Ecos de Philippe Garrel pela Berlinale

Ecos de Philippe Garrel pela Berlinale

Rodrigo Fonseca

14 de fevereiro de 2022 | 13h08

Já se fala em “La Lune Crevée”, o novo longa de Philippe Garrel, pelos papos de mercado dos coredores da Berlinale, que revela seus ganhadores nesta quarta

RODRIGO FONSECA
Em meio ao mar de elogios que banha a atuação de Noémie Merlant no drama “Um Año, Una Noche”, do espanhol Isaki Lacuesta, indicado ao Urso de Ouro, não restam mais dúvidas de que a seleção de produções (no caso, coprodução) francesas na competição da 72ª Berlinale foi “o” achado da curadoria de Carlo Chatrian, atraindo holofotes pra tudo o que a terra de Truffaut tem pra lançar nos próximos meses. Nesta segunda, espalhou-se pela capital alemã a notícia de que há um novo filme do veterano Philippe Garrel pronto pra sair do forno – o título é “La Lune Crevée” – e, ao que tudo indica, ele já está em negociação por cá, mas de olho em Cannes. Com isso, cresceu a procura pelo longa anterior de Garrel, “Lágrimas de Sal” (“Le Sel des Larmes”), que “nasceu” justamente no Festival de Berlim, em 2020. Essa iguaria francesa em preto & branco foi aclamada em telas germânicas. A morte recente de um de seus atores, André Wilms, despertou ainda mais o interesse pelo longa.
Aos 73 anos, o artesão autoral por trás de “Já Não Ouço a Guitarra” (1991) faz ali um elogio descabelado ao amor, incluído no Top Ten da revista “Cahiers du Cinéma”. Nas páginas da Bíblia cinéfila, editada em Paris, a crítica Charlotte Garson mimou o cineasta com quatro (de cinco) estrelas e elogios. Segundo ela, “tudo nos leva a crer que, desde que Garrel se engajou na economia de elementos narrativos, fazendo dela um método (poucos personagens, filmagens breves para filmes de curta duração), ele consegue ir diretamente ao essencial – e, portanto, intemporal – daquilo conecta intimamente pessoas que amam”. Garrel é pra rasgar corações. Sempre.
Com cerca de cem minutos, esplendidamente fotografados por Renato Berta, “Lágrimas de Sal” fala de um estudante francês, Luc (Logann Antuofermo), siderado por seu velho pai (André Wilms), que se apaixona por uma jovem de origem africana, Djemila (Oulaya Amamra) em meio a uma mudança de cidade. Ele se muda para tocar seus estudos. Mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar. Atento à convalescia dos afetos, o cineasta responsável por “A cicatriz interior” (1972) e “A fronteira da alvorada” (indicado à Palma de Ouro de Cannes, em 2008) também arrebatou o time de críticos do “Le Monde”, com o quiprocó emotivo de Luc e Djemila. Nas páginas do tradicional jornal europeu, Mathieu Macheret lacrou: “Garrel não tem igual quando se trata de filmar a ascensão dos sentimentos, seus arroubos trêmulos e suas descidas sombrias”.

“Lágrima de Sal” concorreu em solo alemão em 2020

Pela lógica de André Gide (1869-1951), autor fetiche de Garrel, segundo quem “as coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão”, o sentimento expresso no filme “Le Sel des Larmes” é a sede de amar. Na trama, o que leva a jovem Djemila a um estágio letal de exasperação, é o desatino amoroso. São gradações diferentes do porvir, da barriga que esfria, da mão que sua: ou seja, os sintomas do objeto pontiagudo chamado querer. Há muitos gestos desnecessários em sua relação com Luc. Mas o último verbete que se pode usar para falar do contagioso novo longa-metragem de Philippe Garrel é “desnecessário”, pois há medida para tudo neste longa.
Na sequência mais cálida desse poema sobre inconstâncias, a personagem vivida com retidão por Oulaya vai a um bar, num momento de apuro na espera por quem está longe. Vai pedir um cigarro a um velho atendente, para aliviar a ausência física de Luc, aspirante a carpinteiro encarnado por Antuofermo com fúria. O ancião olha a moça nervosa e anula os dengos, dizendo: “Conheci mulheres que enlouqueceram esperando”. O alerta é indigesto e sem tato, mas traduz algo da ordem do cuidado, do carinho, do zelo que as figuras grisalhas do filme demonstram.

O suíço “A Piece of Sky” (“Drii Winter”) é um dos favoritos ao Urso de Ouro deste ano

Acerca da competição oficial de longas na corrida pelo Urso de Ouro de 2022, três longas têm um certo favoritismo: 1) O suíço “A Piece of Sky”, de Michael Koch, sobre um casal dos Alpes, ela, carteira; ele, fazendeiro, que luta contra uma doença em família; 2) O francês “Avec Amour et Acharnement”, de Claire Denis, no qual uma radialista interpretada por Juliette Binoche é estremecida pelo regresso de um antigo amor; 3) O americano “Call Jane”, de Phyllis Nagy, no qual um grupo de mulheres, nos EUA dos anos 1960 – entre elas uma ativista vivida por uma inspiradíssima Sigourney Weaver -, cria uma rede de apoio a gestantes que precisam de um aborto. Aposta-se em troféus para Noémie Merlant (Em “Um Año, Una Noche”), ela é a sobrevivente de um atentado terrorista em Paris e para a direção de Mikhaël Hers em “Les Passagers De La Nuit”.

“Rewind & Play”

Nas seções paralelas, a Berlinale se delicia com “Rewind & Play”, de Alain Gomis. Nele, o realizador franco-senegalês laureado na Berlinale de 2017 com “Félicité” retorna ao evento com uma recriação de uma entrevista dada à TV francesa, em 1969, pelo jazzista Thelonious Monk (1917-1982), dessacralizando uma conversa seminal pra história da música.
Vamos conhecer os ganhadores nesta quarta, às 19h, do horário alemão (15h aqui).

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