É ‘Tempo’ de Shyamalan nas bilheterias

É ‘Tempo’ de Shyamalan nas bilheterias

Rodrigo Fonseca

30 de julho de 2021 | 14h03

Vicky Krieps é a força da natureza dramática numa praia que deteriora os corpos de pessoas como Gael García Bernal em “Tempo” (“Old”)

Rodrigo Fonseca
Em apenas duas semanas em cartaz nos EUA, “Tempo” (“Old”), produção de US$ 18 milhões, faturou cerca de US$ 30 milhões nas bilheterias, confirmando o quanto o cineasta indiano Manoj Nelliyattu “M. Night” Shyamalan ainda é capaz de mexer com a curiosidade e o medo das plateias. Lançado no Brasil neste fim de semana, o novo longa-metragem do realizador de “O Sexto Sentindo” (fenômeno popular em 1999, quando arrecadou US$ 672 milhões) foi rodado na República Dominicana, com base em graphic novel franco-suíça da dupla Pierre-Oscar Levy e Frederik Peeters, chamada “Château de Sable”, traduzida em português como “Castelo de areia”, pela Tordesilhas. Estima-se que o Festival de San Sebastián vá conceder um troféu honorário ao diretor, em sua 69ª edição, agendada de 17 a 25 de setembro, no norte da Espanha – mas nada foi confirmado ainda. Na tensíssima trama protagonizada por Gael García Bernal e Vicky Krieps, um grupo de turistas encara uma assustadora mutação em uma praia paradisíaca que altera a aparência de quem está ali, tornando as pessoas beeeem mais velhas, acelerando a decrepitude de corpos. Cogita-se que o novo thriller de terror do cineasta – estrelado ainda por Eliza Scanlen, Thomasin McKenzie, Alex Wolff, Rufus Sewell, Embeth Davidtz, Nikki Amuka-Bird, Ken Leung e Emun Elliott– possa se tornar um dos fenômenos do ano na venda de ingressos, mesmo sob o fantasma da covid-19 esvaziando o circuito. É uma narrativa de virada, que ferve no banho-maria do medo, até explodir numa virada que nos surpreende ao converter o que parece ser mera ação do “extraordinário” ao nosso redor em um plano vilanesco.
Suas primeiras imagens ilustram o quando o diretor é capaz de se reinventar, reforçando a potência do fotógrafo Mike Gioulakis, num balé de movimentos, por vezes bruscos. Balé que aproveita a força trágica de Vicky Krieps para dar estofo a uma personagem assombrada por fantasmas de culpa e de finitude. Reinvenção é uma arte na qual M. Night Shyamalan é um mestre. Depois de ter caído em desgraça com o injustiçado “A Dama na Água” (2006), ele amargou uma década de rejeições até se recriar a partir da televisão, com um seriado com aura de cult “Wayward Pines” (2015), com Matt Dillon, redescobrindo o prazer de filmar com baixíssimo orçamento e total liberdade. Foi essa a sua realidade em “A Visita” (2015), um exercício autoralíssimo da carpintaria do assombro, com o qual ele redescobriu as manhas do terror a partir das quais havia despontado para o estrelato, com o já citado “O Sexto Sentido” que custou US$ 40 milhões e faturou US$ 672 milhões. De volta às veredas do medo, onde lançou-se como grife, na plenitude de sua potência estética, ele se reencontrou e recuperou a tarimba de abocanhar gordas bilheterias, com um soberbo trabalho díptico: “Fragmentado” (2017) e “Vidro” (2019). Os dois vieram carregados de elogios, a maioria voltados para a condução febril do enredo sobre um sujeito com 23 personalidades que sequestra três moças e acaba atraindo as atenções de um vilão chamado Sr. Vidro (Samuel L. Jackson).

A medida de seu sucesso se dá em números: esses seus dois últimos longas arrecadaram um total de meio bilhão de dólares, juntos: US$ 548 milhões. Ecos de “Psicose” (1960) trovejam narrativa adentro, fazendo justiça à comparação entre Shyamalan e a práxis cinemática de Hitchcock, no que envolve a opção por sugerir em vez de escancarar, de criar clima ao invés de apelar para um grafismo pornográfico da violência. Viradas de roteiro – o trunfo de seus primeiros filmes – ficaram para trás. É na imagem que ele encontra o diferencial de narrativa e de sedução, como sugere o trailer de “Tempo”.

Há uma frase seminal em “O sexto sentido”, mais sútil e lúdica do que o desabafo que o celebrizou (“I see dead people!”), na qual se aprende: “Na vida, algumas magias podem ser reais”. Nos últimos 20 anos, período no qual estabeleceu-se como um dos realizadores mais ousados de Hollywood, mesmo quando a Meca do cinemão o esnobou, Shyamalan – nascido em Mahé, Pondicherry, na Índia, em 1970 – nunca abriu mão da crença no mágico, no fantástico, no ilusório. Até “Sinais” (2002), com Mel Gibson, a fantasia tinha lugar encantador em sua filmografia. Depois de “A vila” (2004), sua obra-prima, ilusão passou a simbolizar opressão em seu autoralíssimo cinema, de uma carpintaria que sempre se apegou a sutileza. Não por acaso, seu olhar passou a gravitar para o suspense. Em Shyamalan, tempo é incerteza. Mas “Tempo”, o filme, é uma iguaria. Das mais saborosas.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.