Duplo aniversário de ‘Dona Flor’

Duplo aniversário de ‘Dona Flor’

Rodrigo Fonseca

29 de junho de 2021 | 11h41

Rodrigo Fonseca
Ardidos com o sabor de cebola crua, os beijos trocados entre a quituteira Florípedes Paiva e o malandro Valdomiro Santos Guimarães, o Vadinho, na trama de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” tem duas efemérides de peso a celebrar em 2021: os 55 anos da publicação do livro de Jorge Amado (1912-2001) e 45 anos da estreia do filmaço de Bruno Barreto dele derivado. É possível vê-lo, hoje, na grade do Globoplay. Com um resultado de bilheteria épico, a produção cinematográfica decalcada da bem temperada prosa de Amado vendeu 10.735.524 ingressos no Brasil a partir de sua estreia, em 22 de novembro de 1976. Cultuado como Midas do documentário no país, Eduardo Coutinho (1933-2014) trabalhou no roteiro do filme, ao lado de Leopoldo Serran (1942-2008). Exibida no Paris Theatre de Nova York, em 1978, a love story metafísica produzida pela LC Barreto foi lançada na França em 03.08.1977, ocupando, de cara, dez salas exibidoras de Paris. Em 1979, uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme de língua não inglesa assegurou prestígio hollywoodiano a Bruno Barreto, que conquistou o Kikito de melhor direção em seu desempenho por trás das câmeras. Chegou a engatar uma carreira lá fora, assim como sua estrela, Sonia Braga. O gênio José Wilker (1946-2014), que partiu deste mundo cedo demais, também deu o ar de sua graça para a indústria hollywoodiana ao aparecer em “O Curandeiro da Selva” (1992). Bruno, que filmou há pouco o family film “Vovó Ninja”, com Glória Pires, ainda tem um projeto de tônus multinacional para lançar na HBO Max este ano: “The American Guest”, com Chico Diaz de Marechal Rondon e Aidan Quinn de Theodore Roosevelt. Vale lembrar, no elenco desse marco popular do nosso cinema, da atuação em estado de graça de Mauro Mendonça, encarnando o apolíneo Dr. Teodoro. Agora, com as projeções no streaming dessa dramédia de amor, é possível avaliar detalhes de excelência da fotografia dionisíaca de Murilo Salles. Na trilha sonora, “O Que Será”, de Chico Buarque, na voz de Simone, tornou aquela paixão de Flor e Vadinho ainda mais envolvente e sinestésica.

Aclamada mundialmente, a trama de “Dona Flor…” se passa na madruga de domingo de Carnaval em 1943, em Salvador, quando um grupo de foliões está sentado na calçada de um bar cantando e bebendo. Um deles cai morto no chão: é Vadinho. Após o enterro, Flor, a viúva, relembra seu casamento. Desde o início do matrimônio, Vadinho se mostra um aspirante a Zé Pilintra, com compulsão pelo jogo. Sai todos os dias com amigos para jogar e beber, e quase sempre chega em casa bêbado na manhã seguinte. Algumas vezes, Flor o encontra jogado na calçada. Pede dinheiro emprestado para todo mundo e adquire muitas dívidas. Chega a bater em Flor pelo fato de ela se negar a lhe emprestar algum. Além disso tem muitas amantes. Apesar de não ser um marido exemplar, Flor gosta muito dele e sente muito sua falta quando ele morre. Para ela, Vadinho era um ótimo amante. Com o tempo, Flor vai deixando o sofrimento de lado e vai retomando a sua rotina, começa a se vestir melhor e a sair mais de casa. Um dia recebe uma carta e acaba descobrindo que o farmacêutico, dr. Teodoro, está apaixonado por ela. Decide se casar com ele. Ela vive bem ao lado do marido, mas algumas vezes se sente agoniada. Um dia começa a receber visitas do fantasma de Vadinho que se insinua para ela. No início, Flor resiste e até decide recorrer a um pai-de-santo para mandar Vadinho embora, mas ela se arrepende logo em seguida e o chama de volta desesperada. A partir daí Vadinho passa a dividir as atenções de sua viúva com dr. Teodoro, criando um trisal.

Em 1998, o livro foi adaptado para a TV, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini. Nas telonas, houve uma recente nova versão, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum. Em 2019, a Televisa lançou no México uma minissérie baseada no livro de Amado, dirigida por Benjamín Cann e estrelada por Ana Serradilla. Vale lembrar ainda de uma versão da narrativa de Amado made in USA com direção de Robert Mulligan (1925–2008) e um elenco reunindo Sally Field, James Caan (genial) e Jeff Bridges, aqui batizada de “Meu Adorável Fantasma” e lá chamada de “Kiss Me Goodbye”.

Bruno Barreto dirige Glória Pires no set de “Vovó Ninja” – Still de Stella Carvalho

Acerca de “Vovó Ninja”…
Banhada a lirismo, a nova narrativa pra telona de Bruno Barreto tem como protagonista a avó Arlete, papel de Glória Pires, como quem ele fez o belíssimo “Flores Raras”, aplaudido na Berlinale em 2013. Reclusa em sua fazenda, levando um estilo de vida zen, Arlete terá que receber os netos Davi (Angelo Vital), Elis (Luiza Salles) e João (Michel Felberg) em sua casa, depois de muito tempo sem vê-los, por rusgas com sua filhota (Cleo, talentosa cria de La Pires na vida real). Arlete não tem muita intimidade nem jeito com as crianças, que são bagunceiras e estão insatisfeitas de estarem em um sítio sem internet, cheio de regras e tarefas domésticas. Após uma tentativa de roubo no local, o caçula Davi descobre que a avó tem habilidades fora do comum e, junto com os irmãos, faz de tudo para descobrir qual é o segredo dela. Barreto depurou muito da trama em papos com Glória, que compartilhou com ele ideias úteis para fazer crescer a força dramática da personagem.
“Existe um filme da Agnieszka Holland de que gosto muito: ‘O Jardim Secreto’. É uma delicada narrativa que gravita pelo universo da infância, da criança, e vai além dele”, conta Bruno ao P de Pop. “O trabalho com a Gloria, que é uma das maiores atrizes do mundo, sem deixar nada a desejar numa comparação com Marília Pêra e Fernanda Montenegro, parece uma mistura de ‘O Jardim Secreto’ com Jacques Tati. Uma mistura encarnada numa avó que já não é mais um signo da figura que deseduca, ao contrário do que as mães e os pais fazem. Aqui, a mãe é menos a figura de ordem e a avó, que é devota do kung-fu, é mais disciplinada”.

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