Eletrizante, ‘Sob Pressão’ leva às telas a crise da Saúde

Eletrizante, ‘Sob Pressão’ leva às telas a crise da Saúde

Rodrigo Fonseca

15 de novembro de 2016 | 08h40

Capitão Botelho (Thelmo Fernandes) ameaça os médicos vividos por Julio Andrade e Álamo Facó em

Capitão Botelho (Thelmo Fernandes) ameaça os médicos vividos por Julio Andrade e Álamo Facó em “Sob Pressão”: um ‘Tropa de Elite’ de jaleco

RODRIGO FONSECA
Poucos diretores brasileiros da safra revelada na primeira metade da Retomada, ali entre 1995 e 2002, têm uma potência visual e um requinte de enquadramento tão afiados e abertos à depuração do tempo quanto os de Andrucha Waddington, que dá um passo a mais (à frente) em sua trajetória investigativa do real com Sob Pressão, em cartaz a partir desta quinta. O apelido de “novo Tropa de Elite” atribuído ao filme após sua apresentação no Festival do Rio 2016 – de onde saiu com os prêmios de melhor ator, para Julio Andrade, e de melhor coadjuvante, para um fosforescente Stepan Nercessian – não passa por indiretas conexões com a estética favela movie nem pelos arranhões que ele dá na corrupção policial. A comparação vem pela nevralgia em seu ritmo narrativo, taquicárdico do início ao fim, e pelo reaquecimento da vertente de thriller social, na qual ele injeta adrenalina ao retratar o sucateamento do sistema de saúde no Brasil. O principal acerto deste exercício de hiperrealismo do diretor de Casa de Areia (2005) é o fato de imprimir (e sustentar) ao longo de quase 90 minutos uma sensação de filme de ação em uma trama hospitalar. Ação padrão Stallone.  

Dr. Evandro em ação

Dr. Evandro em ação no centro cirúrgico

Mais conhecido por filmes acerca de um Brasil profundo, telúrico ou litorâneo, como Eu, Tu, Eles (premiado em Cannes, em 2000) ou em docs à la Viva São João (2002), Andrucha aproveitou sua experiência urbana em Gêmeas (1999) e Os Penetras (2012) para explorar as periferias do Rio usando um hospital como metonímia da exclusão. Ali, o cineasta cria uma espécie de geopolítica do Brasil, entre vítimas e algozes, numa Faixa de Gaza assistencial, na qual os médicos suturam mais do que feridas: o bisturi mais afiado é o que desafio os poderes paralelos, seja o da PM, seja o da bandidagem. Nesse aspecto sociológico, Thelmo Fernandes, um ator de talento GG, alcança neste belo filme, vulto à altura de seu amplo ferramental interpretativo sob a farda do Capitão Botelho. Signo vivo de abuso de poder, o oficial desarranja a balança ética no embate de forças (quase marxista) da polícia com o corpo de médicos liderado pelo Dr. Evandro (Júlio Andrade, sempre na curva da instabilidade), sob a supervisão do Dr. Samuel (Stepan).

7 Sob Pressão

Filmado na Santa Casa de Misericórdia, em Cascadura, com inspiração no livro Sob Pressão — A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro, do Dr. Marcio Maranhão, o novo trabalho de Andrucha faz do Doutor Evandro uma espécie de herói torto, perto do que Steven Soderbergh fez com Clive Owen na série The Knick, na HBO. Caberá a Evandro, cirurgião-chefe de uma unidade clínica ameaçada de fechamento pela chegada de uma administradora (Andréa Beltrão) faminta por downsizing, manter seus pacientes vivos e seus médicos unidos, usando métodos dignos do MacGyver de Profissão: Perigo (tipo o uso de furadeiras de obra). Para isso, ele passa por três tarefas dignas dos 12 Trabalhos de Hércules: a) decidir entre salvar um traficante ou reviver um policial baleado; b) ajudar um garotinho baleado na perna; c) salvar um integrante de sua facção de jaleco. A aventura entra nessa trifurcação, mas o cineasta nunca nos deixa perder de vista o ponto de chegada mais esperado: o entendimento das crises dos hospitais em âmbito público nacional. E, com isso, ele nos dá um espetáculo febril.

COTAÇÃO: EXCELENTE