‘El Agente Topo’: Chile grisalho

‘El Agente Topo’: Chile grisalho

Rodrigo Fonseca

23 de setembro de 2020 | 20h03

Apesar da delicadeza na direção de Maite Alberdi, “El Agente Topo” se perde em sua aposta na Antropologia

RODRIGO FONSECA
Apesar de trazer o selo de Sundance como um estandarte de qualidade, “El Agente Topo”, uma dramédia dirigida por Maite Alberdi, fechou mal a noite de quarta de San Sebastián, a frustrar expectativas de quem apostava na potência de encanto do cinema chileno. A ideia a princípio provocativa de ver uma mescla de humor e narrativa documental a partir de uma premissa de espionagem se perde por completo quando sua diretora pisa no freio da fábula e acelera no real. Os dez minutos iniciais são brilhantes: neles, um detetive caça um idoso esperto o suficiente para agir como espião em um asilo, acompanhando possíveis destratos aos internos. Ali, o riso nos consome ao passo que vemos a total inaptidão dos candidatos a 007 com o manuseio do celular. Mas, depois que o eleito, Sérgio, um senhor na casa dos 83 anos se instala na instituição, a estrutura de observação da diretora tropeça no enfado. O cuidado da realizadora na busca por tipos que traduzam os medos inerentes à velhice é de uma riqueza antropológica ímpar. Mas falta mais apuro na montagem para que o longa não se resuma ao tratado do IBGE que virou.

“Falling”, de Viggo Mortensen

San Sebastián termina neste sábado com a cerimônia de entrega de prêmios, cujo júri, este ano, é presidido pelo diretor italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”). Despontam como favoritos “Another Round”, de Thomas Vinterberg (da Dinamarca); “Supernova”, de Harry Macqueen (Reino Unido); e “Beginning”, da estreante diretora Dea Kulumbegashvili (da Geórgia). Nesta quinta, o evento dá um troféu honorário ao ator Viggo Mortensen, que estreia como diretor com “Falling”, sobre um homossexual às voltas com seu pai intolerante.

Para tal papel, o de um octogenário racista e homofóbico, Viggo escalou Lance Henriksen, o agente Frank Black da série “Millennium”, o mais famoso derivado de “Arquivo X”. Ele viveu o herói paranormal de 1996 a 1999, a partir de uma ideia do roteirista Chris Carter. Foi nessa mesma época que Viggo começou a trilhar a estrada do sucesso, tendo vivido Lúcifer no cult “Anjos Rebeldes” (1995) antes de brilhar na Terra-Média de J. R. R. Tolkien, sob a batuta de Peter Jackson. Ao receber a láurea Donostia, o astro vai estar revisitando toda essa trajetória, marcada por três indicações ao Oscar: por “Senhores do Crime” (2007), “Capitão Fantástico” (2016) e “Green Book – O Guia” (2018). Há quem diga que “Falling” pode valer mais uma indicação a ele, agora no posto de realizador.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: