Eastwood, 90 anos: Parabéns, Clint

Eastwood, 90 anos: Parabéns, Clint

Rodrigo Fonseca

29 de maio de 2020 | 11h31

Eastwood nos sets de “O Estranho Que Nós Amamos”

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmKasa
Domingo é dia de celebrar os 90 anos de Clinton Eastwood Jr. encontrando nas TVs abertas e a cabo um convite para a festinha de aniversário do realizador de “Os Imperdoáveis” (1992) e de outras joias. Às 22h20 do dia 31, a Globo dedica seu “Domingo Maior” a ele, exibindo “Sniper Americano” (2014), fenômeno de bilheteria que custou US$ 58 milhões e arrecadou US$ 547 milhões. Antes, o Telecine dedica ao ator e cineasta uma maratona, “Parabéns, Clintão”, que começa às 12h35, com a trilogia dos US$ de Sergio Leone (“Por Um Punhado de Dólares; “Por Alguns Dólares a Mais”; “O Bom, o Mau e o Feio”), segue com “A Marca da Forca” (1968), às 19h55; prossegue com “O Estranho Que Nós Amamos” (1971), às 22h; e finaliza com “O Último Golpe” (1974), às 23h50.

Desde seu segundo filme como realizador, o faroeste gótico “O estranho sem nome” de 1973, Eastwood persegue, com frequência a questão da Fé – Fé com letra maiúscula, indicando a crença numa Divindade Absoluta como um balizador das ações entre os homens. É a Fé que serve de refúgio ao pastor bom de bala de “Cavaleiro solitário”, western que rendeu a Eastwood a primeira de suas cinco indicações à Palma de Ouro de Cannes. É nos versículos do Evangelho que o “imperdoável” Will Munny ensaia uma redenção no clássico que deu ao cineasta seu primeiro Oscar de melhor diretor. Sua segunda estatueta viria por “Menina de Ouro” (2004), no qual também havia um padre disposto a iluminar as dores de um treinador de boxe fã de James Joyce. “A troca” de 2008 tinha John Malkovich como um pregador capaz de desafiar a corrupção policial à força de sua influência política. “Gran Torino”, também de 2008, tinha um pároco disposto a ajudar o ex-militar encarnado por Eastwood. Já no injustiçado “Além da vida”, não se viam batinas, nem Bíblias, mas havia espíritos por todos os lados, cercando um protagonista envolto no dilema de crer. Mas a fé que mais conta agora é a sua devoção ao cinema como espaço de humanismo.
Seu mais recente filme, “O Caso Richard Jewell” (2019), ovacionado em sua projeção no Festival do Rio, é um tratado humanista, coroado com uma indicação ao Oscar de melhor coadjuvante para Kathy Bates. Porém, sua excelência vai muito além dela, com especial destaque para a edição do montador Joel Cox (preciso no trânsito por imagens jornalísticas de arquivo, dos anos 1990) e para a atuação de Paul Walter Hauser, devastador em cena. A fotografia do canadense Yves Bélanger (de “A Chegada” e “Clube de Compras Dallas”) também impressiona – sobretudo se comparada ao visual habitualmente conservador dos filmes do diretor – por um jogo de cores que brinca com o passado, com a tessitura midiática da televisão, com registros documentais. E o que fica disso tudo é um ensaio sobre as fake news, um dos males dos dias de hoje. Um ensaio nervoso, mas que preserva a afetividade (como é peculiar ao realizador) no modo como preserva seu protagonista da caricatura.

No set de “O Caso Richard Jewell”, Eastwood dá instruções a Paul Walter Hauser e Sam Rockwell

