É tudo elegância e potência no doc inédito de Vladimir Carvalho

É tudo elegância e potência no doc inédito de Vladimir Carvalho

Rodrigo Fonseca

11 de abril de 2016 | 16h18

Cícero Dias encontra Picasso em suas andanças pela França: esta é uma das histórias narradas pelo doc de Vladimir Carvalho

Cícero Dias encontra Picasso em suas andanças pela França: esta é uma das histórias narradas pelo doc de Vladimir Carvalho, que supera seu próprio estilo com arrojo visual

Naquela que promete ser a melhor seleta brasileira de toda a história recente do É Tudo Verdade, um ensaio sobre a construção de uma persona autoral nas belas artes movimentou o maior festival de cinema documental da América Latina simbolizando a evolução narrativa de um realizador que hoje pode ser considerado o maior mestre de não ficção no país em nossas telas: Vladimir Carvalho. Com Cícero Dias, o Compadre de Picasso, em competição no evento, o octogenário diretor paraibano reconhecido como um poeta da investigação, com uma obra mais calcada na força da palavra, expressa por meio de entrevistas, arquivos e pesquisas, passa para um outro e mais elevado (e enlevado) patamar: o de poeta da imagem. Desde O País de São Saruê (1971), Vladimir não construía um discurso visual tão requintado, seja no arranjo da montagem, seja (sobretudo) no âmbito dos enquadramentos. Talvez a matéria-prima mais indireta do longa – a pintura de Cícero – tenha inspirado um arranjo narrativo de maior potência em termos de dramaturgia de plano do que o material visto nos docs anteriores dele, como O Engenho de Zé Lins (2006) e Rock Brasília (2011), no qual a musculatura investigativa chamava mais atenção do que sua epiderme fotográfica.

Um dos painéis do pintor pernambucano

Um dos painéis do pintor pernambucano

Aqui, vemos uma estrutura cíclica, na qual o porto de partida e o de chegada é o mesmo: uma lápide em Paris onde se lê “Eu vi o mundo… ele começava do Recife”. Dali pra frente, Vladimir exuma o corpo ali enterrado, mais preocupado em fazer uma história afetiva do Modernismo – e suas vertentes distintas – no mundo do que em formatar uma cinebiografia clássica. Entre arquivos e depoimentos, numa colcha de memórias, a câmera se abre e se fecha em túneis do Rio Sena, no colorido de telas, no branco de recordações em processo de despedaçamento. Sobram, intactos, a jornada de criação de um intelectual das tensões brasileiras e um périplo sobre as linguagens modernas alinhavadas no esperanto de uma pincelada.

Treze De Amor e Trevas Natalie Portman

p.s.: No dia 5 de maio, estreia no Brasil o primeiro longa-metragem da atriz Natalie Portman como realizadora de ficção: De Amor e de Sombra, centrado em romance memorialista de Amós Oz. Centrado na formação de Israel a partir de um ensaio sobre maternidade, a produção promove um corpo a corpo contagiante com a literatura de Oz, gerando um inventario de cicatrizes sobre a formação de um Estado – e sobre a inquietação de uma grande artista. Você confere aqui, em primeira mão, o cartaz deste drama de época.

 

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