‘Dunkirk’ confirma sua vocação para o sucesso

‘Dunkirk’ confirma sua vocação para o sucesso

Rodrigo Fonseca

25 de julho de 2017 | 17h06

Kenneth Branagh é o comandante que testemunha a retirada dos soldados ingleses de um mar de ódio na II Guerra revisitada pelo esplendor sinestésico de Christopher Nolan em “Dunkirk”

Rodrigo Fonseca
É generalizada, nas mais diversas línguas, com raras dissonâncias, a corte que a crítica internacional faz à fina sinestesia de Dunkirk, novo filme do britânico Christopher Nolan, que chega às telas nacionais nesta quinta-feira, depois de ter faturado cerca de US$ 107 milhões pelo mundo afora. Esta produção de US$ 150 milhões começa brusca e acaba assim… num estalo… em sua recriação da batalha de Dunquerque, ocorrida de 25 de maio a 4 de junho de 1940, e vista por muitos historiadores como uma espécie de prólogo para a ofensiva inglesa nos fronts antinazistas. Seu desafio era usar o ambiente do confronto entre os Aliados e o Eixo para ir além das convenções do gênero “filme de guerra” e produzir um protótipo de pura e vívida invenção narrativa, no qual a cinemática fosse soberana. Deu certo, propiciando o mais ousado trabalho de sua carreira como realizador, no qual põe a ação física num pedestal de nobreza, evitando diálogos e dispensando protagonismos.

Numa antiga entrevista coletiva, da qual o P de Pop foi ouvinte, ele deu deixas da busca estética que move o filme, em sua evasão ultrarromântica espacial e temporal. “Mesmo quando eu saio de ambientes urbanos e vou para locais fictícios ou para outros mundos, eu busco, em termos plásticos, oferecer à plateia um universo que pareça bem perto de qualquer um de nós, que pareça real”, disse Nolan. “Não dialogo com a ficção científica buscando o limite entre fato real ou ilusão. Eu quero é fazer o espectador ver os patrimônios universais da condição humana, como o sonho, como a ideologia”.

Em Dunkirk, a sala de cinema se torna uma trincheira viva, da qual se pode ouvir os ruídos (no horizonte mais distante) dos aviões germânicos. Resfolego bem parecido se dá na sequência na qual um piloto do Reino Unido, caído no mar, luta contra a água salgada que invade seu teco-teco naufragado, incapaz de abrir a janela que o cobre. É um clima de pânico generalizado, de exasperação, que invade o écran já nos minutos iniciais, na qual o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) tenta pular um muro, fugindo dos asseclas de Hitler em seu encalço. Tudo é tensão.

“Gosto quando me classificam como um diretor de filmes de ação pelo que posso fazer com a física do cinema”, disse Nolan nos tempos da trilogia Batman. “Mas sou do tipo de realizador que faz filmes de ação que capazes de levar a plateia pensar, para gerar algo além da catarse, algo que incomode”.

Quase não se fala no filme, pois a guerra fala por si, galvanizada pela trilha sonora de Hans Zimmer e pela fotografia de Hoyte Van Hoytema, que tornam Dunkirk algo incomparável como espetáculo entre todos os filmes lançados em 2017 até aqui. Vale um destaque para a atuação de Kenneth Brannagh na farda de um comandante que aguarda a retirada das tropas inglesas. Interpretação memorável.