‘Edna’, a nova visão do real de Eryk Rocha

‘Edna’, a nova visão do real de Eryk Rocha

Rodrigo Fonseca

01 de abril de 2021 | 12h25

RODRIGO FONSECA
Cinco anos depois de conquistar a Palma da não ficção de Cannes (o troféu L’Oeil D’Or), com “Cinema Novo” (2016), Eryk Rocha vai representar o Brasil na Europa, mais uma vez, ao ser selecionado para o Visions Du Réel, em Nyon, na França, para exibir seu novo longa-metragem: “Edna”. O trailer dele já caiu na rede, aproveitando sua seleção para outra vitrine de peso: a competição oficial do É Tudo Verdade, que inaugura sua 26ª edição no dia 8. Seu foco é Edna Rodrigues de Souza. Vivendo à beira da rodovia Transbrasiliana, na Amazônia brasileira, Edna é testemunha de uma terra em ruínas construída sobre massacres. Criada apenas pela mãe, ela vivencia em seu corpo, e nos de seus descendentes, as marcas de uma guerra que, segundo ela, nunca acabou. Por meio de seus relatos e escritos, o longa constrói uma narrativa híbrida, que se move entre a realidade e o imaginário. Tudo é tecido a partir da memória de Edna e seu diário intitulado “História da Minha Vida”. Em suas páginas, ela narra uma vida açoitado por guerrilhas, por desaparecimentos e por desmatamentos, mas também a força das mulheres, dos rios e das matas que insistem em sobreviver. No Visions, a produção, fotografada pelo próprio Eryk e por Jorge Chechile, entrou na seção competitiva O argumento do longa é da atriz Gabriela Carneiro da Cunha, que assina o roteiro a seis mãos com o cineasta e com o montador Renato Valone. No reclame já divulgado do longa, toca Paulo Sérgio, com o hit “Máquinas Humanas”, que machuca corações e acaricia tímpanos.
Para além da estreia de “Edna”, a obra de Eryk está bombando em outras latitudes, em seu avanço pela streaminguesfera. Seu aclamado “Cinema Novo” vai ser lançado na Netflix em breve. Em cartaz no menu do Globoplay, seu recente “Breve Miragem de Sol” acaba de ser lançado na Amazon Prime da América Latina (exceto Brasil e Argentina), entrando ainda em países falantes de língua inglesa.

Lançado mundialmente no BFI – London Film Festival 2019, “Breve Miragem de Sol” é a mais aclamada incursão de Eryk pela ficção até agora. Nele, há uma angelical figura: Mateus. Com os dedos em riste, em sinal de “tudo joia” pra vida, esse anjo da guarda de 10 anos abençoa as avenidas de uma terra sem sol por onde um São Jorge, Paulo, um taxista no empobrecido Rio de Janeiro da década de 2010, ganha seu pão e desenha sua sina em forma de filme. No longa, o pequeno Mateus é filho e farol do protagonista, um chofer de praça vivido por Fabrício Boliveira nas raias da contenção, nas raias do mínimo, nas raias do insinuar em vez de afirmar… um Fabrício maduro, na marcha da delicadeza. Amor incondicional é o que guia a relação entre o chofer de praça e o menino, nesse drama urbano laureado com três troféus Redentor no Festival do Rio de 2019. Coube a ele as láureas de melhor montagem (pra Renato Valone), melhor fotografia (dada a Miguel Vassy) e melhor ator, para Boliveira. Na trama, o problema do personagem de Fabrício é que a fruição do amor irretrocedível da paternidade tem andado pela radial da metafísica. Os motivos: Mateus viajou para a casa dos avôs; sua mãe anda forçando Paulo a cumprir com sua parte na pensão de modo mais assíduo, para autorizar os encontros deles; e a vida, essa danada, anda no sinal vermelho pra quem vive em solo carioca.

Fabrício Boliveira saiu do Festival do Rio 2019 com o troféu Redentor por seu desempenho em “Breve Miragem de Sol”, hoje no Globoplay

Vassy, fiel fotógrafo de Eryk, desenha essa (nossa) geografia diluindo marcas regionais, dessaturando os excessos, pasteurizando pistas de Zona Norte e Sul, de modo a mostrar que a velha noção de Cidade Partida já não é tão demarcada quanto antes. Partidos estamos todos que aqui vivemos, sem saber que via nos leva à mais violenta das armadilhas: a segregação social. É um caminho bem parecido com o tomado por Eryk em “Campo de Jogo” (2014), com seus olhos voltados para futebol de bairros. Porém, esse caminho aqui é pavimentado de elegância, ao analisar como a geopolítica brasileira hoje planificou suas capitanias hereditárias para a microfísica do Poder. Até num táxi, passageiro se acha donatário do Rei… senhor do seu banco, de toda a viatura, do motorista que o guia. É o que demonstra o grupinho que faz sinal para o táxi de Paulo sem saber se vai para o “Baixo Botafogo” ou para o Jóquei. O abuso rege a forma com que eles se expressam… sempre senhoriais. Mas com Paulo não é assim: seu lado Ogum enfrenta o dragão de uma maldade que extrapola a mais-valia marxista, a maldade do abuso. A cruzada de Paulo é um estudo da vida da noite num RJ pré “uberização”.

Acerca do É Tudo Verdade, se liga aí: a abertura do evento pilotado pelo crítico Amir Labaki vai ser feita pela animação: “Fuga” (“Flee”), da Dinamarca. A maior maratona documental das Américas vai apresentar uma seção chamada Caetano.Doc com longas que exploram o som e a fúria do cantor e compositor. Haverá ainda uma retrospectiva da obra documental de Ruy Guerra, que completa 90 anos em agosto, exibindo cults como “Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização” (1984) e “Mueda: Memória e Massacre” (1979/80).

p.s.: De 13 a 27 de abril, Maria Clara Mattos, uma das grifes autorais por trás do sucesso do Globoplay “Filhas de Eva”, vai ministrar o curso “Como Escrever Roteiro De Série – Da Ideia ao Papel”, online, na Sede das Cias. Transbordando bom humor e inteligência em sua escrita, Maria Clara trabalhou ainda em séries como “Tapas e Beijos” e “As Canalhas”. Suas aulas têm o clima descontraído de seu processo criativo nas Writers Rooms da TV brasileira. Inscrições podem ser feitas pelo email cursossededascias@gmail.com ou pelo fone (21)98197-7637.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.