses: o chefão “El Hombre” Gómez, encarnado por Chico Diaz. O Capital para ele não é uma carta de intenções para o futuro da infraestrutura operária: é só o fruto do contrabando regado a sangue. A tessitura do script, somada à parceria de 35 anos entre Diaz (no auge do talento) e Rezende, bastariam para alimentar Gómez com os atributos de qualquer bom Zé Pequeno. Mas ele não um sociopata, não é a Milícia da Zona Oeste do Rio, não é representante do Esquadrão da Morte da PM: Gómez é só um empresário, pai gente fina, marido amoroso, amante caliente, patrão zeloso. É duro detestá-lo, o que só amplia os apuros de Vítor, pondo Solano ainda mais à prova.

Mas há nele a maldade expressa pelo usucapião de práticas ilícitas e por uma retidão inabalável ao julgar suas vítimas (e seus acólitos). Gómez precisa se fazer temer. E, na mesma medida, só que em outro extremo da Justiça, Vítor precisa se fazer respeitar. É necessidade, mas também vaidade. E aí ambos se humanizam… e se equivalem pelo antagonismo. A fala da procuradora Alice (Paolla Oliveira) sobre a insistência de seu superior em não ouvir ninguém no ato de decidir sobre que operações referendar e a crítica do policial federal Elton (Eduardo Galvão) sobre sua postura intempestiva frisam seu perfil egocêntrico. Vítor é um herói imperfeito, ideal para tempos que flagram o apogeu do vigilantismo mascarado em Hollywood, via Batman vs. Superman.

Selfie da Justiça: um magistrado em guerra contra o tráfico no roteiro de Sérgio Rezende, Rafael Dragaud e Rodrigo Lages

Selfie da Justiça: um magistrado contra o tráfico no roteiro de Sérgio Rezende, Rafael Dragaud e Rodrigo Lages

Sem cair na tentação de fazer uma alegoria sobre o Poder Judiciário, Em Nome da Lei sabe seu tamanho e sua vocação: quer ser espetáculo, delineado à moda clássica, num formato de gênero (o policial), temperado pelo Sazon autoral de seu realizador. Diretor de uma espécie de Scarface da Baixada Fluminense, O Homem da Capa Preta (1986), Rezende fala com recorrência de homens épicos que se encontram diante de um turbilhão histórico, como foram Antônio Conselheiro em Guerra de Canudos (1997), o Barão de Mauá em O Imperador e o Rei (1999) e o bandido Professor de Salve Geral! (2009). Com a psiquê à flor da pele, Vítor não chega a ser épico, mas traz em si um peso mítico à la Hércules de ter uma série de trabalhos para resolver por imposição de um Zeus chamado Corrupção. Gómez é seu Leão da Neméia, com a fúria de Chico Diaz nas presas escancaradas.  O fardo heróico em suas costas pesa. Mas nos contagia, pela adrenalina, numa escrita fílmica dada na montagem de Maria Rezende.

De óculos escuros, Roney Villela brilha no papel do delegado Rubens, aqui ao advogado corrupto (Paulo Giardini.

De óculos escuros, Roney Villela brilha no papel do delegado Rubens, aqui ao advogado corrupto (Paulo Giardini.

p.s.: Tem um delegado que é capacho de Gómez na trama, Rubens, e ele foi confiado ao Wilson Grey do cinema brasileiro contemporâneo, o ótimo Roney Villela, sempre perfeito nas pontas que lhe reservam com sua máscara trágica e seu pode de traduzir a canalhice institucionalizada.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.