Drama musical de Sérgio Machado vira sensação no exterior

Drama musical de Sérgio Machado vira sensação no exterior

Rodrigo Fonseca

01 de agosto de 2016 | 14h00

Cartaz francês da produção estrelada por Lázaro Ramos

Cartaz francês da produção estrelada por Lázaro Ramos, vista por 50 mil pagantes no Brasil

RODRIGO FONSECA

Ímã de elogios por onde passa no exterior, Tudo o Que Aprendemos Juntos, do baiano Sérgio Machado, vive hoje, fora do Brasil, uma experiência rara para uma produção brasileira: ele vem se tornando um pequeno fenômeno de crítica e público no exterior, em circuito europeu e asiático. Seu êxito em terras estrangeiras começou pelo fato de ele ter iniciado sua carreira comercial na França – um dos principais termômetros audiovisuais de adesão no Velho Mundo – com 72 salas de exibição. Na última sexta-feira, a produção estrelada por Lázaro Ramos, na pele de um violinista às voltas com estudantes da periferia de São Paulo, expandiu seu terreno pela Suíça (onde ele abriu o Festival de Locarno, em 2015), ocupando 15 salas… a maioria lotadas.

Agora em agosto, no dia 12, o longa-metragem se aboleta na Espanha, onde ganhou um banner tamanho GG nas ruas do mesmo porte do de Esquadrão Suicida – o filme de maior expectativa do ano no mundo. E, no dia 13, é a vez do Japão. Coreia e Israel já estão na reta deste drama musical, vendido também para a Alemanha, a Itália, a Turquia, a Grécia e o Canadá, numa trilha de muitos idiomas, onde o longa funciona como uma espécie de esperanto afetivo, sendo encarado como um “Cidade de Deus fofo” em seu olhar sobre estratégias de inclusão.


Na revista Le Nouvel Observateur, em meio à sua estreia em Paris, Tudo o Que Aprendemos Juntos recebeu cotação máxima e foi coroado por uma resenha toda apaixonada, escrita por François Forestier: “Bate nesse filme um coração grande”. Na TV francesa, o programa CultureBox o classificou como “uma lição de humanismo”. E os afagos no longa se estendem a outras línguas, como comprovou a recepção cheia de mimos que Machado recebeu em sua passagem pela televisão japonesa.

“A gente vai estar em cartaz em cerca de 20 países, mas, há cerca de uma semana, o prestígio internacional do filme explodiu, não só pela comunicabilidade da música, mas também pelo interesse em torno do Brasil, por conta dos Jogos Olímpicos”, diz Sérgio Machado, lembrando que, no Japão, os distribuidores lançam Tudo… com expectativa de uma bilheteria similar à de Cidade de Deus. “Como ele é um filme otimista, que enxerga os problemas da realidade mas sugere um caminho de inclusão, pela música, a recepção a ele é muito calorosa”.

A publicidade de Israel

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Recém-saído da finalização de A Luta do Século, documentário sobre dois lendários boxeadores do Nordeste, Sérgio vê o interesse europeu pelo cinema nacional crescer. “Além do prestígio que alcançamos lá fora com Que Horas Ela Volta? e Casa Grande, há uma curiosidade grande já em torno de Aquarius, por tudo o que o filme do Kleber Mendonça conseguiu de visibilidade em Cannes. Há um interesse forte por nossos filmes. O que me deixa curioso é perceber que Tudo o Que Aprendemos Juntos pode fazer, na França, mais espectadores do que alcançou no Brasil”, diz o diretor, lembrando que a venda de ingressos do filme em solo nacional beirou 50 mil pagantes.

No último dia 24, o diretor, renomado aqui por Cidade Baixa (2005), conquistou o prêmio de melhor filme no Festival de Giffoni, na Itália, considerado o maior evento do gênero do mundo dedicado a jovens. Seu júri é composto por 4000 jovens de 51 países. “A parte musical do filme bate muito forte”, diz Machado.

O cartaz do Japão

O cartaz do Japão

Com um ritmo febril de edição ao mergulhar nas comunidades mais pobres de São Paulo, Tudo o Que Aprendemos Juntos se desenha na tela a partir de uma fotografia de iluminação vívida, arquitetada por Marcelo Durst (de Estorvo). Dois nomes nos créditos de roteiro – o de Maria Adelaide Amaral (veterana da teledramaturgia, responsável por pérolas como A Muralha) e o de Marcelo Gomes (realizador do cult Cinema, Aspirinas e Urubus) – justificam a dosagem parcimoniosa de emotividade na trama, sempre aberta a distanciamentos. Sua base é a peça (depois vertida em livro) de Antonio Ermínio de Moraes chamada Acorda Brasil!, com base em um caso real. O enredo se concentra nos esforços do violinista Laerte (vivido por um inspirado Lázaro) para se reinventar como educador em uma escola da perifa paulistana, após ter perdido a chance de entrar para a Osesp. Sua tarefa é ensinar Música para uma trupe de adolescentes que, caso galguem os degraus da eficácia, podem vir a impressionar os olheiros de uma ONG.

 

 

 

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