‘Druk’: Vinterberg num brinde à vida

‘Druk’: Vinterberg num brinde à vida

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2020 | 10h31

Thomas Vinterberg e o ator Mads Mikkelsen na coletiva de “Druk”, em San Sebastián: filme briga pela Concha de Ouro

Rodrigo Fonseca
Apesar de toda a gentileza que esbanjou, ao lado do amigo e colega Mads Mikkelsen, ao longo da coletiva de imprensa de “Druk” (“Another Round”), o diretor dinamarquês Thomas Vinterberg devastou seus interlocutores nos momentos finais da conversa ao falar da morte de sua filha, Ida, a quem o inebriante longa-metragem é dedicado. Em 2019, a jovem morreu em um acidente de trânsito, quando o projeto já estava em andamento.
“Foi muito difícil seguir e ainda é duro falar disso, mas ela gostava muito do projeto, sobretudo por ele ser uma afirmação da vida. Decidimos que, por isso mesmo, era importante seguir”, disse o diretor, que retoma sua parceria com Mikkelsen, de “A Caça” (2012). “Ele é um ator espetacular, que tem um domínio cênico sobre tudo o que propomos”.

San Sebastián tomou um porre de doer o coco do copo de “Druk”, traduzido mundialmente como “Another Round”. No Brasil, a melhor tradução para este drama etílico seria “Saideira”, não só pela expressão idiomática sugerir uma cana pesada, mas por sintetizar um fim de festa. É nesse tom que o professor de História Martin (Mikkelsen, assombroso em cena) começa sua participação numa narrativa que fala não de bebedeiras, mas da ressaca moral que a vida adulta nos impõe.
“Mais do que falar sobre bebidas, este filme fala de descontrole. Como havia um ator ligado ao AA no set, nenhuma bebida foi servida. Tudo era sóbrio”, afirma o cineasta, consagrado em 1998 com “Festa de Família”. “Ali, vivíamos o Dogma, movimento em que a amizade era um elemento importante”.

Chancelado com o selo cannoise de 2020, “Druk” foi aclamado em sua passagem pelo TIFF – Toronto International Film Festival e veio a Donostia (o nome com que San Sebastián é conhecido no dialeto local, o Euskara) para sair devidamente consagrado e, quiçá, premiado. Mikkelsen tem um desempenho sublime, mais do que seu habitual. Porém o roteiro escrito por Vinterberg com Tobias Lindholm é tão possante quanto sua atuação. Nele, Martin, em baixa em sua carreira e em seu casamento, recebe o apoio dos amigos, que o desafiam a um experimento: testar, na prática, a máxima de que o corpo humano tem uma carência essencial ao álcool. A cada gole, ele vai se soltando, crescendo, empoderando-se. Mas há um limite para a bebida na contenção de seus demônios. “O que a gente quis fazer aqui foi narrar uma situação em que é importante se agarrar à vida”, diz Mikkelsen.

É curioso – e transgressor – o modo como Vinterberg enquadra o ato de beber. Não se trata de um verbo a ser conjugado na desinência da culpa, como em “Farrapo Humano” (1948), ou do suicídio, caso de “Despedida em Las Vegas” (1995). Beber, em “Druk”, é apenas uma prática de socialização. Cabe a quem bebe tomar conta de seus diabos. Ou soltá-los. É uma postura de coragem de um realizador que sempre enverga tabus. Que o júri, chefiado pelo italiano Luca Guadagnino (que dirigiu o poema “Me Chame Pelo Seu Nome”), reconheça sua força e todo o seu encantamento. Vinterberg é dos grandes. E seu novo trabalho é colossal.

San Sebastián segue até o dia 26. Neste domingo rola por aqui o longa brasileiro “Todos os Mortos”, no qual os diretores Caetano Gotardo e Marco Dutra expõem a decadência da aristocracia cafeeira de SP denunciando o racismo nesse universo.

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