‘Edna’ leva Eryk Rocha de Telluride a Biarritz

‘Edna’ leva Eryk Rocha de Telluride a Biarritz

Rodrigo Fonseca

14 de setembro de 2021 | 06h45

Eryk Rocha colheu elogios em Telluride, no Colorado, nos EUA, com seu novo .doc

Rodrigo Fonseca
Confirmado como o único representante brasileiro da competição de longas documentais do 30º Festival de Biarritz, na França, agendado para começar no dia 27 de setembro, “Edna”, de Eryk Rocha, acaba de chegar dos EUA, onde comoveu plateias no Festival de Telluride, no Colorado. A comoção vem de sua investigação quase existencial sobre cicatrizes históricas do Brasil. Exibido por aqui online, em abril, no É Tudo Verdade, o novo documentário do diretor de “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016) estreou mundialmente há cerca de quatro meses, no festival Visions du Réel Film Festival, na Suíça. Na narrativa poética de Eryk, potencializada pela montagem de Renato Valone, Edna Rodrigues de Souza nos conta sua vida e nos convida a conhecer as raias da rodovia Transbrasliana. É um passeio geopolítico por um espaço – o externo, de estrada e de uma casa onde muito se escreve; e o interno, da memória – cartografado pelo lirismo, apoiado numa estonteante fotografia em P&B (de Jorge Chechile e de Eryk) e embalado em uma canção de Paulo Sérgio (“Máquinas Humanas”). Real e imaginário se amalgamam entre guerrilhas, desaparecimentos e desmatamentos, com foco no diário de uma mulher assolada por recordações regadas a sangue, algumas ligadas à Guerrilha do Araguaya.

Laureado com uma menção honrosa no Pesaro Film Festival, na Itália, “Edna” esteve em La Semana del Documental – Doc Montevideo, no Uruguai, e passeou por outras três vitrines audiovisuais brasileiras: a 10ª Mostra Ecofalante, onde recebeu uma menção honrosa do júri; no Festival Goiamum Audiovisual; e no Festival Cine Sul da Cinemateca do MAM-RJ. Esta semana, o longa passa pelo DMZ International Documentary Film Festival of South Korea (9-16 setembro) e pelo FICVIÑA- Festival Internacional de Cine de Viña del Mar, no Chile (6 -15 de setembro). Além de Biarritz, o filme de Eryk vai circular pelo FICG Festival Internacional de Cine en Guadalajara in México (1-9 outubro). Em 2022, o cineasta vai comemorar os 20 anos de seu primeiro longa, “Rocha que voa” (2002), no qual revê a jornada cubana de seu pai, Glauber Rocha (1939-1981). No papo a seguir, ele faz reflexões políticas e estéticas sobre arte, memória e Cinemateca Brasileira.

Depois de muitos protagonistas masculinos, de Glauber a Jards Macalé, além do taxista de “Breve Miragem de Sol”, você volta às telas com uma narrativa guiada por uma mulher, ressaltando a força feminina. O que Edna te mostrou sobre a potência das mulheres?
Eryk Rocha:
Foi outra mulher incrível, a atriz e diretora Gabriela Carneiro da Cunha, quem me apresentou Edna. Foi ela que plantou a semente inaugural desse projeto, além de ter participado como roteirista, pesquisadora e assistente de direção do filme. E Gabriela ajudou também nessa aproximação minha com Edna. Eu fui criado por uma mulher, com duas irmãs. Então, a energia feminina sempre fez parte de minha vida. Creio que o feminino é uma força cósmica. Tem muito a ver com sensibilidade, com novas formas de sentir o mundo. E isso para mim é o cinema: como traduzir formas de perceber e sentir o mundo? Digo isso na perspectiva bruta da linguagem, imagem, som, ritmo, corpo, luz… Como abrir os sentidos para o mundo? Lembro quando Edna nos mostrou alguns dos seus cadernos intitulados “Histórias de minha vida”, com seus escritos. Quase sussurrando, ela disse: “Os cadernos são minha forma de desabafar”. Então, creio que o feminino é um rio ingovernável, um oceano… Tem a ver com fluxo, com o indizível, com um saber que transborda intuição…Edna nos traz a singularidade de sua história e, ao mesmo tempo, ela é um “eu coletivo”, uma multidão de mulheres. Edna liga vários tempos e gerações de mulheres brasileiras e latino-americanas. Ela é um fio da História e da luta. Por isso, em sua poesia, coexistem o passado, o presente e o futuro.

