E o Globo de Ouro foi para… o equívoco

E o Globo de Ouro foi para… o equívoco

Rodrigo Fonseca

10 de janeiro de 2022 | 02h26

Jane Campion dá instruções ao elenco de “Ataque dos Cães”: sua consagração foi um dos raros acertos da noite

RODRIGO FONSECA
Não bastava ser proscrito, o Globo de Ouro, dado pela Hollywood Foreign Press Association (HFPA), conseguiu fazer de sua edição “a portas fechadas”, a de 2022, um festival de equívocos em suas escolhas, com raríssimos acertos. Laureada com a Palma de Ouro de 1993 por “O Piano”, a cineasta neozelandesa Jane Campion merecia mais do que nunca ter recebido os troféus que conquistou. Sua direção em “Ataque dos Cães” é de uma precisão cirúrgica, embora o filme – inegavelmente possante, na forma plástica e nos demais vértices de sua dramaturgia – não seja tão transcendente quanto se diz, mesmo sendo bom. Havia coisa mais robusta e vívida em concurso. Mas a Foreign Press radicada nos EUA vacilou na eleição. Sua cerimônia foi “escondida”, reduzida a um papo entre seus integrantes, em Los Angeles, com anúncios via twitter, em decorrência de um processo de “cancelamento” público por falta de inclusão em seu corpo de votantes, que carecia de representatividades das populações negras e asiáticas e por acusações de corrupção. É fato que a brutalidade da “cancel culture” tentou jogar por terra o quão importante o prêmio foi para as carreiras de muitos talentos, como Arnold Schwarzenegger fez questão de ressaltar. O eterno Exterminador do Futuro fez uma participação online corajosa, mas que pode ter um efeito suicida em sua carreira, já alquebrada há anos, desde que ele saiu do governo da Califórnia para voltar a atuar. Arnoldão tomou uma posição que não passa a mão na cabeça da HFPA, mas que relembra o quão essencial ela foi. Isso não a escusa de seus erros, de racismo (indefensável) e de suas imposturas éticas. O que dói – e muito – além de todos os delitos que a associação de imprensa estrangeira hollywoodiana deixou passar ao longo dos anos foi sua absoluta imprecisão estética nas decisões deste ano. Ignorar “Licorice Pizza”, a obra-prima de Paul Thomas Anderson, para tentar salvar o malfadado “Amor, Sublime Amor”, de Spielberg, do fiasco, é imperdoável. E como aceitar a premiação de Nicole Kidman, em sua desastrosa recriação de Lucille Ball, em detrimento de Olivia Colman em “A Filha Perdida”? E o pior de tudo: premiar a Disney por uma xerox de si mesmo, o letárgico “Encanto”, esquecendo-se do monumental “Fuga” (“Flee”)! Como puderam esnobar Ben Affleck, em “Bar, Doce Lar”? Foi bonito ver a consagração de Andrew Garfield, de Ariana DeBose (o que o último Spielberg tem de melhor), de Ryusuke Hamaguchi e o êxito de Kenneth Branagh, como roteirista. Só.

“Belfast” deu a Kenneth Branagh o Globo de melhor roteiro: outro acerto

AS LÁUREAS DO GLOBO DE OURO 2022
MELHOR FILME
Drama:
“Ataque dos Cães” (“The Power of The Dog”), de Jane Campion
Comédia ou Musical: “Amor, Sublime Amor” (“West Side Story”), de Steven Spielberg
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (“Ataque dos Cães)
MELHOR ATRIZ:
Drama:
Nicole Kidman (“Apresentando os Ricardos”)
Comédia ou Musical: Rachel Zegler (“Amor, Sublime Amor”)
MELHOR ATOR:
Drama:
Will Smith (“King Richard – Criando Campeãs”)
Comédia ou Musical: Andrew Garfield (“Tick, Tick… Boom!”)
MELHORES COADJUVANTES:
Atriz:
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Ator: Kodi Smit-McPhee (“Ataque dos Cães”)
MELHOR ROTEIRO: Kenneth Branagh (“Belfast”)
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: Hans Zimmer (“Duna”)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “No Time to Die”, de Billie Eilish e Finneas O’Connell (“007 – Sem Tempo Para Morrer”)
MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO INGLESA: “Drive My Car”, de Rysuke Hamaguchi (Japão)
MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO: “Encanto”, de Jared Bush, Byron Howard e Charise Castro Smith

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