É Tudo Verdade e Canal Brasil no rastro da ditadura

É Tudo Verdade e Canal Brasil no rastro da ditadura

Rodrigo Fonseca

13 de abril de 2021 | 13h42

Longa de Sérgio Rezende é uma das atrações de retrospectiva no Canal Brasil

RODRIGO FONSECA
É Tudo Verdade = É Tudo Resistência… e Memória: a exibição, nesta quinta-feira, do longa-metragem “Os Arrependidos”, de Ricardo Calil e Armando Antenore, na maior maratona documental das Américas (a ETV), discutindo saldos traumáticos do regime de farda, coincide com a maratona Ditadura Nunca Mais no Canal Brasil, relembrando a bestialidade dos anos de chumbo em nossas terras. A retrospectiva começou nesta terça, tendo programada uma projeção de “Pra Frente, Brasil” (1982), de Roberto Farias, às 14h45, resgatando interpretações memoráveis de Antonio Fagundes e Reginaldo Faria. As discussões abertas por essa programação se afinam com as questões trazidas pelo ETV. No evento, o longa de Calil e Antenore será exibido na Looke, às 21h, no dia 15. Seus diretores voltam no tempo até 1970, no auge da repressão ditatorial. Ali, cinco guerrilheiros presos vieram a público renegar a luta armada e elogiar o regime. Com a repercussão das declarações, o governo resolveu transformar as retratações em prática de Estado. Passou a torturar opositores para que fizessem o mea-culpa. Até 1975, cerca de quarenta presos participaram dos “arrependimentos”, como ficaram conhecidos. O que os realizadores fazem nesse filme é recontar a história pouco lembrada de ex-militantes que, muito jovens, largaram tudo para arriscar a vida por uma causa, foram presos e torturados, e viraram arma de propaganda graças à retórica de seus inimigos.

Ainda sobre o ETV, vale ficar atento pra exibição do .doc romeno “Colectiv”, de Alexander Nanau, indicado ao Oscar, no dia 18, às 12h, na Looke. É um estudo sobre corrupção no sistema de saúde da Romênia.
Sobre a mostra do Canal Brasil, ela segue nesta quarta-feira, numa travessia pelas veredas documentais, com “Construindo Pontes” (2018), de Heloisa Passos, marcado para 10h55. Abordando sua própria história, a diretora fala de Álvaro, um engenheiro civil que viveu seu auge durante a ditatura. O filme capta a antítese de um tempo muito bom para a família, mas turbulento para o país. Quarta rola ainda “Hoje” (2013), de Tata Amaral, às 14h55, com Denise Fraga numa atuação assombrosa no papel de Vera, que recebe uma indenização por conta do desaparecimento do marido durante o jugo ditatorial do país. Com o dinheiro, ela compra um apartamento. Só que, quando está prestes a se mudar, recebe uma visita inesperada, que detona uma série de recordações da tortura.
Um dos títulos mais explosivos da seleta do Canal Brasil ficou pra quinta-feira: “Lamarca”, de 1994, a ser exibido no dia 15, às 14h10. Sérgio Rezende assina a direção desse thriller centrado nos últimos anos de ação e de militância do capitão Carlos Lamarca (Paulo Betti, em luminosa atuação), que abandonou as Forças Armadas para lutar contra a ditadura. Para o fecho dessa reconstituição memorial do horror fardado, o CB escalou a série “Uma Sombra Entre Nós”, de Simone Zuccolotto, com depoimentos de cineastas que viveram o peso do governo militar sobre a indústria audiovisual.

p.s.: Na madrugada de sexta para sábado, vai ter Bong Joon Ho na Globo: o “Corujão” vai exibir seu “Expresso do Amanhã” (“Snowpiercer”, 2013), às 3h50. A trama é baseada no quadrinho “Le Transperceneige”, de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette. Chris Evans, o Capitão América, é seu protagonista. Na trama, um experimento para impedir o aquecimento global falha, gerando uma nova Era do Gelo sobre o planeta Terra. Os únicos sobreviventes estão a bordo de uma imensa máquina chamada Snowpiercer. Lá, os mais pobres vivem em condições terríveis, enquanto a classe rica é repleta de aspirantes a aristocratas. Mas um dos miseráveis resolve mudar o status quo, descobrindo os segredos deste intrincado maquinário. Song Kang-ho (astro de “Parasita”, ganhador da Palma de Ouro e do Oscar 2020, dados a Bong) integra o elenco, ao lado de Tilda Swinton, Jamie Bell e John Hurt. O longa inspirou uma série homônima da Netflix.

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