‘El Farmer’, relatos selvagens do palco argentino

‘El Farmer’, relatos selvagens do palco argentino

Rodrigo Fonseca

06 de novembro de 2019 | 08h34

RODRIGO FONSECA
Em tempos de renovação política na Argentina, com a eleição de Alberto Ángel Fernández, soa urgente, necessário e elucidativo a presença de um espetáculo (magistral) como “El Farmer” nos palcos de Buenos Aires, tendo Rodrigo de la Serna, o Palermo de “La Casa de Papel”, em seu apogeu. Com uma encenação de traços expressionistas, a peça anda lotando o Teatro de La Comédia. Sua dramaturgia é baseada em romance de Andrés Rivera, adaptado por seus dois atores, Pompeyo Audivert e De La Serna, sob a direção de Andrés Mangone, em parceria com eles. O foco é a exumação semiótica e ética do mito Juan Manuel José Domingo Ortiz de Rosas (1793 – 1877), apelidado de “O Restaurador das Leis”: um político e oficial militar argentino, de instinto guerreiro, que governou a província de Buenos Aires e brevemente a Confederação Argentina. Ao confrontar dois tempos da vida de Rosas, em uma instância na Inglaterra, Mangone põe toda a História do Poder em sua pátria em uma revisão crítica. O desempenho de seus protagonistas é impecável.

Como foi a construção do jogo duplo entre passado e velhice, glória e derrocada de Juan Manuel de Rosas a partir dos seus dois grandes atores?
Andrés Mangone:
A jogada mais importante da adaptação foi desdobrar o texto, que é uma espécie de monólogo do Rosas velho e a ponto de morrer, em dois personagens. Temos: o Rosas no último dia de sua vida; e o Rosas mítico e fantasma em seu apogeu. Desta forma, impõe-se uma interpelação entre a decadência e o reinado, a velhice com a juventude, o agir com suas consequências. Porém, o mais importante em toda máquina teatral é a indagação sobre as identidades nacionais e universais do ser humano.
O que Juan Manuel de Rosas representa para sua geração como ícone político?
Andrés Mangone:
Rosas é o passado oculto, censurado pelas tendências políticas que finalmente governaram e construíram este meu país. Mas por baixo, pelas nádegas da construção cultural, está muito presente. Pessoalmente, tenho uma visão crítica sobre Rosas, também a tenho sobre quem o traiu e o quis enterrar para sempre. Mas é inegável que ele tem muito a ver com quem ainda somos.
Com que tradição de dramaturgia “El Farmer” se conecta, seja no teatro argentino ou no teatro europeu?
Andrés Mangone:
O Farmer não é, originalmente, uma dramaturgia teatral: é um ensaio de Andrés Rivera. A dramaturgia, constituída pelos adaptadores, é um desdobramento e algumas seleções do material original. Não vejo isso respondendo a nenhuma tradição em particular.
Como foi a construção da luz (iluminação) da peça?
Andrés Mangone:
A iluminação é projetada por Leandra Rodriguez, uma artista muito singular e com quem trabalhamos em várias oportunidades. Procura de forma muito sutil… sintética… constituir no cenário um território de interior isolado e pobre, para, logo, romper com espectros de imensidade, batalhas e sonho.

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