É Tudo Ana Carolina: diretora revê seus cults

É Tudo Ana Carolina: diretora revê seus cults

Rodrigo Fonseca

09 de abril de 2022 | 11h55

RODRIGO FONSECA
Com títulos imperdíveis em sua grade, como “Eu Não Me Calo”, coridigido por Kátia Caliendo, Dellani Lima e Rafael Morato Zanatto, o É Tudo Verdade Play, a plataforma digital do maior festival de documentários das América, que encerra amanhã sua edição de 2022, tem atendido bem todos os anseios dos “.docófilos”, apresentando os filmes da competição oficial do evento (o belo “Eneida”, de Heloísa Passos, por exemplo, está lá) e atrações paralelas. O streaming do ETV teve um papel primoroso na mostra em homenagem à realizadora paulista Ana Carolina Teixeira Soares, com o resgate de suas pérolas na seara da não ficção, como “Getúlio Vargas” (1975) e “Anatomia do Espectador” (1975). Essa mostra foi um dos achados da curadoria de Amir Labaki, que emplacou concorrentes de peso como o avassalador “Belchior – Apenas um Coração Selvagem”, de Natália Dias e Camilo Cavalcanti, e “Sinfonia de um Homem Comum”, a obra-prima documental de José Joffily. Mas, no caso de Ana Carolina, o acerto teve proporções internacionais, numa fina sintonia com o sucesso recente da cineasta no Festival de Roterdã, na Holanda, com a contundência política de “Paixões Recorrentes”, seu primeiro longa depois de um hiato de oito anos longa das telas. Além disso, em 2019, ela foi eleita pela revista “Cahiers du Cinéma” um dos pilares da representação feminina nas telas, graças ao seminal “Mar de Rosas” (1978), “Das Tripas Coração” (1982) e “Sonho de Valsa” (1987).
“Você nunca fala que um homem fez um trabalho ‘masculino’. “‘A Montanha Mágica’ do Thomas Mann é uma obra de homem para a família alemã”. Não existe isso! Enfim…quando vi que estava na ‘Cahiers’, isso me deu um certo alívio. Eu não sou feminista, mas fiquei orgulhosa da minha condição. E esses filmes da trilogia simbolizam pra mim o que são de fato: pilares do meu autoconhecimento, da secção da condição social, financeira, anatômica, psíquica, desse ser que habito”, provocou a diretora em recente entrevista ao Correio da Manhã, antes de conversar com o P de Pop sobre os rumos de seu novo e belíssimo longa.

Apoiado num elenco multinacional, com destaque para Danilo Grangheia na pele de um integralista, “Paixões Recorrentes” foi rodado no litoral do Paraná e é centrado no confronto de um grupo de estrangeiros e alguns brasileiros numa praia nacional, em 1939, às vésperas da II Guerra Mundial. Segundo a cineasta, o futuro do filme está ainda flutuando em possibilidades de festivais na Europa. “Esse primeiro semestre está tumultuadíssimo por causa da guerra da Ucrânia e das condições políticas, sociais e culturais do Brasil. Mas tenho a impressão de que, no segundo semestre, conseguiremos colocar na tela, provavelmente começando pelo Rio, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte”, disse a diretora ao Estadão, revendo seu histórico no exterior. “O início de tudo vem do ‘Mar de Rosas’, que me levou para o Festival Internacional de Paris, pra Brasília e ganhou em São Paulo, na APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), os prêmios de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro. O ‘Das Tripas Coração’ foi o meu boom internacional, percorrendo inúmeros festivais. E, daí, consequentemente, fui júri em Veneza, Berlim e Taormina, e ganhei uma expressiva acolhida. A únicas reações estranhas e agressivas com esse longa foram em Portugal, quando um dos responsáveis pela exibição, assim que acendeu a luz, chamou-me no palco e disse: ‘Peça desculpas para a plateia’. Eu nunca tinha visto isso! Na Inglaterra tive que me apresentar na Corte de Justiça para explicar, em inglês, o significado do texto que o Cristo vivo sussurra quando está pregado na cruz… Foi tenso! Mas enfim, pra você ver o que eu tive que aguentar com a Trilogia”.

Cena de “Paixões Recorrentes”, cult de Roterdã

Nas páginas do livro “The Berlinale – The Festival”, de Peter Cowie, há uma foto de Ana Carolina como jurada, ao lado de medalhões das telas. “Aproveitando o gancho pra falar de Poder…a experiência de ser júri em Berlim foi muito estranha. A tropa de choque de mulheres era composta por Patricia Highsmith, Frieda Grafe, eu, e a cineasta Larisa Shepitko. Aliás, uma linda mulher e uma diretora de muito talento. Ucraniana. Eram tempos de União Soviética. No primeiro momento que eu cheguei, ela me abraçou e falou assim: ‘Chegou o mon bebe bolivienne’. Começou aí o choque cultural. Retruquei: ‘Não! Não sou boliviana!’. Falei com uma tal energia que depois fiquei até constrangida comigo mesma, como se a Bolívia fosse o fim do mundo. Não é. Não era. E nunca será. Mas fiquei tão aturdida…o Brasil, e o Brasil? Na cabeça dessa mulher e de grande parte dos europeus era a Argentina em primeiro lugar, acho que a Bolívia em segundo e o Brasil em terceiro, portanto. Sei lá! Mas foi muito difícil… O diretor Theo Angelopoulos me mandou calar a boca várias vezes afirmando que eu vinha de um país onde não se votava e, portanto, não sabia votar. Isso foi uma das grandes chicotadas. O diretor espanhol Antonio Eceiza também me deu uma chacoalhada. Ele me perguntou se eu tinha ido lá para votar em um filme brasileiro ou pra votar no filme que era bom. E era ‘A Queda’, do Ruy Guerra. Eu votei no ‘A Queda’ e não abri mão do voto de jeito nenhum. Tive várias experiências dessa natureza em festival. Muitas, mesmo. Foi difícil. Porque você é quase transparente em festivais de cinema se não é uma atriz glamourosa. Você não aparece. Lutava para correr atrás de jornalista quando estive em Cannes com o “Das Tripas Coração”. Tive grandes brigas também no Festival de Havana com o Miguel Littin por causa disso… Para eles mulher não sabe fazer, ver e nem votar em filme. Essas dificuldades, já que eu estou submetida à questão feminina, compreendo perfeitamente. O olhar masculino para a mulher é difícil! Só para concluir, hoje em dia não se usa mais essa expressão, mas na minha juventude Terceiro Mundo era como se fosse o último aluno da classe, que senta lá atrás. Aquele que funga, tosse, é meio doentinho sabe…fica lá atrás. Tanto na América Latina, como nos Estados Unidos, tudo aquilo que mostro nos meus filmes, para eles, só existia no Terceiro Mundo! No entanto, eu pertencia de fato ao Terceiro Mundo…logo o tal do Terceiro Mundo “não presta”. Quando exibi o ‘Mar de Rosas’ na Universidade de Tulane nos Estados Unidos, ouvi de uma mulher que lá não existia uma família como a família do filme. Isso foi em uma universidade. Enfim…Terceiro Mundo foi um rótulo muito cruel. Muito perigoso. E saiu das universidades né…engraçado como a gente melhorou”.
O É Tudo Verdade encerra suas atividades neste domingo.

p.s.: Primeiro sucesso de bilheteria da DreamWorks, “Impacto Profundo” (“Deep Impact”, 1998), vai ser exibido neste sábado, às 14h, na Globo. Tem Robert Duvall, dublado por Darcy Pedrosa, tentando conter um cometa que pode destruir a Terra.

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