Elio Germano, o dínamo de Berlim

Elio Germano, o dínamo de Berlim

Rodrigo Fonseca

25 de fevereiro de 2020 | 11h24

Elio Germano vive o pinto Antonio Ligabue em “Volevo Nascondermi”

Rodrigo Fonseca
Sem fazer alardes, uma crônica de costumes abrasiva sobre a vida suburbana de Roma,
“Favolacce”, dos irmãos Fabio e Daminano D’Innocenzo, pode dar uma bagunçada no placar da Berlinale.70 para, no mínimo, garanti um balde de elogios ao ator Elio Germano, pelo papel de um sexista pai de família às voltas com a tragédia do cotidiano. O mesmo Germano levou meia Berlinale às lágrimas com “Volevo nascondermi”, no papel do artista plástico Antonio Ligabue (1899-1965), que, apesar de uma série de limitações físicas, marcou seu nome a tinta na História das Belas Artes. O mais absurdo é que o filme pelo qual o ator italiano de 39 anos foi consagrado, com um prêmio de melhor interpretação em Cannes, há uma década, até hoje não estreou no Brasil. Trata-se de “La Nostra Vita” (2010), de Daniele Luchetti. Existem até planos para adaptá-lo para os palcos no teatro brasileiro, mas nada de espaço para ele em circuito, só em TVs a cabo e muito sazonalmente. Elio vivia um pai de família às voltas com a perda de sua jovem companheira.
“A gente mergulha na dor sem medo porque isso é da natureza política do cinema”, disse Germano em Berlim.
Em “La Nostra Vita”, ele levou a Croisette a chorar dois oceanos cantando “Anima Fragile”, de Vasco Rossi, em um ritual funerário. O choro que explode em seu rosto é aquele da saudade que ousa dizer seu nome em forma de celebrações do passado como pretérito perfeito… ou mais do que perfeito. No presente, ao personagem, resta um querer que busca desaguar na resiliência de um abraço que sirva de acolhimento.
Até o momento, entre os 12 dos 18 concorrentes ao Urso de Ouro já exibidos na Berlinale, o único com status de favorito e com rótulo de obra-prima é “Sibéria”, de Abel Ferrara, que faz de Willem Dafoe o candidato mais cotado ao prêmio de interpretação. Como ele recebeu um Urso de Ouro honorário em 2018, pode ser que a láurea vá para outro, como o próprio Elio Germano – ou Javier Bardem, que passa aqui na quarta com “The Roads Not Taken”, de Sally Potter -, mas ainda assim, seu desempenho avassalador, não será esquecido. Ele vive Clint, o dono de um bar/bodega numa imensidão gelada… talvez siberiana… que embarca em uma jornada de autodescoberta espiritual pelo mundo adentro. E nessa viagem, esbarra com um duplo de si mesmo, com um urso faminto e com um peixe falante. “Não é o lado sombrio da vida que me atrai, mas sim figuras que me imponham desafios”, disse o astro.
Até o momento, nada do que concorre aqui parece equivocado: há uma seleção vigorosa. E só faz crescer por aqui a boa reputação de um outro concorrente dos EUA, avesso ao padrão metafísico de Ferrara: o hiperrealista “Never Rarely Sometimes Always”, de Eliza Hittman. Parece um filme da Primavera Romena, em sua retidão. Sua trama acompanha o périplo de uma adolescente grávida, Autumn (Sidney Flanigan), para saber o que fazer com o bebê. Nesta terça, a sensação do evento foi a divertida produção sul-coreana “The Woman Who Ran” (” Domangchin yeoja”, no original), novo (e mais leve) longa-metragem do prolífico Hong Sangsoo, realizador de “Hahaha” (2010). Parceira de obra do diretor, a premiada atriz Kim Ninhee vive Gamhee, uma figura inquieta em seu casamento de cinco anos. Quando seu marido viaja, ela vai procurar as amigas, para uma série de comes, bebes e conversas em que o cineasta disseca a encanta que pode residir na rotina. Neste sábado saberemos quem ganha o quê. Entre os curtas-metragens em concurso, na Berlinale Shorts, algo me diz que o artesão canadense Guy Maddin pode sair vencedor com “Stump the Guesser”, sobre um adivinhador profissional. Maddin divide a direção com Evan e Galen Johnson.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: