‘Eduardo e Mônica’ ganha o mundo

‘Eduardo e Mônica’ ganha o mundo

Rodrigo Fonseca

11 de março de 2020 | 15h43

Certos abraços duram para sempre, como o de Eduardo e Mônica: dia 11 de junho nos cinemas

Rodrigo Fonseca
Atual inimigo das mostras mundiais de narrativas audiovisuais (e não só delas), o Coronavírus não foi capaz de inflamar as amígdalas de uma das maratonas cinéfilas de maior peso hoje nos EUA, o Festival Internacional de Miami, e tampouco de deixar de cama a love story que traduz o cancioneiro de Renato Russo em forma de filme, de suspiros e xêros no pescoço: “Eduardo e Mônica”. Prevista para estrear no Brasil em 11 de junho, tornando-se um programa mais do que oportuno para o Dia dos Namorados, a mistura romântica entre um moleque de 16 anos – fã de jogo de botão e novela – e uma universitária na raia dos 20 anos – com tinta no cabelo e Manuel Bandeira nas ideias – arranca suspiros do evento cinematográfico da Flórida, que segue até o dia 15. Eduardo é Gabriel Leone; Mônica é Alice Braga. No comando das carrapetas está o diretor René Sampaio, cria do Distrito Federal, e Bianca de Felippes (de sucessos como “Carlota Joaquina”) assina a produção. Palpitações, planos descabelados, promessas de “pra sempre” e beijos que paralisam o balanço das horas integram o cardápio do longa-metragem, exibido no fim de semana nos Estados Unidos, confirmando a infalível vocação para desbravar fronteiras do trinômio Renê + Bianca + Russo. A produtora e o cineasta adaptaram o bardo da Legião Urbana em 2013, com “Faroeste Caboclo”, sucesso de bilheteria (cerca de 1,5 milhão de ingressos ) que bateu no peito do TIFF – Toronto Film Festival, no Canadá, amaciando miocárdios com a saga de João de Santo Cristo. Agora foi a fez de Miami, cuja corrida por longas estrangeiros chegou à 37ª edição no auge do prestígio. O festival de lá se impõe hoje como uma vitrine de invenção, reunindo tramas do mundo todo – algumas inéditas, outras que alcançaram prestígio nos maiores festivais da Europa. É um evento essencial para quebrar o bloqueio das plateias americanas às legendas – pleito feito pelo aclamado diretor sul-coreano Bong Joon-ho ao ganhar o Globo de Ouro, por “Parasita” – e a manifestações cultuais distantes dos padrões anglo-saxônicos.
“Nosso interesse em apresentar ‘Eduardo e Mônica’ num festival internacional é abrir o mercado para um filme com tema universal, apesar de partir de uma música muito conhecida no Brasil, onde Legião Urbana é uma marca muito forte. Falar de amor não tem fronteira e, cada vez menos, temos filmes românticos sendo produzidos”, explica Bianca de Felippes, que, nos palcos, produziu o espetáculo “Renato Russo – O Musical”, com Bruce Gomlevsky. “Tivemos nossa primeira sessão lotada e a procura foi tão grande que o festival abriu uma sessão extra. Isso já é um bom indicativo que o filme atrai interesse. O público que não era exclusivamente brasileiro recebeu o filme calorosamente e se emocionou muito com essa história de amor criada pelo nosso gênio imortal, Renato Russo”.
No filme, Gabriel Leone (um dos jovens atores mais elogiados da TV neste momento, vide seu desempenho na superssérie “Como nascem os fortes”) constrói Eduardo valorizando a inquietude de um rapaz criado pelo avô (Otávio Augusto) numa vila militar. Já Mônica (Alice, em estado de graça em cena) é um signo de transgressão potencial. O papel foi confiado à atriz Alice Braga, estrela de brilho internacional, respeitada lá fora desde que encantou Cannes com sua atuação em “Cidade Baixa” (2005). A dupla fundiu seus talentos em sets montados em Brasília, ao longo do mês de julho de 2018, com uma rebarba no Rio, em agosto daquele ano.
“A canção do Renato fala de aceitação, da superação das diferenças, da possibilidade de olhar o outro sem barreiras. Amar é saber respeitar o outro”, definiu Alice ao P de Pop, durante as filmagens, que contaram com como diretor de fotografia Gustavo Hadba, hoje em fase de apogeu em seu domínio da luz.

Há uma linha narrativa de reflexão sobre amadurecimento no roteiro de “Eduardo e Mônica”, que combina os talentos de Matheus Souza, Claudia Souto, Jessica Candal e Michele Frantz em seus créditos. “Renato Russo sempre foi um artista que simbolizava a resistência: era sensível, político e muito sincero nos seus posicionamentos. Acho que esse continua sendo um grande momento pra repercutir a obra dele. O Brasil é ainda o ‘que país é esse?’ e, ao mesmo tempo, tem espaço pra uma história de amor de como a de Eduardo e Mônica”, diz René Sampaio. “Falar sobre o amor também é uma atitude política. A saída para o momento que estamos passando é dialogar sinceramente com quem pensa diferente, longe dos radicalismos. Nosso filme é uma delicada história de amor sobre o casal mais famoso da música brasileira e que fala, entre outras coisas, sobre como é possível amar e respeitar quem pensa muito diferente de você. Acredito que o filme vai emocionar jovens de todas as idades com essa história que é aguardada por tantas gerações”.

Filme de René Sampaio arrebatou público e crítica no Festival de Miami, que termina no dia 15

Dick Tracy da crítica musical brasileira, Tárik de Souza identifica um tônus de cinema no RPG amoroso descrito na letra de “Eduardo e Mônica”, imortalizada nos acordes da Legião Urbana, numa faixa do disco “Dois”, de 1986. “Poeta de estirpe, Renato Russo também era vocacionado cineasta”, explica Tárik. “’Eduardo e Monica’ é um curta ‘tout court’. Ele ampliou a percepção da extensão de sua capacidade lírica. Se o BRock brasiliense era filho do punk inglês, também podia trocar figurinhas imagéticas com a Nouvelle Vague, o Cinema Novo e o udigrudi”.
Para a concepção da cenografia, o diretor de arte Tiago Marques respeitou o realismo, mas trafegou (entre suas inspirações) nas franjas de dois diretores franceses: Michel Gondry, de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), e Jean-Pierre Jeunet, de “O fabuloso destino de Amélie Poulain” (2001). “Estar no festival internacional de Miami foi uma enorme emoção”, disse René. “Nós apresentamos o filme pela primeira vez para o público e tivemos uma calorosa recepção. A sessão estava esgotada uma semana antes do filme estrear. Mas, pra além disso, apresentar para uma plateia que não sabe nada da música e que se conectou e se emocionou profundamente com o filme, trouxe pra gente a certeza de que a mensagem e a narrativa são universais. Parece que não há como não se apaixonar pelo Eduardo e pela Mônica. São sentimentos e questões muito preciosas para todos nós que vibram na tela com as duas personagens. Foi uma grande sessão e uma ótima recepção”.

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