Ecos da DreamWorks

Ecos da DreamWorks

Rodrigo Fonseca

13 de maio de 2020 | 18h34

RODRIGO FONSECA
Apesar da dança das cadeiras provocadas pelo coronavírus na trajetória dos grandes lançamentos em live action do cinemão, a DreamWorks soube agendar um cronograma de peso para suas animações para os próximos meses escalando “Os Croods 2” para dezembro e “O Poderoso Chefinha” para março de 2021, de modo a renovar seus laços com as plateias juvenis. De todos é possível esperar, desde já, um trabalho de versão brasileira dos mais requintados, como já marca da casa por trás de “Shrek” e de “Madagascar”. Toda a depuração vocal do estúdio que Steven Spielberg fundou no fim dos anos 1990, com “O Pacificador”, foi festejada há um ano, via CCBB, na mostra “Fabrica de Sonhos – Mostra de Animação”.

Em meio às espiadinhas e aos paredões do “Big Brother Brasil”, Pedro Bial, quando comandava o reality mais popular da TV nacional, descolou um tempinho para ser coadjuvante em “Sherk 2” (2004) – filme que modificou a história da animação ao concorrer à Palma de Ouro – na pele cheia de caroços da Irmã Feia. Era dele a voz da carrancuda personagem. Era uma sacada para dar algo de familiar à imersão sensorial naquela produção que já tinha como chamariz o gogó de Bussunda na versão dos gritos e arrotos do ogro Sherk. Estávamos no início dos anos 2000 e a dublagem brasileira começava a apostar na ideia de ter famosos à frente de figuras animadas a fim de oferecer algum agrado aos pais. Na prática, era um decalque de uma sacada comercial de Hollywood: em “Pocahontas” (1995), Mel Gibson foi chamado para dublar o mocinho. E, no mesmo ano, “Toy Story” colocou Tom Hanks e Tim Allen como Woody e Lightyear. Que mal haveria em fazer o mesmo aqui? Coube à Dreamworks responder. Afinal, em seus primeiros passos, “FormiguinhaZ” botou Woody Allen, Sharon Stone, Gene Hackman e Stallone num jardim. Quando “Shrek” surgiu, em 2001, nada mais justo do que usá-lo como instância para experimentação. E deu certo.

Em 2003, “Simbad – A Lenda dos Sete Mares” levou dois astros de novela das 20h para os estúdios Doublesound: Giovanna Antonelli e Thiago Lacerda. Ela dublou Catherine Zeta-Jones e ele, Brad Pitt. O filme não colou, mas a dublagem foi bem aceita. No ano seguinte, o êxito de “Shrek 2” estetizaria essa sacada de trazer queridinhos do povão para a seara animada.

Bial alcançou espaço nos jornais com sua pequena participação ao lado de Shrek, que botou os olhos da mídia vidrados numa arte que é alvo de desdém e preconceito. Desde o fim dos anos 1930, o Brasil passou a investir na “artécnica” de “dobrar” vozes e tornou-se, graças ao time de radioatores da Rádio Nacional, uma referência global de excelência no meio. Houve um momento em que grandes cineastas, como Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), dirigiram dublagens, caso de “O iluminado” (1980). Mas foi a partir de 2007 que a dublagem ganhou os cinemas nacionais de uma forma como nunca havia se experimentado antes. Naquele ano, grandes canais a cabo, com a Fox, instituíram a opção de se conferir toda a sua programação com vozes locais. Deu-se o mesmo nas salas de exibição; naquele ano, todos os blockbusters lançados no país tinham de 60% a 70% de suas cópias dubladas. E a resposta popular a essa oferta foi a melhor possível, e não por problemas de educação (analfabetismo) como se diz por aí, mas pelo fato de o nosso povo ter sido alfabetizado, em vias audiovisuais, por uma esquadra de vozes memoráveis em estúdios como a Herbert Richers, a BKS, a Telecine, a Gota Mágica e a VTI.

Ainda em 2004, Paulo Vilhena, então um galã em ascensão na TV, foi substituir a voz de Will Smith em “O Espanta Tubarões”. Teve gigantes da dublagem como Mabel César e Hélio Ribeiro ao seu lado. Todos ganharam com a visibilidade de ter uma estrela no set: os holofotes para um global deixam de saldo mais atenção e respeito para atores que fizeram história só com a voz. Não se esqueça de que, nos EUA, as vozes são gravadas antes do desenho sair do papel, o que imprime a personalidade dos atores aos personagens que eles dublam. Will deu um jeito malandro a Oscar. Vilhena, ao dublá-lo, precisa decalcar, com autoralidade, esse ar de malandro.

Aproveitando esse passado de glória, a Dreamworks fez com que o público e os críticos se vissem diante de Bial e de Bussunda, mas também diante de gênios da voz como Fernanda Crispim (Fiona), Alexandre Miranda (o Gato de Botas) e Mario Jorge, o Burro Falante, que é o nosso mais popular dínamo das bancadas de dublagem. Dali pra diante, o estúdio fez uma aposta contínua de famosos das telas e da canção em suas produções. A entrada de Lúcio Mauro Filho no lugar de Jack Black, em “Kung Fu Panda” (2008), foi a aposta de maior êxito, em parte pelo fato de o filme ter tido sessão de gala, hors-concours, no Festival de Cannes daquele ano, com Angelina Jolie e Dustin Hoffman promovendo a dublagem. Na Croisette, Black elogiou Lucio e deu várias dicas a ele, que foram determinantes para a evolução do personagem. Po cresceu com Lucio. Lucio cresceu com Po. Sua voz ficou imortalizada nos tímpanos de muitas gerações. O mesmo pode se dizer de “Megamente”: Thiago Lacerda fez de Metro Man um herói melhor e galvanizou o carisma de Claudio Galvan como vilã, dublando Will Ferrell. E como se esquecer do desempenho de Heloisa Perissé como a hipopótamo Glória de “Madagascar”? A atriz emprestou elementos de besteirol a uma trama que celebrava a diversidade em múltiplas latitudes. Já em “Como treinar o seu dragão 2”, Rodrigo Lombadi foi trazer uma potência trágica agregada à sua fama de ator de amplo ferramental dramático.

Talvez o caso mais bonito de adequação de uma persona estrelar a uma animação da grife Dreamworks seja Marcos Frota, trapezista e astro circense, à foca Stefano, que Martin Short dublou lá fora. Ao emprestar a sua voz ao doído personagem, Frota, ator de potência cômica imensurável, deu um quê felliniano a um coadjuvante que vê no circo o microcosmos da resistência, a instância do sorriso perdido. Seu desempenho no lembra o quão certa a Dreamworks estava quando resolveu chamar Bial, lá atrás… quando resolveu apostar no produto brasileiro.

p.s.: Esta noite, na grade do “Cinema Especial” da Globo, rola “Dupla Explosiva” (“The Hitman’s Bodyguard”, 2017), às 22h30, comprovando a química pura e aplicada que existe na covalência atômica entre Samuel L. Jackson e Ryan Reynolds. A direção é de Patrick Hughes. Sua bilheteria foi de US$ 180 milhões, o que já garantiu ao filme um projeto de continuação, com Morgan Freeman e Richard E. Grant, prevista para 2021. No original, que passa nesta quarta na TV aberta, a trama é a seguinte: O mais eficiente guarda-costas do mundo (Reynolds) possui um novo cliente: um assassino de aluguel (Jackson), que precisa testemunhar na Corte Internacional de Justiça. Gary Oldman é um dos destaques do elenco.

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