Conhecido pelo papel de Raymond do seriado “Cobra Kai” e por uma participação em “Eu, Tonya” (2017), Hauser aproveita as informações de que dispões sobre o verdadeiro Richard Jewell – um segurança de silhueta GG, fã de junk food, que impediu um atentado terrorista em um estádio de Atlanta, durante os Jogos Olímpicos de 1996 – e usa sua bovina figura para criar uma espécie de Sancho Pança sem Quixote. Falta-lhe uma Dulcineia, mas existe uma mãe (papel de Kathy, numa ternura de pão quente) que o ampara. E existem livros guiando sua cabeça inventiva, ainda que livros de conduta policial e não romances de cavalaria. Moinhos de vento metidos a gigante existem aos quilos em sua cabeça, em especial o sonho de ser um policial respeitado. Esse sonho, que ele tenta pôr em prática a partir de uma retidão espartana, é o que abre o abismo de sua ruína. O verdadeiro Jewell foi acusado de ter plantado aquela bomba (que fere várias pessoas) a fim de alcançar notoriedade. A mesma acusação se põe sobre os ombros do Jewell cinematográfico.
Existe nele uma ingenuidade que o aproxima da “Menina de Ouro” do próprio Eastwood de 2004, o (superestimado) filme que deu a ele seu segundo Oscar de melhor diretor. E existe no pandemônio que se forma em Atlanta após a acusação de Jewell que lembra o campo de caça a Kevin Costner de “Um mundo perfeito” (1993), uma das joias de Clint. Logo, estamos em um terreno de autor, aqui vitaminado pela presença de um elenco muito – mas muuuuuito – acima da média do realizador, com Jon Hamm vivendo o algoz e verdugo de Jewell (o agente do FBI Tom Shaw); com Olivia Wilde como a Lois Lane sem caráter Kathy Scruggs; e com o sempre inspirado Sam Rockwell na pele do advogado Watson Bryant. Este será o defensor de Jewell. Mas é uma defesa em que Eastwood nos surpreende em seu retrato de uma América tacanha, lacradora e gordofóbica, que vê Richard como um looser nato por sua gordura cheia de glúten.

“A Mula” (2018): alvo de patrulha

Para esquentar os tamborins para o batuque da festa de Clint, a HBO exibe seu brilhante “A Mula” (2018) neste sábado, às 15h50. Em decorrência de patrulhas ideológicas, esse filme memorável, à altura de obras-primas como “Cartas de Iwo Jima” (2006) ou “As pontes de Madison” (1995), foi subestimado nos EUA e ignorado para o Oscar. E, nele, em meio a uma vertiginosa mistura de emoções, com foco na tensão, vemos a atuação mais comovente da (longeva) carreira do astro, hoje com 88 anos. Mas o troco foi dado: fora da América, esta trama – baseada na reportagem “The Sinaloa Cartel’s 90-year old drug mule”, feita para o “The New York Times”, por Sam Dolnick – coleciona elogios e deu a Eastwood a capa da prestigiosa revista “Cahiers du Cinéma”. Nela, a crítica Florence Maillard trava paralelo entre Earl Stone – o papel de Clint, um agricultor falido que se transforma em “vaporzinho” para traficantes mexicanos – e o cinema de Raoul Walsh (1887-1980). A analogia se dá a partir do faroeste épico “O intrépido general Custer” (1941), com Errol Flynn. Como diretor, Walsh desfilou por variados gêneros, como Eastwood, mas impregnava os filões mais populares, como esta citada aventura no Oeste, com um toque de amargura, uma percepção do desespero nosso em relação a impotências e deslizes. Esse é o tema de “The Mule”, produção de US$ 50 milhões cujo faturamento global beira US$ 140 milhões. Stone é um fanfarrão (a interpretação dele tira Clint do arquétipo de durão, esbanjando molejo e fragilidade). No ocaso da vida, ao chegar aos 90 anos, ele percebe o quanto perdeu tempo na relação com aqueles que o amavam. Um convite para entregar drogas, ganhando o que sua horta jamais renderia, parece a chance ideal de compensar com dinheiro aquilo que não ofereceu de afeto. Mas existe o amor e existe a vida, sua inimiga: querer nem sempre é poder. E como “Os Imperdoáveis” – que deu a Eastwood o Oscar de direção em 1993, já deixava evidente: há um limite para o erro e o perdão. Limite que, aqui, o octogenário cineasta desenha desafiando códigos da correção política e arrancando atuações memoráveis de Dianne Wiest (a ex-mulher de Stone) e de Andy Garcia, um chefão memorável. A fotografia do já citado Bélanger é chapada em tons ocres, cinzentos, para traduzir o quão grisalha é a ética do mundo cão que produziu Stone. Trabalho memorável.
No Brasil, Marcio Seixas é o dublador habitual de Eastwood, mas ele já ganhou as vozes de Leonardo José, Orlando Prado e de Élcio Romar. Em “A Mula”, o aniversariante do domingo é dublado por Carlos Gesteira.

Com Sergio Leone nos bastidores da Trilogia dos Dólares

p.s.: Tem Adam Sandler dublado por Alexandre Moreno, o que sempre dá muita alegria aos tímpanos, na “Sessão da Tarde” desta sexta, às 14h50, com o sucesso de bilheteria “Gente Grande 2” (2013), sobre um reencontro de amigos de colégio, hoje quase cinquentões.

p.s.2: A Imvosion acaba de disponibilizar em DVD edições novinhas de “Clímax”, de Gaspar Noé; “O Confeiteiro”, de Ofir Raul Graizer; e “Varda por Agnès”, de Agnès Varda. Para comprar os discos: https://loja.imovision.com.br.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: