Dwayne Johnson, rocha que voa

Dwayne Johnson, rocha que voa

Rodrigo Fonseca

11 Julho 2018 | 18h04

Rodrigo Fonseca
Somadas, as bilheterias dos dois últimos longas-metragens protagonizados pelo californiano Dwayne Douglas Johnson, o eterno The Rock, totalizaram US$ 1,3 bilhão: US$ 961 milhões vieram de Jumanji – Bem-vindo à selva e US$ 425 milhões, de Rampage: Destruição total. Há uma expectativa por cifras igualmente altas de seu novo thriller, Arranha-Céu: Coragem sem limite (Skyscraper), feérica e frenética mistura de “filme-catástrofe” com Duro de Matar que estreia quinta, aqui e lá fora. No exterior, as primeiras críticas ao longa-metragem de Rawson Marshall Thurber (diretor de Família do Bagulho) falam em renovação de formatos e elogiam o talento do ator: ele vive um ex-militar que vira um expert em segurança predial, às voltas com um atentado terrorista a uma torre de luxo em Hong Kong. Há uma indisfarçável linha de filme b neste projeto, mesmo ele tendo custado cerca de US$ 125 milhões.

Chama-se filme b todo exercício cinematográfico, que feito com orçamento raquítico, compensa sua pobreza de recursos com soluções artesanais – na montagem, direção de arte e nos (de)feitos especiais –, aparentando ser uma caricatura (proposital) dos gêneros com os quais dialoga. Só pela caricatura (e sua componente essencial, a ironia) os filmes B alcançam verossimilhança, pelas vias do excesso, do destempero. O rótulo é comum a longas-metragens de horror que necessitavam de criatividade artesanal em sua condição analógica de miserabilidade tecnológica, como é o caso dos filmes de Roger Corman, Dario Argento e George A. Romero. Mas também se aplica o termo a filmes de mestres que caminham – por escolha própria – na mureta da esculhambação como crítica moral à ortodoxia (e ao bom comportamento) industrial, como é o caso de David Cronenberg, de George Miller (e seu excepcional “Mad Max: A Estrada da Fúria”) e o nosso brasileiríssimo José Mojica Marins. Mas eis que, na busca por balões de oxigênio que lhe garantam ar puro para além da repetição de fórmulas, o cinema de ação também foi bater na porta dos Bês. E encontrou ouro: há traços de John Carpenter (de Fuga de Nova York sobretudo) e até de A Dama de Shanghai em Arranha-Céu: Coragem sem limite.

Gênero soberano da estética comercial americana dos anos 1980, o cinema de ação foi condenado ao limbo nos anos 1990, sob a foice do politicamente correto, o que gerou a queda de seus ícones como Van Damme e Steven Seagal e conversou de um de seus mitos, Schwarzenegger, em político – hoje sem cargo. Como veio do drama, como Rocky Balboa, Sylvester Stallone conseguiu se reinventar por outras vias e criar uma franquia quase vintage para o filão: The Expendables. Apareceu para os filmes de ação uma saída pelas veredas do humor: Will Smith e Jackie Chan transformaram o heroísmo em chanchada, em filmes policiais de tintas cômicas. Mas a necessidade de se expurgar os males governamentais que adoecem o mundo nas mais diferentes latitudes, fez com que o cinema de ação encontrasse na linha política uma forma de escoar sua estética. Eis onde entra Arranha-Céu: Coragem sem limite, por seu olhar antiterrorismo e seu flerte com a lógica da boa vizinhança com os asiáticos.

Há sequências de perseguição memoráveis. E os saltos de Dwayne entre os prédios tiram o fôlego de qualquer mortal. E como é bom rever Neve Campbell 20 anos depois de Pânico, agora como a mulher do grandalhão. Mas uma mulher empoderada e boa de briga.

p.s.: No Brasil, Guilherme Briggs dubla Dwayne com uma descontração contagiante.