‘Earwig’, cinema de penumbra

‘Earwig’, cinema de penumbra

Rodrigo Fonseca

21 de setembro de 2021 | 13h10

Rodrigo Fonseca
Lucile Hadzihalilovic, realizadora de 60 anos conhecida por filmes de um formalismo vívido, como “Inocência” (2004) e “Évolution” (2015), tomou San Sebastián de assalto com seu estilo. A diretora vem sendo muito elogiada por conta do visual gótico, de silêncio exasperante, de seu “Earwig”, no qual uma menina, criada em um casarão do interior da Europa, é preparada por seu mordomo para ganhar o mundo e amadurecer. É um clima kafkiano, onde cada decisão dos personagens é um chamado ao risco.
“É uma reflexão sobre a atemporalidade, em que o fascínio está nas raias do mistério”, disse Lucile ao P de Pop. “Nosso maior desafio foi criar uma narrativa envolvente rodada dentro de um apartamento. Apostamos na penumbra, investindo num visual gótico”.
Nesta terça, em San Sebastián, a sessão de “El Buen Patrón”, uma hilária comédia do madrilenho Fernando León de Aronoa, com seu divo Javier Bardem (em atuação colossal, digna de Marcello Mastroianni), ofuscou a concorrência, na briga pela Concha de Ouro. Só se fala com mais ardor de um título, entre os concorrentes: “Arthur Rambo”, nova longa do francês Laurent Cantet, aclamado por longas-metragens de tônica social como “Entre os Muros da Escola” (Palma de Ouro em Cannes de 2008). Seu novo exercício de autoralidade narra a luta de um escritor das periferias parisienses, de origem argelina, que passa de queridinho da crítica a alvo de linchamentos virtuais depois de tweets preconceituosos, postados em seu passado, vazarem nas redes sociais.
p.s.: O espetáculo ‘Era Medeia’ é a primeira atração de teatro presencial na reabertura do Teatro Firjan SESI Centro, com apresentações nesta sexta-feira e neste sábado, às 19h e 17h, respectivamente. Com supervisão de Cesar Augusto e texto e direção de Eduardo Hoffmann, o elogiado espetáculo se passa durante os ensaios de uma adaptação da tragédia “Medeia”, de Eurípedes, pano de fundo para uma discussão que passa pelo machismo, o abuso de poder, exposição da vida privada e a importância do processo na criação artística. Em cena, estão os atores Eduardo Hoffmann e Isabelle Nassar, que vivem Pedro Lobo, um diretor excêntrico, e Verônica Albuquerque, uma atriz insegura. O público é convidado a assistir a um ensaio aberto do espetáculo no qual estão trabalhando juntos. Aos poucos, o passado deles vem à tona, e os espectadores passam a ser testemunhas de um acerto de contas íntimo entre os personagens.

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