E o Globo de Ouro vai para… a inclusão

E o Globo de Ouro vai para… a inclusão

Rodrigo Fonseca

03 de fevereiro de 2021 | 13h35

Amanda Seyfried concorre ao Globo de Ouro por “Mank”

RODRIGO FONSECA
Centrado nos bastidores da Babel da arte cinematográfica, construído a partir da gênese de “Cidadão Kane” (1941), “Mank”, de David Fincher, é o filme com mais indicações (seis) numa corrida ao Globo de Ouro que consagrou a força da Netflix no seio da streaminguesfera, num momento da História em que o coronavírus escasseou a frequência presencial nas salas de exibição e expandiu o consumo das plataformas digitais. Foi estranho só ver Spike Lee ser esnobado com seu “Destacamento Blood”, deixando de lado a possante atuação de Delroy Lindo. Mas muitos projetos de combate ao racismo tiveram evidência, como a série “Small Axe”, de Steve McQueen, e o longa “Judas and The Black Messiah”. Narrativas de afirmação de vozes femininas, como “Bela Vingança”, de Emerald Fennell, e “Nomadland”, de Chloé Zhao, foram devida e merecidamente lembradas e reconhecidas com indicações, da mesma forma como Regina King teve sua excelência à direção, com “Uma Noite em Miami”, reverenciada com uma indicação ao prêmio de direção. Aliás, Chloé e Emerald também, reconfigurando o quadro das mulheres cineastas em prêmios antes muito sexistas em seu arranjo. Elas disputam com Fincher e Aaron Sorkin (com “Os 7 de Chicago”). A diversidade se fez notar por toda a seleção do prêmio anual da Hollywood Foreign Press Association (HFPA), que convocou as atrizes Sarah Jessica Parker e Taraji P. Henson para anunciar seus concorrentes. Não houve chance pro Brasil, uma vez que “Bacurau” e “Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou” foram esquecidos. Mas a América Latina tem chance de papar o troféu de Melhor Filme em Língua Estrangeira por “La Llorona”, de Jayro Bustamante, da Guatemala: é um estudo sobre crimes de guerra a partir de um ex-militar torturador assombrado por uma entidade. Sua dificuldade será derrotar o arrasa-quarteirão “Another Round”, da Dinamarca, com Mads Mikkelsen como um professor que bebe pra se empoderar.
Thomas Vinterberg é quem dirige Mikkelsen, retomando a parceria de “A Caça” (2012), com um ardor que já lhe rendeu 20 prêmios, começando por uma láurea coletiva de interpretação masculina no Festival de San Sebastián, na Espanha. Além de Bustamante, ele encara “Nós Duas” (“Deux”), da França, de Filippo Meneghetti; “Rosa e Momo” (“La Vita Davanti A Sé”), da Itália, com Sophia Loren sob a direção de Edoardo Ponti; e “Mirari”, produção americana de Lee Isaac Chung, majoritariamente conduzida em coreano, que ganhou Sundance em 2020.

Quem apresenta a cerimônia da HFPA deste ano são as atrizes Tina Fey e Amy Poehler, que anunciarão as atrações de pontos diferentes dos EUA, para frisar os cuidados da indústria do audiovisual com os protocolos de segurança acerca da covid-19. Amy vai estar na sede habitual do prêmio, o Beverly Hilton, na Califórnia, e Tina vai estar no Rockfeller Center, em Nova York. Dessa bifurcação saem os vencedores, tanto do cinema quanto da TV. A série mais indicada foi “The Crown”, com seis indicações, seguida por “Schitt’s Creek” (5), “Ozark” e “The Undoing” (ambas com 4), “The Greath” e “Ratched” (ambas com 3). Cultuado por seu desempenho como Walter White em “Breaking Bad”, Bryan Cranston voltou ao páreo deste ano, concorrendo com “Your Honor”, no qual vive um juiz em luta para proteger seu filho da vingança de mafiosos. Anya Taylor-Joy dispara como favorita ao prêmio de melhor atriz em filme ou minissérie por sua atuação como enxadrista em “O Gambito da Rainha”. Vale lembrar pérolas como “The Undoing”, da HBO, que pode premiar Hugh Grant. Ainda na TV, “Lovecraft Country” recebeu indicação, o que atesta a força de Jordan Peele, seu produtor, na Meca televisiva.

