Dupla exposição no Louvre do Cosme Velho

Dupla exposição no Louvre do Cosme Velho

Rodrigo Fonseca

04 de dezembro de 2019 | 05h38

RODRIGO FONSECA
Registro crítico do espetáculo armado na extinta URSS durante o enterro de Josef Stalin (1878-1953), “State Funeral”, nova experiência documental do bielo-russo criado na Ucrânia Sergei Loznitsa, foi exibido na noite de terça, no 18º Festival de Marrakech num espaço que simboliza a resistência da arte e a celebração das diferenças culturais, no Marrocos: o Museu Yves Saint-Laurent. Loznitsa vai participar de um debate sobre sua produção de imagens, consagrada com prêmios em Cannes por “Donbass” (2018) e “Na Neblina” (2012), nesta manhã, no Palais des Congrès, onde serão levantadas questões acerca da exuberância do museu marroquino onde projetou sua narrativa seca, de exumação das fake News soviéticas. Nas paredes do Saint-Laurent estão expostas pinturas do francês Jacques Azéma (1910-1979), que foi morar em solo marroquino em 1930 e influenciou grandes artistas locais. Durante a visita ao P de Pop ao espaço, as recentes notícias de conflitos do Brasil contra o conservadorismo levantaram uma série de conversas sobre a atual situação das artes visuais em solo brasileiro, o que levou a um balanço de exposições atualmente em foco em nosso território. Duas novas serão iniciadas nesta quinta-feira, na Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho, RJ, um centro de referência do modernismo brasileiro, sob a direção de Lauro Cavalcanti: Duplo Olhar e O Jardim/em>.

Na primeiras, vemos um encontro conceitual entre Jose Pancetti e Geraldo de Barros. Outro, entre Di Cavalcanti e Marcel Gautherot ou Tomie Ohtake e Jose Oiticica Filho. Pintura e fotografia modernas brasileiras, lado a lado. Assim é a coletiva “Duplo Olhar”, que ficará em cartaz até 26 de abril de 2020. Com curadoria de Marcia Mello e Paulo Venancio Filho, a mostra explora as possibilidades visuais deste encontro e a unidade que dele resulta. Uma seleção de 60 pinturas da Coleção Roberto Marinho, em diálogo com aproximadamente 160 fotografias, compõem um importante documento ou visão poética da realidade do país. Dividida em sete recortes curatoriais (‘eu e minha imagem’, ‘eu e o outro’, ‘natureza-morta’, ‘cenas brasileiras’, ‘a presença do mar’, ‘a linguagem da natureza’ e ‘abstrações’), a exposição apresenta pinturas de 19 expoentes da arte brasileira: Alberto da Veiga Guignard, Antonio Bandeira, Candido Portinari, Djanira da Motta e Silva, Di Cavalcanti, Frans Krajcberg, Iberê Camargo, Ingeborg Ten Haeff, Ismael Nery, Jose Pancetti, Lasar Segall, Maria Helena Vieira da Silva, Maria Polo, Milton Dacosta, Roberto Burle Marx, Tikashi Fukushima, Tarsila do Amaral, Tomie Ohtake e Yolanda Mohalyi. A curadoria reuniu também alguns dos nomes mais relevantes da fotografia moderna, como Cristiano Mascaro, Fernando Lemos, Flávio Damm, Gaspar Gasparian, Geraldo de Barros, German Lorca, Hermínia Nogueira Borges, João Nogueira Borges, José Oiticica, José Oiticica Filho, Marc Ferrez, Marcel Gautherot, Miguel Rio Branco, Pierre Verger e Thomaz Farkas.

“Sem Título”, 1978, de Frans Krajcberg

Eduardo Salvatore, “Oposição”(Coleção Isabel Amado)

Na segunda exposição que abre neste 5 de dezembro, temos o fino toque do próprio Lauro Cavalcanti. Os jardins da Casa Roberto Marinho, uma construção neocolonial de 1939, inspiram a temática que norteia uma mostra na qual 11 artistas contemporâneos, como Angelo Venosa, Beatriz Milhazes, Carlito Carvalhosa, Iole de Freitas e Paulo Climachauska, assinam múltiplos (serigrafias, xilogravuras e objetos) que ocuparão todo o térreo da Casa. Os jardins da propriedade, que tem projeto original de Roberto Burle Marx, foi proposto como disparador para a imaginação dos artistas.

