Edward Hopper na ótica 3D de Wim Wenders

Edward Hopper na ótica 3D de Wim Wenders

Rodrigo Fonseca

27 de janeiro de 2020 | 08h26

Rodrigo Fonseca
Instigada pelo legado histórico de Edward Hopper (1882–1967) para a pintura, sobretudo em sua seleção (singular) de cores para representar o cotidiano, a Fondation Beyeler, na Suíça, faz uma imersão cinematográfica na obra do artista plástico, em uma exposição inaugurada no domingo, com uma ajudinha de Wim Wenders. Longe do circuito exibidor desde 2018, quando lançou (via Cannes) o documentário “Papa Francisco: Um homem de palavra”, o diretor de “Paris, Texas” (1984) preparou para o museu suíço, que se debruça sobre o pintor americano até 17 de maio uma instalação em 3D chamada “Two or three things I know about Edward Hopper”. É um estudo audiovisual sobre o universo representado por EH e sobre como sua forma de colorir o real influenciou outras artes, sobretudo o cinema. “O impacto dele sobre nossa forma de olhar o mundo é imensa”, diz o cineasta no texto que circunda sua videoinstalação. Ele afirma que Hopper serviu como inspiração para cults como “O amigo americano” (1977) e “O fim da violência” (1997). E teve uma importância essencial ao trabalho de WW como fotógrafo, recentemente registrado em livro derivado de uma expo realizada pelo realizador no Film Archiv Austria, centrada em suas andanças pelo mundo, entre 1960 e 80. Os EUA são o foco central dessas fotos.
“Usar polaroides foi uma aposta estética que fiz em uma linguagem muito parecida com o cinema, pois há um efeito químico cromático, naquele PB dos instantâneos, que me remete ao realismo que a arte moderna tentou captar”, escreve Wenders em texto exposto na instituição vienense que assumiu como imagem síntese da retrospectiva a foto “Kids in Butte, Montana 1978”, parte de uma viagem do cineasta aos EUA. “Hopper ajudou a fundar a imagem que fazemos da América”.

À época, seu nome já gozava de prestígio internacional graças ao sucesso de “No decurso do tempo” (premiado pela crítica, em Cannes, em 1976) e “Alice nas cidades” (1974), cujos bastidores, com a atriz Yella Rottländer, aparece em várias fotos no livro organizado pelo Film Archiv Austria. Nessa mesma jornada por terras americanas, Wenders – às voltas hoje com o projeto “Miso soup”, longa de terror sobre um psicopata ocidental em passeio pelo Japão – clicou a panorâmica “Mailboxes, Montana 1977”, uma de suas fotografias mais badaladas. São caixas de correio na imensidão do nada. “Ali vem o interesse dele, com tons de existencialismo, por paisagens vazias”, destaca um texto da exposição austríaca, feita em 2019 sob a curadoria de Anna Duque y González, com o apoio de Donata Wenders, mulher do diretor, que tem filmes em exibição na cinemateca austríaca.

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