‘Edifício Gagarine’, endereço de excelência

‘Edifício Gagarine’, endereço de excelência

Rodrigo Fonseca

07 de setembro de 2021 | 14h46

Youri (Alseni Bathily) corre para proteger seu conjunto habitacional no filme de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh

Rodrigo Fonseca
Enfim entrou em circuito no Brasil um dos achados do último Festival Varilux: “Gagarine”. Foi um dos títulos selecionados por Cannes para a seleção de longas-metragens de 2020, que não se realizou por culpa da pandemia. Seu protagonista é xará (na sonoridade e na coragem) do cosmonauta russo Yuri Gagarin (1934-1968), famoso por ter sido o astronauta pioneiro na viagem ao espaço. Abalado pelas bombas hormonais da adolescência, Youri (Alseni Bathily) herda de seu ídolo um instinto de preservar a glória de seus conterrâneos na batalha do dia a dia contra o Capitalismo. Sua missão, no belo filme de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh, já em cartaz em telas brasileiras, é proteger seu complexo habitacional. Este, situado nos arredores de Paris, foi batizado em tributo ao viajante estelar da URSS como Gagarine, com a aprovação municipal do Partido Comunista Francês. O explorador do espaço teve a honra de o inaugurar em 1963. Seus blocos de apartamentos (370, divididos em 13 andares) foram desintegrados da paisagem da periferia e seus habitantes acabaram sendo realojados, mas as memórias persistiram no local até sua demolição. Mas Youri faz o que pode para impedir essa destruição.
“Cidades são centelhas de surpresa. Temos um espaço da cidade cheio de vida, mas temos um rapaz, no auge das potências da juventude que se isola em sua imaginação. Mas, nela, ele encontra uma forma de poder se expressar”, disse Fanny, por Zoom, ao P de Pop.
“Buscamos combinar fatoe e fábula no desafio de encontrar um equilíbrio entre o onírico e o real”, disse Jérémy, em dobradinha à resposta de sua colega de direção. “Nossa alternativa foi buscar uma engenharia de filmagem bem simples, que mantivesse a câmera sempre à altura do rosto de Alseni”.
Em 2015, a dupla abordou esse universo de um espaço público condenado em um curta-metragem homônimo. Agora, no longa, eles exploram mais a força das mulheres que habitam no mesmo conjunto de Youri, em especial a jovem Diana (Lyna Khoudri), que será crucial nos planos do protagonista. “Num espaço onde as fronteiras são as casas dos vizinhos, as mulheres vão ter um papel crucial de integração”, diz Fanny. “Elas são o motor afetivo da região”.

p.s.: Bancas, livrarias e gibiterias francesas andam repletas de “Rahan”, herói pré-histórico das HQs europeias, criado em 1969 por Roger Lecureux e André Chéret, que regressa às vendas em uma caprichada republicação de suas aventuras. O número 1 traz uma trama envolvendo ossos de um deus mamute.

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