E na reta final do Festival do Rio, Sérgio Machado dá um solo de excelência

E na reta final do Festival do Rio, Sérgio Machado dá um solo de excelência

Rodrigo Fonseca

12 Outubro 2015 | 04h16

Inspirado na saga da Orquestra de Heliópolis, em Sampa,

Inspirado na saga da Orquestra de Heliópolis, em Sampa, “Tudo que aprendemos juntos”, de Sérgio Machado, veio de Locarno para o centro do gol da Première Brasil 2015

Mesmo assombrado por faltas de luz no Cine Lagoon, que travaram sua projeção por três vezes, o drama musical Tudo Que Aprendemos Juntos fez a excelência narrativa do baiano Sérgio Machado ecoar pela Première Brasil 2015 em sua última noite de competição, credenciando-se como um favorito aos prêmios de melhor direção e montagem. Embora Boi Neon, do pernambucano Gabriel Mascaro, siga imbatível na peleja pelo troféu Redentor de melhor longa-metragem de ficção, a (comovente) nova produção dos irmãos Gullane, pilotada pelo realizador de Cidade Baixa (2005), deu um fecho glorioso ao certame, com um ritmo febril de edição ao mergulhar na periferia e com uma fotografia de iluminação vívida arquitetada por Marcelo Durst (de Estorvo).

Houve uma catarse coletiva de dor frente a um retrato – sem manipulações baratas e de comunicabilidade incontestável – da exclusão entre os jovens aspirantes a músicos de uma escola em Heliópolis, em São Paulo. As cenas com o adolescente Kaique Jesus com o violino em punho (ou com a exclusão no lombo) foram as que mais bateram nas glândulas lacrimais do público. E que guri bom ator ele é…

Kaique de Jesus e Elzio Vieira no longa

Kaique de Jesus e Elzio Vieira vivem músicos aspirantes no longa fotografado com esmero por Marcelo Durst

Dois nomes nos créditos de roteiro – o de Maria Adelaide Amaral (veterana da teledramaturgia, responsável por pérolas como A Muralha) e o de Marcelo Gomes (realizador do cult Cinema, Aspirinas e Urubus) – justificam a dosagem parcimoniosa de emotividade na trama, sempre aberta a distanciamentos. Sua base é a peça (depois vertida em livro) de Antonio Ermínio de Moraes chamada Acorda Brasil!, com base em um caso real. O enredo se concentra nos esforços do violinista Laerte (vivido por Lázaro Ramos com elegância, mas sem brilhantismos) para reinventar-se como um educador em uma escola da perifa paulistana após ter perdido a chance de entrar para a Osesp. Sua tarefa é dar aulas de músicas para adolescentes que, caso galguem os degraus da eficácia, podem impressionar os olheiros de uma ONG.

Lázaro Ramos é o violinista Laerte

Lázaro Ramos é o violinista Laerte

Ainda com dor pelo calombos da derrota (na Osesp) em seu peito e fustigado pelo sensação de impotência frente à violência local, Laerte é um personagem para além dos clichês dos filmes escolares. Com ele, Machado cria um Ao Mestre, Com Carinho às avessas, no qual o foco não é o espírito heroico de um protagonista capaz de redimir o mundo de decadência a seu redor, como um cordeiro em autoimolação em nome da fé no altruísmo. O foco aqui é uma jornada mútua de redenção, para Laerte e para cada um dos alunos em seu diário de classe. Um assessório salta aos olhos: a presença do rapper Criolo na pele de um traficante tipo P(erigoso).

 

Vigoroso em sua estética de conto de fadas sujo de graxa, Tudo o Que Aprendemos Juntos tocou no peito do Festival do Rio indo pelas claves precisas, elevando o nível de uma seleção brasileira de longas ficcionais viva e respeitável mas que, nem de longe, alcançou a meta de ser “a” Première de todas as Premières Brasil. Obras-primas? Teve uma: o supracitado Boi Neon. Outros grandes filmes fora o de Machado? Vale destacar Campo Grande, Quase Memória, Mundo Cão e (parcialmente) Aspirantes     

 

Entre os docs de longa quilometragem, a rodada fechou com golaço formal para Olmo e a Gaivota, de Petra Costa, e Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro, de Geneton Moraes Neto. Registrou-se também um pênalti na conta da desmistificação de lendas sociais para a edição superpop de Betinho – A Esperança Equilibrista, de Victor Lopes. Dos curtas-metragens em concurso, o mais inventivo até aqui foi Som Guia, de Felipe Rocha, e o mais imponente em sua visualidade foi Pele de Pássaro, que só confirma a maturidade de Clara Peltier, mesma de Graça. Da seara Novos Rumos, o Ceará fez festa na tela com Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de um Petrus Cariry escudado pelo aríete Sabrina Greve, e vale uma distinção a dinâmica autogeográfica com ecos de Polanski de A Morte de J. P. Cuenca.

Entre encontros e desencontros, a curadoria trouxe uma amostra de autorias e riscos, oferecendo estilos em depuração e prazer. Leva nota 8,5. Resta saber agora o que os júris presididos por Walter Carvalho (seleção principal) e Rosane Svartmann (Novos Rumos) farão com tudo o que se viu.

p.s.: Foram anunciados neste domingo os vencedores do Prêmio Félix, a láurea LGBT do Festival do Rio. And the winners are…

Melhor longa-metragem de ficção: TANGERINA, de Sean Baker; Melhor longa-metragem documentário: O HOMEM NOVO, de Aldo Garay; e Prêmio Especial do Júri: BEIRA-MAR, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.