‘El Perfecto David’: novo ás do cinema argentino

‘El Perfecto David’: novo ás do cinema argentino

Rodrigo Fonseca

27 de agosto de 2021 | 13h09

Fisiculturismo é pano de fundo para a trame de obsessão retratado no longa de Felipe Gómez Aparicio

Rodrigo Fonseca
Há um filme argentino, revelado no Festival de Tribeca, em Nova York, que vem crescendo no boca a boca dos internautas dia após dia, despertando o interesse dos exibidores: o drama geracional e thriller psicológico “El Perfecto David”, dirigido por Felipe Gómez Aparicio. Publicitário de sucesso em seu país, o diretor faz sua estreia em longas-metragens explorando a psiquê de um rapaz (Maurido Di Yorio) obcecado em tonificar seu corpo até o limite da perfeição, num rígido regime de fisiculturismo. Tudo fica mais complexo quando sua mãe, Juana (Umbra Colombo), entra em cena. Artista plástica, ela molda suas esculturas a partir dos músculos do filho, forçando-o a se tornear de modo a reproduzir, na carne, o “David”, de Michelangelo.
“Durante os 40 minutos iniciais desse filme, a câmera é fixa, não importa aonde David vá, pois é um momento no qual ele não decide nada por si, sendo controlado por sua mãe. Mas no ato em que as emoções mudam, ao se relacionar com outras pessoas, ao ser olhado e desejado por uma jovem, sua percepção de mundo muda e ele passa a agir fora da ordem que seguia, o que dá ao meu fotógrafo, Adolpho Veloso, liberdade de botar a câmera na mão e acompanha-lo com fluidez”, diz Aparicio ao Estadão, celebrando as críticas positivas que o longa recebeu pela potência de seu visual, repleto de chiaroscuros. “As sombras são a medida da incerteza”.
Depois de anos dedicando-se a rodar comerciais, afoito por uma chance de fazer ficção, Aparicio soube da trama de David, que vinha sendo gestada pelo roteirista Leandro Custo, abraçando-a como forma de estrear no cinema, estudando um mundo distinto do seu: o dos halterofilistas e o culto a um físico digno de Adonis. Em “El Perfecto David”, o realizador acompanha a rotina de pessoas que ganham uma silhueta de Sansão “malhando ferro” e consumindo substâncias químicas – algumas delas legalizadas. “Não quis falar de pessoas que se escondem na sombra para picar esteroide na veia e, sim, de pessoas que seguem uma disciplina rígida de treinos, que tomam produtos regulamentados, em nome de um projeto de vida e de saúde”, disse o diretor, que levou sua equipe habitual de publicidade para o set.

Embora enverede por situações de tensões de causar assombro, “El Perfecto David” causou orgulho nos curadores de Tribeca que o selecionaram pelos debates gerados a partir do longa acerca de relações parentais abusivas. “A questão da família disfuncional era o meu foco aqui, a partir de um olhar sobre uma mãe que empurra o filho para uma prática de controle”, diz Aparicio. “Eu queria falar das pressões que sofremos na adolescência, obrigados a escolher uma carreira e a seguir uma orientação sexual, sem termos maturidade para as vivências que nos são impostas. Existe, em nosso continente, uma certa obrigatoriedade de que nosso cinema faça sempre análises políticas, discutindo a pobreza, combatendo ditaduras. Mas o meu real foco aqui não era de fundo social. Era entender a angústia de um personagem em um recorte de sua vida. As classes sociais estão lá, como informação para o espectador, mas no centro da narrativa estão as inquietações psicológicas da condição humana”.

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