‘Elis’, de Hugo Prata, faz sucesso nos EUA

‘Elis’, de Hugo Prata, faz sucesso nos EUA

Rodrigo Fonseca

24 Março 2018 | 12h43

Andréia Horta alcança um novo (e altíssimo) patamar dramático como Elis Regina, num filme premiado em Gramado

RODRIGO FONSECA
É raro, na história do cinema brasileiro, haver unanimidade de aplauso e elogios acerca de uma interpretação, com raras exceções como Fernanda Montenegro em Central do Brasil (1998); Marília Pêra em Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981); Regina Casé em Que Horas Ela Volta? (2015); Fernanda Torres em Terra Estrangeira (1995). Andréia Horta passa a fazer parte deste clubinho seleto, de atuações de brio incontestável, com Elis, que acaba de entrar em cartaz nos EUA, com sucesso de crítica e público. No Festival de Gramado de 2016, ela e todo o (belo) filme de Hugo Prata sobre a cantora Elis Regina (1945-1982) foram ovacionados como raras vezes se viu um filme ser ovacionado por lá. E, de quebra, a mineirinha de Liberdade, Liberdade (um baita sucesso televisivo) recebeu o Kikito por sua devastadora composição, que vai além do mimetismo.

Laureado em Gramado ainda com o prêmio de júri popular e o troféu de melhor montagem, Elis vai se desenhando como uma cinebiografia clássica, resgatando passos e precipícios de uma das maiores aves canoras da MPB até trocar de trilhos, optando por um caminho menos calcado em fórmulas de gênero e mais profundo. Está lá, bonitinho, fato a fato, emoção a emoção, a trajetória da Pimentinha pelos palcos, mas, a uma certa altura, o factual dá lugar uma dimensão mais introspectiva sobre a solidão de uma artista, de tamanho GG no imaginário brasileiro, mas de tamanho PP no quesito autossatisfação. Ali, num procedimento que lembra o eterno ‘Round Midnight (Por Volta da Meia-Noite), de Bertrand Tavernier, a cantora deixa a condição de mito pra ganhar status de gente, demasiadamente humana (e bela), ao mesmo passo em que a fotografia de Adrian Tejido vai se permitindo mais e melhores blues no controle do foco e no jogo com a luz.

Prata consegue preservar o trajeto de ascensão à queda sem que o filme caia de ritmo, tendo Andréia como aríete para seguir em frente. O elenco ao lado dela alimenta a fornalha da atriz com atuações provocativas, sobretudo a de Julio Andrade como o performer Lenny Dale e a de Lúcio Mauro Filho (surpreendente) como Miéle. Como existe o amor – e a vida, sua inimiga –, o diretor escalou dois grandes atores para dar alma às maiores paixões de Elis: Gustavo Machado faz um Ronaldo Bôscoli chave de cadeia e Caco Ciocler faz um César Camargo Mariano açucaradamente companheiro. Um não erra na dose da cafajestagem, nem o outro excede no mel. Um representa a margem do risco e o outro a margem da segurança. Mas esse bêbado equilibrista chamado coração nem sempre se satisfaz com nenhuma dessas instâncias, como Elis comprovou em sua trajetória curta, mas luminosa nos palcos.

E de hit em hit, as memórias dela, revividas numa operação cinematográfica de imersão no fino da fossa leva o público ao prazer, pelas franjas da comoção.

 

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