Ecos de Bellocchio no Lido

Ecos de Bellocchio no Lido

Rodrigo Fonseca

30 de agosto de 2019 | 03h29

Rodrigo Fonseca
Nada bateu tão forte no peito de Veneza, nos dois primeiros dias do festival local, quanto o devastador “História de um casamento” (“Marriage Story”), de Noah Bamumbach, com o agravante de que a Itália, a dona da festa, ainda não mandou nada de impressionante para o Lido. Os italianos estão melhor representados, no imaginário cinéfilo das gôndolas, por um longa-metragem que foi sensação em Cannes, “O traidor”, do artesão Marco Bellocchio. Seu lançamento em DVD e Blu-Ray hoje ocupa, com destaque, as páginas das revistas locais. É uma das produções mais badaladas do ano em terras europeias, e carrega o DNA brasileiro dos irmão Gullane. Na Croisette, ele foi recebido com ardor. Um ardor que Veneza espera sentir com os longas dos outros diretores de sua pátria, escalados para concorrer, e de Paolo Sorrentino, que traz aqui, para uma projeção hors-concours, episódios inéditos de sua série HBO “The New Pope”, com Jude Law e John Malkovich.

Mas de Bellocchio a Itália tem orgulho total.
Mais próximo dos thrillers políticos de Costa-Gavras (como “Z”) que do tom épico de tintas românticas dos gângsteres de “O poderoso chefão” (1972) e que da criminalidade ordinária de “Os bons companheiros” (1990), o eletrizante “O traidor” (“Il traditore”) fez o 72º Festival de Cannes repensar suas certezas sobre a Itália, sobre o Brasil da ditadura militar e sobre os clássicos de máfia das telas. E com suas transgressões para fatos históricos antes encarados como certezas inquestionáveis e para clichês celebrizados por Hollywood, o novo longa-metragem do realizador de “Vincere” (2009) colecionou fãs. Tanto que a procura por seu DVD é alta, para estes tempos em que essa mídia digital parece obsoleta. Produzido pelos irmãos Fabiano e Caio Gullane, rodado parcialmente no Rio de Janeiro e estrelado por talentos brasileiros como Luciano Quirino, Jonas Bloch e uma Maria Fernanda Cândida em estado de graça, o filme revive os dias em que o mafioso Tommaso Buscetta (1928-2000) fez o Brasil de lar, no abraço sempre caloroso de sua mulher, a carioca Maria Cristina de Almeida Guimarães. Ela é vivida por Maria Fernanda. Tommaso foi confiado ao romano Pierfrancesco Favino (visto em “Guerra Mundial Z” e “Anjos e demônios”). Depois de elogios em revistas como “Screen Daily” e “Variety”, o prestígio de Bellocchio cresceu. A saga de Buscetta foi o segundo concorrente cannoise de 2019 com sangue verde e amarelo nas veias, exibido na Franca nove dias depois da consagração da joia pernambucana “Bacurau”, hoje em cartaz.
“Heroísmo é uma palavra que eu atribuo a santos: estes se sacrifício pelo Bem, Buscetta, não, pois seu maior objetivo era salvar a própria pele e gozar dos prazeres do dinheiro que ganhou no crime”, disse Bellocchio ao Estado em Cannes, numa entrevista em que não escondia a fadiga. “Já não sou mais garoto, viajei ontem e temos uma maratona hoje. Este é um filme sobre a dimensão trágica de um homem que usou a palavra para desafiar um império, a Cosa Nostra, em nome não apenas da própria salvação e de sua família, mas da decepção com o rompimento de pactos históricos de respeito da máfia a valores morais”.


Na resenha da “Variety” sobre “O traidor”, Jay Weissberg ressalta a fotografia de Vladan Radovich para ampliar a beleza de paisagens cariocas como as areias de Grumari e para aumentar a voltagem das cenas de ação. Uma explosão de um carro, filmada sob a ótica do motorista, é um dos planos mais debatidos de todo o festival. O clima de tensão se estende ainda para as cenas da vida a dois de Buscetta e Cristina, pelas inesperadas intervenções da polícia e adversários de submundo na rotina deles.