Como têm sido as reações estrangeiras a “Edna” e como você vê essa passagem por Telluride na sua jornada de internacionalização do seu cinema?
Eryk Rocha:
Há quatro meses, desde a estreia mundial do filme, no Visons du Réel, na Suíça, e da estreia brasileira, no É Tudo Verdade, felizmente, “Edna” está voando pelo mundo, e recebendo retornos muito bonitos. O filme já foi exibido no Brasil, Suíça, Itália, Uruguai, Estados Unidos, Chile e Coréia do Sul. Muito em breve estará na França e México. E já estão confirmados vários outros países cujos festivais ainda não anunciaram. A estreia norte-americana, no Festival de Telluride, foi muito forte e emocionante. Tivemos três sessões com debates e sinto que o público ficou muito comovido com a história e com a vida de Edna. As pessoas também ficaram conectando Edna com o atual contexto político brasileiro. Uma coisa muito bacana foi que a revista do Festival de Telluride sugeriu que Edna escrevesse algo novo que não estivesse no filme. Ela gostou da ideia e escreveu um texto inédito, que foi traduzido para o Inglês, e publicado em página inteira, junto com outras matérias sobre grandes celebridades do cinema americano e mundial.

Qual é o sentido e qual é o lugar político da memória no seu cinema, num contexto histórico em que a Cinemateca Brasileira foi parcialmente destruída pelo fogo? O que a recordação carrega de mais político?
Eryk Rocha:
Em meu primeiro longa-metragem, “Rocha que voa”, de quase 20 anos atrás, essa questão da memória já se coloca presente de forma muito forte e central. Está ali essa memória cinematográfica e política de um continente em ebulição, que se entrelaça à memória afetiva do meu pai. É a memória dos que lutaram e abriram caminhos para o que somos. É o cinema como uma arte que projeta e materializa uma outra memória, uma memória que resiste à morte, que combate o efêmero. Uma memória ligada à História não oficial dos povos. Em “Rocha que voa”, incorporamos múltiplas películas do cinema latino-americano dos anos 60 e 70. Em “Cinema Novo”, 14 anos depois, esse processo radicalizou-se, pois o filme foi inteiramente construído com materiais de arquivo. Usamos em torno de 130 filmes diferentes, além de materiais caseiros e familiares. Essa multidão de fragmentos dá origem a um novo corpo, com novos sentidos. Então, em “Cinema Novo”, o nosso desejo era projetar a “memória como construção de futuro”. A nossa vontade era atualizar a potência dessa memória e trazê-la para o presente, para dar movimento ao movimento. Grande parte desses 130 filmes que compõem “Cinema Novo” estão resguardados no acervo da Cinemateca brasileira. Muitos deles são filmes seminais da nossa história. Passou-se mais de um mês desde o incêndio e tudo continua nas mesmas. A Cinemateca Brasileira não retomou seu funcionamento. E é urgente que a equipe técnica retome suas funções, sob condições básicas de trabalho e manutenção, pois, caso contrário, o risco de novos incêndios é iminente. Penso que essa “tragédia-crime” ocorrida na Cinemateca Brasileira não se trata de descaso, nem de desgoverno. Trata-se de um projeto político claro e direto, que não tem vergonha de existir. Temos um governo que atua como máquina de guerra, violenta, eficaz. Trata-se de um governo de destruição. Estamos submersos numa guerra cultural. No caso da Cinemateca Brasileira, essa destruição está ligada ao desmonte da Ancine e das políticas públicas do audiovisual. Está ligada à destruição da memória e da História “não oficial” que o cinema brasileiro construiu ao longo de mais de um século. Está ligada à interrupção na criação de imagens e sons, à interrupção de linguagens que sonham um outro país. O fogo que queimou e destruiu parte da Cinemateca Brasileira é a imagem-síntese de um país que queima. A memória não é algo do passado. A memória é a construção do futuro. Ela nos faz lembrar de onde viemos, quem somos e principalmente o que podemos ser como “povos brasileiros”.

Edna Rodrigues de Souza: uma força feminina

O que vem pela frente no teu trabalho? E para onde mais o EDNA vai?
Eryk Rocha:
Sigo acompanhando a trajetória do filme e sonhando, em breve, poder vê-lo junto com a própria Edna e nossa equipe numa sala de cinema. Também sonho tentar fazer uma publicação: um livro dos escritos da Edna. Em paralelo, estou mergulhado em uma nova aventura, em codireção com Gabriela Carneiro da Cunha: estamos realizando o filme “A Queda do Céu”, inspirado livremente no incrível livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Filmamos na Amazônia, com os Yanomami da comunidade do Watoriki, e, atualmente, estamos em fase inicial de montagem.

Além de Eryk, outras três expressões de brasilidade hão de brilhar em Biarritz. Nos curtas, o Brasil entra em campo com “Igual / Diferente / Ambas / Nenhuma”, de Fernanda Pessoa e Adriana Barbosa. Nas longas de ficção, foram selecionadas duas produções já exibidas no Festival de Roterdã, na Holanda: “Capitu e o Capítulo”, novo trabalho de uma lenda autoral chamada Julio Bressane, e “Madalena”, um estudo de Madiano Marcheti sobre a transfobia.

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