‘Drive’… e assim se passaram dez anos

‘Drive’… e assim se passaram dez anos

Rodrigo Fonseca

19 de fevereiro de 2021 | 11h41

Rodrigo Fonseca
Era uma quinta-feira, véspera do encerramento da seleção competitiva do Festival de Cannes de 2011, com “O Garoto da Bicicleta”, dos Dardenne Bros., e “A Árvore da Vida”, de Malick, no centro das atenções, quando Ryan Gosling atravessou a telona da Croisette com um martelo na mão, para cumprir uma sina anti-heroica que faria de “Drive” um marco do cinema de ação, em termos plásticos e dramatúrgicos. Marco este que acaba de entrar na grade da MUBI, além de flanar pela Amazon Prime. À época de sua incursão cannoise, ninguém deu muita bola para a participação do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn entre os concorrentes, com algo que parecia ser um thriller de corrida estilizado, e só. Um thriller sobre um dublê especializado em pilotagem que, à noite, dirige pra assaltantes em roubos arrojados. Duas semanas antes, o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features, cantara aqui pro P de Pop a pedra filosofal: “Se liga nesse filme do Refn que só se fala dele nos bastidores da indústria, dizendo ser uma surpresa”. O xará falou, tá falado: o Estadão ficou ligado e foi pra projeção cheio de curiosidade. Já nas primeiras sequências a evocação à década de 1980, com especial alusão a “Atraídos Pelo Perigo” (“No Man’s Land”, 1987), de Peter Werner, já serviu como uma preciosa “fábula de apresentação”, termo técnico da escrita de roteiro para a introdução de personagens. Na sequência, o Palais des Festivals deleitou-se ao ver Gosling num papel sem nome – chama-se apenas O Motorista – num devir samurai, taciturno e focado, disposto a tudo para conseguir paz para a mulher por quem está apaixonado (Carey Mulligan). Esta tem um filho com um marginal fracassado (Oscar Isaac) que, num vacilo, atrai a antipatia de um exótico gângster, Bernie Rose, papel que tirou a poeira há anos depositada sobre os ombros de Albert Brooks. O comediante por trás de “Relax” (1985) e “Um Visto Para o Céu” (1991) fez ali uma interpretação magistral, coroada com uma indicação ao Globo de Ouro, num papel sem riso, pautado pela vilania. Num determinado momento, o Motorista, em meio ao conserto de um carro, cheio de graxa nos dedos, tromba com Bernie pela primeira vez, que lhe estende a mão para um cumprimento. Gosling, impávido, apenas olha e diz: “Minhas mãos estão sujas”. Brooks devolve o olhar e crava: “As minhas também”, referindo-se ao histórico de crimes em seu passado. Dali pra frente, um choque de forças vai se estabelecer diante do olho da plateia. Seu primeiro público, o de Cannes, saiu chocado com a maneira como Refn conseguiu extrair poesia de uma matéria tão desgastada quanto as histórias de acerto de contas.

Refn já havia demonstrado potência em seu “Pusher” (1996) e no poderoso “Valhalla Rising” (“Guerreiro Silencioso” por aqui), de 2009, também na grade da Amazon Prime, com Mads Mikkelsen em estado de graça. Mas estes, assim como “Bleeder” (1999) e o agigantado “Bronson” (2008), eram mais estudos sobre a violência do que exercícios de gênero. “Drive”, não. Era um misto dos dois e algo além. Acabou que o realizador saiu de Cannes com o prêmio de melhor direção, dado por um júri presidido por Robert De Niro. Baseada em romance de James Sallis, essa tensa produção de US$ 15 milhões faturou US$ 77 milhões e ainda concorreu ao Oscar de edição de som, configurando-se como um cult instantâneo, que hoje comemora dez anos sob os auspícios da www.mubi.com, a plataforma de curadoria humanizada. Refn fez ainda mais duas joias: “Só Deus Perdoa” (2013) e “Demônio de Neon” (2016), ambos lançados por Cannes. Tem ainda a série “Muito Velho Para Morrer Jovem” (2019), também na Amazon Prime. E ele está desenvolvendo uma particularíssima versão de “Maniac Cop” (1988), cult trash de William Lustig.

Refn dá instruções a Ryan Gosling no set de “Drive”, hoje na MUBI

p.s.: Embalado por clássicos do cancioneiro brega, como “Alma Gêmea”, “Sandra Rosa Madalena”, “Garçom”, “Escrito nas Estrelas”, “Você Não Vale Nada, Mas Eu Gosto De Você” e “Evidências”, o espirituoso espetáculo “O Meu Sangue Ferve Por Você” volta ao cartaz, agora em temporada online, de 26 de fevereiro a 21 de março, com sessões gratuitas de sexta a domingo, às 20h. Sucesso de público e crítica há mais de 10 anos, o musical estava em cartaz em março do ano passado e teve sua temporada interrompida devido à pandemia. Com roteiro de Pedro Henrique Lopes, direção de Diego Morais e direção musical de Tony Lucchesi, a comédia lotou os teatros por onde passou, ao contar a história de um quadrilátero amoroso que vive intensamente as alegrias e as dores do amor. Nas apresentações atuais, será exibida uma gravação do espetáculo feita no teatro, com opção de assistir também com audiodescrição e intérprete de libras. A nova temporada contará com lives com os atores, oficina sobre criação de projetos culturais e masterclass de humor.

p.s.2: Realizador do cult “Ilha das Flores” (ganhador do Prêmio do Júri na Berlinale 1990), o cineasta gaúcho Jorge Furtado se une ao Centro Cultural b_arco, Casa de Cinema de Porto Alegre e Projeto Paradiso para promover um curso inédito de criação de roteiro. Com início para 16 de março, o curso será dividido em 27 aulas, que podem ser assistidas no período de um ano, quando e onde quiserem, inaugurando um novo formato de cursos gravados: o b_arco on. Aproximadamente 230 vagas serão destinadas para instituições e ONGs parceiras do Projeto Paradiso como uma forma de ampliar e democratizar o acesso ao conteúdo. A realização é do Centro Cultural b_arco, Casa de Cinema de Porto Alegre e do Projeto Paradiso, iniciativa filantrópica de apoio ao audiovisual nacional, mantido pelo Instituto Olga Rabinovich. As aulas abordam temas fundamentais do roteiro cinematográfico: os elementos da linguagem, as etapas de desenvolvimento do roteiro, os personagens, a trama, as cenas, os diferentes gêneros e formatos. Informações no https://barco.art.br/.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.