‘Elon Não Acredita Na Morte’ é uma aula de suspense

‘Elon Não Acredita Na Morte’ é uma aula de suspense

Rodrigo Fonseca

24 Abril 2017 | 16h14

Rômulo Braga é Elon, um desvalido, refém de seu próprio fracasso, que busca o paradeiro de sua mulher desaparecida

No aclamado filme de Ricardo Alves Jr., Rômulo Braga é Elon, um desvalido, refém de seu próprio fracasso, que busca o paradeiro de sua mulher desaparecida

RODRIGO FONSECA
Essências sombrias e existencialistas típicas de David Lynch rodeiam a mais febril das incursões recentes do cinema brasileiro ao terreno do thriller: Elon Não Acredita na Morte, que estreia nesta quinta-feira após fazer barulho na cena autoral internacional. Cercado de elogios e prêmios por onde passa mundo adentro, a produção mineira de R$ 900 mil, rodada em Belo Horizonte sob a direção de Ricardo Alves Jr., foi laureada na China com um prêmio de contribuição artística no Festival de Macau (dado por sua engenharia de som refinada). Roterdã, hoje um dos maiores canteiros de invenção na seara dos festivais estrangeiros, reservou a ele uma acalorada recepção em janeiro, na Holanda. Aclamado ainda em sua passagem pelo México, pela Colômbia, pelo Uruguai, este suspense com o mito nacional das HQs Lourenço Mutarelli em seu elenco rendeu a seu protagonista, Rômulo Braga o troféu Candango de melhor ator em Brasília. O filme é um atestado do vigor do cinema feito hoje nas Minas Gerais, por uma geração engajada em refletir sobre os rumos estéticos e éticos da imagem – seguida de perto por uma nova crítica, que tem em Marcelo Miranda seu expoente maior.

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Sua trama vasculha a trilha deixada pelo looser (Rômulo, numa atuação devastadora) em busca do paradeiro de sua mulher. Seu desempenho tonifica o longa-metragem, que se candidata (com facilidade) ao posto de melhor exercício de tensão audiovisual do ano do país, vitaminando um gênero no qual nossa produção cinematográfica emplacou recentemente a pérola Para Minha Amada Morta (2015), de Aly Muritiba, lá do Paraná. Aliás, são dois filmes que conversam pela temática, por uma inquietação existencial frente ao desamparo e pelo clima de perigo anunciado, embora, aqui, a direção opte por um caminho de maior saturação (de breu, de cores ferventes, de mistério), dialogando – ainda que de forma indireta – com uma tradição mais imagética e mais psicanalítica da genealogia do suspense. É difícil sair dele sem pensar em Estrada Perdida (1997), de Lynch.

 

Estrela do necessário Exilados do Vulcão (2013), Clara Choveaux vive uma femme fatale que embaralha ainda mais a percepção de Elon em sua investigação. E ainda sobrou espaço nobre para Mutarelli em cena: ele tem uma participação como o primeiro marido (ou coisa do tipo) da desaparecida. É na fotografia de Matheus Rocha que o longa impõe toda a sua potência, em enquadramentos de corpo a corpo com Rômulo, em andanças a esmo por labirintos de mistério. A produção recebeu ainda o Prêmio Especial do Júri da Semana dos Realizadores, no RJ, onde levou ainda uma láurea especial de direção para Alves Jr., que esmiúça sua estética no papo abaixo:

De que maneira Elon se articula com a tradição do suspense?
RICARDO ALVES JR.:  
O Elon é o personagem que busca alguém e que, de alguma maneira, vai colhendo pistas aqui e ali. O filme está construído sobre uma “narrativa tensional” para esclarecer a sensação de agonia desencadeada por um enredo misterioso que contrapõe à história nítida e organizada, gerando sentimento de incerteza ou ansiedade no espectador. Penso que Elon é como se fosse um encontro entre Edgar Allan Poe e Franz Kafka. Poe na literatura é a fonte para a narrativa que envolvem o mistério e o policial, enquanto Kafka está que tange os personagens em luta com a lei ou as instituições.    Uma outra referencia é o mito grego Orfeu. Elon é um Orfeu contemporâneo,  perdido, atormentado, sem saber o que está de fato acontecendo – ou sem poder acreditar no que está acontecendo, aos poucos vai se desintegrando. De alguma maneira, o personagem do Elon se encontra e dialoga mais com o mito grego do Orfeu que desce ao inferno na busca pelo amor perdido e, por consequência, em busca de a si mesmo.

 Como foi construir a luz do filme? Que referências usou?
RICARDO ALVES JR.:  O trabalho de luz de Elon é construído numa relação muito estreita com o fotografo Matheus Rocha. Pensamos sempre numa imagem “cavernosa” uma relação de luz e sombra. Elon é uma sombra em busca da Luz.  Esse princípio norteou nosso trabalho. O filme é construído todo com luz diegética, observação da locação para utilizar a luz natural do ambiente. Nossas referências sempre foram bases de discussão, inspiração, nunca uma estética a ser perseguida. Matheus sempre trouxe os filmes do diretor de fotografia francês Jacques Loiseleux, eu trazia as referências do fotografo romeno Oleg Mutu.