Bill Murray brilha como o pai de Rashida Jones em “On The Rocks”

Na peleja cinematográfica do Globo de Ouro, a Amazon Prime vem pra jogo com “Borat: Fita de Cinema Seguinte” e “Uma noite em Miami”, que concorrem em três frentes, cada. Streaming em ascensão, a Disney+ também chegou firme à briga por Globos dourados, com o musical “Hamilton”, a série “O Mandaloriano” e as animações “Dois Irmãos” e “Soul”, sendo esta última a favorita de sua categoria e também na de melhor trilha sonora.
Na disputa pelo prêmio de melhor ator, confirmou-se o respeito de Hollywood pelo legado de Chadwick Boseman, aclamado como Pantera Negra, morto de câncer em 2019. Ele recebeu uma indicação póstuma por seu desempenho em “A Voz Suprema do Blues”. Este longa, com base em peça teatral de August Wilson (1945-2005) colocou Viola Davis na cara do gol para o Globo de Ouro de melhor atriz. Sua maior rival é a inglesa Carey Mulligan, em “Bela Vingança”, numa cruzada de vingança contra abusadores.
No terreno dos coadjuvantes, a diva Glenn Close chega faminta de vitória com “Era Uma Vez Um Sonho”. Mas seria bonito se a láurea ficasse com Amanda Seyfried, luminosa em “Mank”, onde encarna a atriz Marion Davies (1897–1961). Fome de anteontem também se nota em Bill Murray, genial em “On The Rocks”, que Sofia Coppola lançou na Apple.

Mads Mikkelsen em “Another Round”

Melhor Filme – Drama
“Meu Pai”
“Mank”
“Nomadland”
“Bela vingança”
“Os 7 de Chicago”

Melhor filme – Musical ou comédia
“Borat: fita de cinema seguinte”
“Hamilton”
“Palm Springs”
“Music”
“A Festa de Formatura”

Melhor diretor
Emerald Fennell — Bela Vingança
David Fincher — Mank
Regina King — Uma noite em Miami…
Aaron Sorkin — Os 7 de Chicago
Chloé Zhao — Nomadland

Melhor atriz de filme – Drama
Viola Davis — Ma Rainey’s Black Bottom
Andra Day — The United States vs. Billie Holiday
Vanessa Kirby — Pieces of a Woman
Frances McDormand — Nomadland
Carey Mulligan — Bela vingança

Melhor ator de filme – Drama
Riz Ahmed (“O som do silêncio”)
Chadwick Boseman (“A voz suprema do blues”)
Anthony Hopkins (“Meu pai”)
Gary Oldman (“Mank”)
Tahar Rahim (“The Mauritanian”)

Melhor atriz em filme – Musical ou comédia
Maria Bakalova (“Borat: Fita de cinema seguinte”)
Michelle Pfeiffer (“French Exit”)
Anya Taylor-Joy (“Emma”)
Kate Hudson (“Music”)
Rosamund Pike (“I Care a Lot”)

Melhor ator em filme – Musical ou comédia
Sacha Baron Cohen (“Borat: fita de cinema seguinte”)
James Corden (“A Festa de Formatura”)
Lin-Manuel Miranda (“Hamilton”)
Dev Patel (“The Personal History of David Copperfield”)
Andy Samberg (“Palm Springs”)

Melhor ator coadjuvante
Sacha Baron Cohen (“Os sete de Chicago”)
Daniel Kaluuya (“Judas and the Black Messiah”)
Jared Leto (“The Little Things”)
Bill Murray (“On the Rocks”)
Leslie Odom, Jr. (“Uma noite em Miami…”)

Melhor atriz coadjuvante:
Glenn Close (“Era uma vez um sonho”)
Olivia Colman (“Meu pai”)
Jodie Foster (“The Mauritanian”)
Amanda Seyfried (“Mank”)
Helena Zengel (“News of the World”)

Melhor filme em língua estrangeira
“Another Round” (“Druk”) – Dinamarca
“La Llorona” – Guatemala / França
“Rosa e Momo (“The Life Ahead” ou “La vita davanti a sé”) – Itália
“Minari” – EUA
“Nós duas” (“Two of Us” ou “Deux”) – França e EUA

Melhor animação:
“Os Croods 2: Uma Nova Era”
“Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica”
“A caminho da Lua”
“Soul”
“Wolfwalkers”

Melhor trilha sonora:
“O céu da meia-noite” – Alexandre Desplat
“Tenet” – Ludwig Göransson
“News of the World” – James Newton Howard
“Mank” – Trent Reznor, Atticus Ross
“Soul” – Trent Reznor, Atticus Ross, Jon Batiste

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