“Há uma dimensão de lealdade amorosa muito forte dessa história entre Cristina e Tommaso que a fez desafiar a família, a sociedade e tudo o mais em nome do afeto. Às vezes, neste filme, eu me pergunto se a Maria Cristina reavalia as escolhas que tomou em nome desse amor”, disse Maria Fernanda Cândido ao Estadão nas filmagens do longa, no Rio.

Em maio, ela subiu as escadas do Palais de Cannes vestida com um look Christian Dior que mobilizou as revistas de moda. “É impressionante o quanto o Bellocchio é aberto ao instante da criação, com uma disposição generosa de ouvir a gente, de absorver nossas ideias. Eu estou vivendo uma mulher culta, de uma família influente no Rio de Janeiro dos anos 1980, que teve a coragem de desafiar as convenções da alta sociedade carioca para ficar do lado do homem que amava, um homem envolvido com o crime”.

Uma das cenas mais tensas de “O traidor” traz Cristina pendurada em um helicóptero, sendo ameaçada pela polícia para que Buscetta confesse seus crimes. Parceiro da atriz, Pierfrancesco rasgou-se em elogios à sua coragem: “Ela é de uma generosidade sem tamanho. Você vê na sua frente aquela mulher, dona de uma das belezas mais estonteantes do cinema, e se encanta com a disposição dela para se doar para o filme e para nós, em trocas constantes no set”.

Um dos pilares do cinema moderno na Itália, na geração que herdou as inquietações sociais do neorrealismo, Bellocchio foi aclamado pela crítica mundial já em sua estreia em longas, em 1965, com “De punhos cerrados” (1965). Mas nunca ganhou, em Cannes, uma láurea à altura de seu prestígio autoral, festejado por aqui em 2016, quando seu “Belos sonhos” inaugurou a Quinzena dos Realizadores. “Eu não sido discursos lógicos da política ao falar de Buscetta pois me interessava mais o senso de espetáculo teatral, digno de Pirandello, dos julgamentos pelos quais ele passou. Era um circo em que a insuficiência de provas mudava os rumos do picadeiro de advogados e juízes”, explicou o cineasta, que, nos sets brasileiros, contou com a consultoria do diretor André Ristum (realizador de “A voz do silêncio” que, na juventude, começou sua carreira na Itália, como assistente de Bertolucci), para evitar erros de caracterização. “Tive que condensar pedaços da história de Buscetta no Brasil com liberdades e licenças poéticas que o cinema nos oferece. Esta produção custou € 9 milhões, o que só foi possível com o apoio dos parceiros brasileiros, alemães e franceses”.

Escondido no Rio dos anos 1980, sob outra identidade, para evitar um derramamento de sangue já que custara a vida de seus filhos, Buscetta foi preso lá, na cidade que adotou como lar, acusado de tráfico internacional de drogas e extraditado. Conseguiu fugir da cadeia e retornou ao Brasil, de onde foi expulso pela segunda vez em 1983. Foi então que fez o acordo para delatar centenas de criminosos e expor as conexões da Cosa Nostra com a política italiana. “A traição de Buscetta, ao delatar a Cosa Nostra à Justiça da Itália, é carregada de ambiguidade. Ele não trai por uma conveniência. Ele trai porque, antes dele, com a entrada do tráfico de drogas nas atividades da máfia e uma guerra de sangue, alguém desrespeitou aquilo que antes era sagrado para eles. E o sagrado é, justamente, a palavra. A palavra da honra”, diz Bellocchio, “Sempre quis que ‘O traidor’ fosse um filme sobre escolhas. Este título pode parecer óbvio para alguns, mas ele sintetiza, de modo objetivo, algo que, na trama, assombra os pesadelos de Buscetta : decepcionar seu passado”.

Veneza caiu no debate sobre sexismo com uma produção da Arábia Saudita, de tons irônicos: “The perfect candidate”, da diretora Haifaa Al-Mansour. No páreo pelo Leão também, esta crítica ao machismo narra o périplo de uma jovem médica para ser eleita a um cargo administrativo público em seu país, pautado pela intolerância.
Veneza chega ao fim do no dia 7 de setembro, com a entrega de prêmios e a exibição fora de concurso do drama anglo-italiano “The Burnt Orange Heresy”, de Giuseppe Capotndi, com o rolling stone Mick Jagger no elenco.

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