Elefante da sobriedade brilha na Amazon Prime

Elefante da sobriedade brilha na Amazon Prime

Rodrigo Fonseca

19 de agosto de 2019 | 13h15

Gus Van Sant dá instruções a Joaquin Phoenix nos sets de “A pé ele não vai longe”

Rodrigo Fonseca
Enquanto “Coringa” (“Joker”) não chega às telas, instigando apostadores acerca do possível bom desempenho do longa-metragem sobre o Palhaço do Crime nos festivais de Veneza e Toronto, filmes recentes de seu protagonista, Joaquin Phoenix, buscam os holofotes dos canais de streaming, como é o caso de “Don’t worry, he won’t get far on foot” (2018). Esse é hoje um dos títulos mais disputados do catálogo da Amazon Prime. Garantia de choro, mas também de uma reflexão sobre a acomodação de cicatrizes, “A pé ele não vai longe” (título em português), o mais comovente dos concorrentes ao Urso de Ouro da Berlinale do ano passado, apara as arestas de uma nova trilha estética na obra de Gus Green Van Sant Jr. Coroada com a Palma de Ouro de Cannes por “Elefante” (2003), a trajetória cinematográfica do realizador do cult “Garotos de programa” (1991) se bifurca entre uma veia de experimentação formal ancorada a inquietações diante do vazio existencial (“Paranoid Park”, “Last days”) e uma veia mais clássica de dramas edificadores, sobre superação (“Encontrando Forrester”, “Sea of trees”). Mas há ainda na relação deste fotógrafo e cineasta de 66 anos com a imagem em uma terceira via, a biográfica, para a qual ele traz um pouco de experimentalismo e a sobriedade de seus longas mais lineares, como se viu em “Milk – A voz da igualdade” (2008). Seu trabalho mais recente, baseado no livro “Don’t worry, he won’t get far on foot”, do cartunista John Callahan (1951-2010) vai por essa linha. O uso de vinhetas, baseadas nos desenhos de Callahan, interpretado com brilhantismo (e dor) por Joaquin Phoenix, traduz o espírito transgressor do diretor, aqui mais contido, a serviço de uma dívida com um velho amigo. Há tempos, Robin Williams (1951-2014), a quem ele dirigiu no seminal “Gênio indomável” (1997), quis levar às telas a história de Callahan, um alcoólatra que foi confinado a uma cadeira de rodas após um desastre, tornando-se um ás do cartum. Williams queria produzir, tendo um famoso cadeirante, Christopher Reeve (1952-2004), o eterno Superman, no papel central. O projeto não aconteceu quando Williams queria, mas o pedido daquele grande ator nunca saiu da cabeça de Gus, que, há um ano, tirou do papel a jornada de Callahan para sair do Inferno da autocomiseração… pela arte. Há um apuro na fotografia de Christopher Blauvelt para diluir a gradação das cores: quanto mais sereno o protagonista fica, mais suave é o colorido.  A montagem do longa, feita pelo próprio Gus (com David Marks), dilui a linha conservadora adotada pelo cineasta, a fim de respeitar a linha memorialista que seu personagem (real) deixou impressa em sua autobiografia. O uso de tiras de HQ e a fusão de alucinações com imagens do dia a dia do deaenhista salvam o longa da burocracia. E há um combustível poético singular na presença de Jonah Hill (de “Superbad”) na pele do guru de Callahan na luta contra a bebida. Hill quase ofusca Phoenix, o que é um feito para poucos.

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