É dia de ‘Logan’, o queridinho da ACC-RJ, no Telecine

É dia de ‘Logan’, o queridinho da ACC-RJ, no Telecine

Rodrigo Fonseca

18 Dezembro 2017 | 14h11

Charles Xavier (Patrick Stewart) e Logan (Hugh Jackman) conversam sobre um amanhã que parece condenado: o sucesso de bilheteria derivado da franquia “X-Men” tem sessão nesta segunda, 19h30, na Rede Telecine

Rodrigo Fonseca
Num gesto de coragem, ousadia e de afinação com os formatos narrativos do mundo contemporâneo, a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACC-RJ), em sua votação anual dos melhores filmes lançados de janeiro a dezembro, abriu pela primeira vez as portas para as narrativas de super-herói, ao incluir Logan, de James Mangold, na enquete dos destaques de 2017. Em fevereiro, a ACC-RJ debaterá o que existe de mais potente, em termos de dramaturgia, nesta produção de US$ 97 milhões, numa mostra no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) carioca. Há cerca de um ano, eme fevereiro passado, a versão grisalha do Wolverine dava as caras no Festival de Berlim, em projeção hors-concours. Quem ainda não viu esta joia, poderá se deleitar com ela nesta segunda-feira, às 19h30m, no Telecine Premium. Tem repeteco na quarta, dia 20, às 22h, no Telecine Pipoca, com direito à versão dublada pelo genial Isaac Bardavid. A bilheteria global do longa-metragem beirou US$ 616 milhões, o que só reitera o potencial comercial de seu protagonista, o australiano Hugh Jackman. Neste Natal, ele voltará às telas com O Rei do Show, musical do novato Michael Gracey pelo qual o carismático astro concorre ao Globo de Ouro de melhor ator.

Mas o que existe de tão bom em Logan? Bem…

Ilíada de um tempo em crise com o conceito clássico de heroísmo, a franquia X-Men e seus derivados – Wolverine é o mais famoso deles, estrelado por um Ulisses trágico – são rebentos do que se poderia entender como o legado nº 1 da cultura digital para a dramaturgia audiovisual: o conceito de meta-cinema.  Filhos do Átomo, os discípulos de Charles Xavier, criados nas HQs por Stan Lee em 1963, tornaram-se cinema como Filhos da Geração DVD. A partir do final dos anos 1990, quando a tecnologia informática permitiu o advento das bolachinhas chamadas de Digital Versatile Disc, toda a memória fílmica produzida no mundo, até aquele momento, encontrou um escoamento (e um veio de preservação) biblioteconômico, que nos permitiu não apenas acesso a cópias, por exemplo, de uma comédia de Harold Lloyd (1893-1971) feita em 1919, mas também a toda uma fortuna crítica (mais contemporânea) sobre ela: os chamado extras. Diferentes do que se viveu na era VHS, todo DVD era um casamento de entretenimento com aula de História, o que alfabetizou uma nova linhagem de cinéfilos e reeducou o olhar dos mais velhos, criando, em ambos, uma percepção de que a realidade – do Presente e do Passado, sobretudo – é mediatizada, ou seja, existe o passado real, concreto, e existe o passado que o cinema nos ensinou. Nossa ideia da Chicago dos gângsters não é a Chicago dos documentos, calcada em fatos: nossa Chicago é a de Brian De Palma em Os Intocáveis. Ou seja… verdade dá lugar a simulacros. E simulacros produzem simulações da vida, ou seja, uma meta-vida, onde imagem não é só um corredor que nos leva a experiências sensíveis: imagem é a experiência em si. E o novo X-Men é uma delas. Das melhores.

James Mangold dá instruções a Dafne Keen e Jackman no set de “Logan”

O que a práxis do simulacro produziu foi um meta-cinema. Veja, por exemplo, o caso de alguns de seus maiores artesões. Pedro Almodóvar (Fale com Ela) e Wong Kar-Wai (Amor à Flor da Pele) criaram com base em seu mergulho em mestres do cinema e do folhetim (Vincente Minelli e Douglas Sirk sobretudo) uma ideia de meta-melodrama, ou seja, uma reflexão sobre os sofrimentos do querer calcados não em registros do Real, mas em noções de amar, sofrer, perder e reconquistar que o Cinema ensinou a eles. Já Quentin Jerome Tarantino (Bastardos Inglórios) passou os últimos quatro anos dedicado à lapidação do que podemos chamar de meta-melodrama: os geniais Django Livre (2012) e Os Oito Odiados (2015) não são apreensões reais de questões do Oeste “de verdade”, mas sim do Oeste de papelão que Hollywood e os spaghetti italianos nos legaram. São “mentirinhas” erguidas sobre “mentirinhas”, ficção da ficção.

Embora não tenha – ainda – o peso destes cineastas, mas já tenha um lastro autoral com base na contínua discussão da farsa como prática de sobrevivência, o diretor James Mangold fez da franquia baseada nas aventuras do mutante de guerras metálicas – Wolverine – Imortal (2013) e, agora, o brilhante Logan a instância do meta: não o meta-quadrinho, mas o meta-filme. Por um bom tempo das quase 2h20 minutos de Logan, esquecemos estar diante de um filão consagrado: o “filme de super-herói”. Estamos, sim, num thriller sobre formação familiar, bem parecido com os que Sam Peckinpah fazia entre os anos 1960 e 70, sobretudo Os Implacáveis (1972). A secura narrativa é a mesma, uma vez que mantém os pés fincados no realismo, com um ritmo de ação febril, sem jamais abrir mão de sua amargura estrutural.

Isaac Bardavid dubla Wolverine desde a estreia da animação dos X-Men na Globo, em 1994: o carcaju da Marvel apareceu nos quadrinhos em 1974

Tem um tempero de Stranger Things na fuga de Logan para proteger a menina Laura Kinney (Dafne Keen) da tropa dos Carniceiros chefiados por Donald Pierce (Boyd Holbrook, de Narcos). Ele precisa ainda defender seu mestre, o Professor Charles Xavier (Sir Patrick Stewart, dublado por Leonardo José). Neste filmaço sem cena pós créditos, reina a metalinguagem, usada por Mangold ao mostrar gibis na tela várias vezes, como um registro mítico de um herói que se esforçou para não deixar laços atrás de si. Mas estes laços, na trama, foram criados à força de seus feitos. E, na vida real, a mitologia é sequela da evolução (espantosa) de Jackman na pele deste semideus caído.