Beatriz Milhazes assina “Flor de Margarida em Vermelho, Pink e Lilás”, serigrafia: Foto de @Marcos Serrano

ICRM Múltiplos – Vânia Mignone, “Momentos (Momento I)”, 2019, xilogravura – foto Gilberto dos Santos Jr

Qual é o lugar da fotografia no coletivo de artes visuais da Casa Roberto Marinho e de que forma o arranjo armado na curadoria da mostra Duplo Olhar estabelece um diálogo entre fotos e pinturas?
Paulo Venancio:
As aproximações entre fotografia e pintura foram estabelecidas dentro das tendências artísticas modernas representadas nas obras do acervo da CRM e imagens de alguns dos mais importantes fotógrafos brasileiros.
Roland Barthes afirma que a fotografia é o tempo (e o templo) do “foi aí”, do passado que se imortaliza em instantâneos. Que passado essa nova exposição disseca, em sua arqueologia? E como o colorido da pintura ressalta (ou rebate) esse passado?
Marcia Mello:
A exposição se propõe a criar associações entre pinturas e fotografias e abrange, sobretudo, a produção da primeira metade do século XX. As pinturas fazem parte da coleção Roberto Marinho e as fotografias pertencem a 15 coleções brasileiras e incluem museus, institutos, sociedades, foto clubes e herdeiros diretos dos fotógrafos. A seleção de fotografias não se relaciona com a produção documental desse período, tratam-se de imagens que dialogam com as artes visuais e foram produzidas, em grande parte, no seio de foto clubes por fotógrafos amadores. Alguns se notabilizaram como Geraldo de Barros, José Oiticica, Thomas Farkas, German Lorca, outros permanecem conhecidos por especialistas da área. A exposição resgata fotógrafos que ainda não foram inscritos na história da fotografia. Eles estão em diálogo com os grandes mestres da pintura moderna como Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, Guignard, entre tantos outros.
A ligação entre as pinturas e as fotografias na área da exposição se deu por afinidades temáticas, algumas associações entre elas são mais literais e outras mais sutis. No conjunto de fotografias apresentadas, observamos uma tendência mais clássica, pictorialista, e outra mais moderna e sintonizada com a pintura produzida nas décadas de 40 e 50.
As fotografias expostas não se identificam com o “instantâneo fotográfico”, são composições elaboradas, algumas com técnicas incomuns nos dias de hoje como o bromóleo, a solarização, o alto contraste. Há alguns exemplares em cores, mas a grande maioria é de fotografia preto e branco. Esse confronto com as pinturas de cores vibrantes evidencia o gosto e as possibilidades técnicas da época e traz um contraste interessante para a área da exposição.

O que a ocupação do Jardim simboliza na busca por novos arranjos espaciais (ou por uma reinvenção do espaço arquitetônico pregresso) da Casa Roberto Marinho?
Lauro Cavalcanti:
A exposição “Jardim” reúne onze artistas contemporâneos, com a ideia de que cada um desses artistas, trabalhasse o termo “jardim” dentro da estrutura da sua própria linguagem. A exposição é interna, fica no salão do térreo. Ela é interessante pois vemos várias interpretações de jardins, sejam de artistas que fazem recursos à citação de história da arte, sejam de outros que colocam o jardim como o espaço da infância ou o espaço ideal, sejam outros que citam construtivistas russos. É uma exposição de obras de arte contemporânea que dialogam com o tema jardim e para nós da Casa Roberto Marinho, é muito importante manter esse vínculo com a arte que se processa hoje em dia.
Qual é o balanço do ano na casa e quais os planos para 2020?
Lauro Cavalcanti:
Em 2019, nós fizemos a individual da Djanira, a exposição “Abstratos Informais” junto com o MAM de São Paulo e ganhou o prêmio de melhor exposição de arte brasileira do ano passado e agora estamos fazendo “O Jardim” e o “Duplo Olhar”, além de termos tido uma exposição de estrangeiros na coleção Roberto Marinho.
Em 2020, vamos fazer uma exposição sobre arte e livros, reunindo artistas contemporâneos e os 100 bibliófilos, que eram pessoas que faziam encomendas à artistas para ilustrar grandes obras da literatura. Além disso, no final do ano, vamos ter uma exposição em homenagem à Lélia Coelho Frota, uma grande historiadora de arte, antropóloga e crítica. Junto com ela uma exposição de múltiplos sobre o tema “a coleção”, também com artistas contemporâneos. Desse modo fechamos o tríptico que foi casa, jardim e coleção. Sendo assim nós vamos persistir nesse nosso perfil de ser um centro de referencia de arte moderna ao lado de um olhar sobre a arte contemporânea.

Voltando ao nosso assunto original: o Festival de Marrakech segue até sábado, quando serão entregues os prêmios avaliados por um júri presidido pela atriz inglesa Tilda Swinton, que conta com o realizador pernambucano Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”) entre seus votantes. Na sexta, o filme brasileiro “A Febre”, de Maya Da-Rin, será exibido, em concurso, podendo mudar o placar em favor da América do Sul e dos povos indígenas. No longa, Maya narra os esforços do índio Justino (Régis Myrupu), um vigia do cais do porto de Manaus, para superar um misterioso estado febril que debilita seu organismo, em meio à aparição de uma fera não conhecida da fauna local em sua vizinhança. “Dente de Leite” (“Babyteeth”), drama da diretora de teatro Shannon Murphy, da Austrália, sobre uma jovem com câncer que passa por uma jornada de descobertas amorosas, é o favorito a láureas no gosto popular da cidade.

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