Em cartaz ‘A Febre’, gesto político de inclusão

Em cartaz ‘A Febre’, gesto político de inclusão

Rodrigo Fonseca

15 de novembro de 2020 | 08h48

Locarno abriu as portas do mundo para “A Febre”

RODRIGO FONSECA
Neste domingo de eleição, onde é preciso cautela na escolha do futuro de nosso país, conferir a joia “A Febre”, da diretora Maya Da-Rin, onde ela foi feita para ser vista – ou seja, a sala de cinema – é um gesto político… e um gesto de nobreza: e vá sem medo, pois o circuito que exibe esta premiadíssima produção tem seguido as normas de segurança contra a covid-19 com total respeito. Teve até aplauso para o longa-metragem, no Rio de Janeiro, em uma de suas sessões iniciais, na sexta passada: em solo carioca, ele está no Espaço Itaú, às 18h30 e 20h30; e no Estação Net Rio, às 18h10. Em São Paulo, tem exibições no Reserva Cultural, às 18h30, e no Espaço Itaú Frei Caneca, às 14h e 18h40. Não perca a chance de conferir uma cartografia de exclusões que iniciou sua carreira mundial pela Suíça, em agosto do ano passado, no Festival de Locarno, saindo de lá com o Prêmio da Crítica, votado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica – Fipresci, e com a láurea de melhor ator, dado a Regis Myrupu, um estreante de origem indígena. Ele vive Justino, um vigia do cais do porto que começa a ser acometido por um estado febril inexplicável para a Medicina. E esse mal se manifesta no momento em que uma criatura desconhecida passa a rondar o perímetro por onde ele trafega, em sua rotina modesta. No Festival de Biarritz (França) e no Festival de Pingyao (China), a produção conquistou os prêmios de Melhor Filme. Também recebeu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Chicago (EUA). Projetado em Thessaloniki (Grécia), Mar del Plata (Argentina) e Amiens (França), o longa conquistou o troféu Candango de melhor filme, em Brasília, e o troféu Redentor de melhore direção no Festival do Rio.

Você correu o planeta com “A Febre”, colecionando prêmios e reações de admiração. Mas o que você percebeu, nesse périplo, da visão que as pessoas têm acerca das populações indígenas do Brasil e suas vivências? Que perguntas eram mais recorrentes em relação à representação indígena que você faz?
Maya Da-Rin:
Fora do Brasil há uma inquietação grande com o nosso momento político e com as consequências para a democracia, cultura, meio ambiente e para os povos indígenas. Apesar de o projeto ter sido todo desenvolvido antes do golpe que levou ao impeachment da Dilma, e de termos filmado antes de Bolsonaro ter sido eleito, uma das perguntas mais recorrentes é sobre a relação do filme com o momento que o Brasil vem enfrentando. Muitas pessoas comentam sobre como algumas questões que o filme levanta se tornaram ainda mais atuais, infelizmente. Não tínhamos como saber que nada disso aconteceria. Mas se temos a extrema direita hoje no poder é porque essas forças sempre existiram no Brasil e persistem há mais de 500 anos. Por outro lado, o desconhecimento sobre a história e as especificidades dos povos indígenas que vivem aqui não é necessariamente maior lá fora do que no nosso próprio país. E isso é terrível. É também por conta disso, da nossa profunda ignorância sobre a história do nosso país, a história que não é contada, na qual os protagonistas não são os brancos, que Bolsonaro está hoje no poder.

Maya Da-Rin: Redentor de melhor direção no Festival do Rio

O termo “extra-ordinário”, hoje muito usado pela crítica como alternativa do sobrenatural, nasceu muito nos debates de “A Febre”, desde Locarno. O que esse “extra-ordinário” hoje representa nesse seu olhar para a Amazônia e para as tradições indígenas? Como o “extra-ordinário” dialoga com a tradição da fantasia no cinema?
Maya Da-Rin:
Olha, não sabia. Sobrenatural não é um termo que faz tanto sentido dentro do universo com o qual o filme dialoga, porque remete à algo que está acima ou além do natural. O termo mais usado para se referir aos espíritos é “encantados”, que traz consigo a ideia de um encantamento do mundo, já que são seres que estão por toda a parte e, não necessariamente, em um Além, distante, ou no Céu, acima de nós. A ideia de encantamento me remete à uma abertura do mundo para aquilo que excede ao ordinário. Por isso “extra-ordinário” talvez faça mais sentido. Também porque sobrenatural é um gênero, com códigos já muito estabelecidos, e que não foram os que nos guiaram na construção da narrativa de “A Febre”.
Queria entender um pouco da confecção de som em relação à sua dramaturgia. Como foi pensada a engenharia sonora de um filme que lida com ruídos (do “extra-ordinário”, da selva) mas que transita muito pelo silêncio?
Maya Da-Rin:
O som sempre foi um elemento muito importante na construção dos meus filmes. Eu normalmente começo a pensar o som desde o início do roteiro, mas é durante a pesquisa de locação que as ideias sonoras começam a ganhar corpo. Em “A Febre”, Justino está vivendo um momento de perturbação. Sua esposa morreu, sua filha vai partir e, de repente, ele se vê tendo que enfrentar sentimentos que até então estavam adormecidos. Era importante que essa perturbação e esse vazio também fossem sentidos pelo expectador. Eu, o Felippe Mussel, responsável pelo desenho de som, e a Karen Akerman, montadora, entendemos que o principal caminho para construirmos o mundo interior do personagem era através do som. Além dos sintomas físicos que Justino apresenta, eu me perguntava também sobre como a febre poderia ir aos poucos se alastrando pelo filme. O Felippe percebeu, então, uma aproximação entre o timbre agudo dos insetos da floresta e o de certas máquinas do porto de cargas. Começamos a estar mais atentos a essas sonoridades e, na edição de som, trabalhamos criando composições com os ruídos do porto e da floresta de forma que não éramos mais capazes de identificar a origem de cada som. São sons repetitivos que nos levam a um estado hipnótico e trazem uma dimensão febril para o filme.

Engenharia de som do filme saiu coroada da Première Brasil com um prêmio especial do júri, dado a Breno Furtado, Felippe Schultz Mussel e Emmanuel Croset

Quais são os seus próximos passos pós “A Febre”, seja de novos filmes, seja de desdobramento desta investigação de vivências indígenas?
Maya Da-Rin:
Nós estamos vivendo um momento de desmonte de cultura e das políticas públicas para o cinema. Acredito que vamos precisar nos reinventar se quisermos continuar filmando. Eu venho trabalhando em alguns projetos de curta-metragem para serem realizados com equipes muito reduzidas e com poucos recursos. Paralelamente, eu estou também escrevendo o argumento de um próximo longa de ficção, que, provavelmente, vai se passar no sul do Brasil. Mas, por enquanto, não temos perspectiva de como alavancar recursos para filmá-lo.

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