Dra. Nise sobe o morro e prestigia a Flupp

Dra. Nise sobe o morro e prestigia a Flupp

Rodrigo Fonseca

29 Outubro 2015 | 20h17

Glória Pires estrela

Glória Pires estrela “Nise – O Coração da Loucura”, no papel da médica que revolucionou o tratamento psiquiátrico no país, contracenando com talentos como Fabrício Boliveira

Ganhador do prêmio de júri popular no Festival do Rio 2015, Nise – O Coração da Loucura, de Roberto Berliner, vai bater ponto em um dos eventos de maior relevância ética do Brasil na atualidade: a Festa Literária das Periferias (Flupp), agendada de 3 a 8 de novembro no Rio de Janeiro, no Complexo Babilônia/Chapéu Mangueira, no Leme. Idealizado e coordenado pelo escritor Julio Ludemir, em parceria criativa com o também autor Écio Salles, o evento vai projetar longas-metragens debruçados sobre as fraturas da sanidade numa mostra de cinema paralela a seus debates sobre prosa e poesia. Nos dias 4, 5 e 6, a partir das 19h, serão projetados os três tomos de Imagens do Inconsciente (1983-85), de Leon Hirszman (1937-1987): Em Busca do Espaço Cotidiano, No Reino das Mães e A Barca do Sol. No dia 7, é a vez de Nise, sempre em exibição na telona do Mandala Afeto Catalizador.

Com uma embalagem de drama histórico, em sua reconstituição do Rio de Janeiro dos anos 1940, o longa-metragem faz um recorte (bem) demarcado na biografia da alagoana Nise da Silveira (1905-1999), médica responsável por uma rediscussão das práticas violentas no atendimento a pacientes com distúrbios mentais. Com Glória Pires no papel central, o longa se debruça sobre um período estimado em cerca de uma década no qual Dra. Nise é reintegrada ao serviço público e vai cuidar dos internos do Cento Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro. Lá, Berliner alinhava um estudo sobre vaidades vs. altruísmo.

Há uma correspondência direta de métodos de filmagem e de abordagem entre o filme de Berliner e um clássico nacional nas telas: Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos. Ambos se instauram num ambiente de confinamento, ambos têm como eixo uma radiografia das micronarrativas de cada indivíduo que integram seus ambientes e ambos focam em um protagonista idealista. Mas os muros que cerceiam a liberdade dos encarcerados de Nise são patrulhadas por jalecos brancos de médicos e enfermeiros e não por fardas policiais. Na direção, Berliner extrai uma atuação magistral dos coadjuvantes encarregados de interpretar os pacientes de Dra. Nise que se destacaram nas artes, sobretudo dos atores Simone Mazzer, Roney Villela e Cláudio Jaborandy.s

p.s.: Acerca das delícias mil da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não perca, neste fim de semana, a chance de ver, de um fôlego só, os três volumes do tríptico As Mil e Uma Noites, talvez a mais arrebatadora criação contemporânea do cinema português, pilotada por Miguel Gomes e apresentada ao mundo em maio, no Festival de Cannes, pela Quinzena dos Realizadores. No dia 1º de novembro, o CineSesc projeta na sequência as seis horas do projeto, divididas entre O Inquieto, O Desolado (este, uma obra-prima absoluta) e O Encantado. Tudo de 15h às 22h.

p.s.2: Em terras cariocas, nas areias de Copacabana, o Cine Joia, novo bunker de resistência ideológica, prepara a estreia de um longa de faroeste paraguaio: Luna de Cigarras, de Jorge Diaz de Bedoya. Na trama, um americano de passagem pelas paisagens paraguaias vai descer aos submundos do país numa trama afogada em chumbo.